Rio Pinheiros, São Paulo: fonte constante de odor insuportável (Creative Commons)

Uma pergunta pros paulistanos

Como conseguimos conviver com o fedor insuportável do Rio Pinheiros e da Estação Tamanduateí?

Fui pesquisar e perguntei pra alguns amigos. Quatro me responderam.

“Pegava o trem na estação Santo Amaro e descia na Cidade Universitária quase todos os dias de 2000 a 2004. Sentia o cheiro ruim todos os dias. Não sentia nojo, mas sentia o cheiro; ele nunca se tornou insignificante.”
“Tamanduateí SEMPRE fede, sem exceção. E sempre escuto pessoal comentando ‘nossa, que fedor aqui’. Às vezes eu tou no trem, vindo ou indo pro Brás, daí as portas abrem e o cheiro vem e viaja com a gente.”
“Pego o trem em Pinheiros e vou até o Morumbi de terça a sexta. Moro em SP há 3 anos, comecei a pegar o trem diariamente em Pinheiros em março do ano passado. Sinto um fedor tenso entre Pinheiros e Vila Olímpia, principalmente nos dias mais quentes.”
“Pego o trem mas não passo pela Tamanduateí. Moro aqui há 9 anos. Todo dia, quando o trem passa lá, sinto o cheiro. Nunca me acostumei e sinto nojo todo dia.”

Veja: a primeira polêmica que quero tirar da frente é a possibilidade deste texto ser interpretado dentro daquele espírito bairrista, próprio de torcedores, que a todos nos divide, ainda que nos divirta na maior parte das vezes. O Fla x Flu, o SP x Rio, o capital x interior são mesmo dignos de sacanagem — kuekuekuekue — , mas também precisam ser postos de lado quando vamos falar sério sobre pertencer, no final do dia, a uma cidade ou outra.

De verdade: não é nada particular contra paulistanos, grupo ao qual me considero incluído, aliás. Pra facilitar, vamos pensar em um critério pra paulistano que sirva neste texto. Por mim, eu diria que paulistano é toda pessoa que nasce na cidade de São Paulo ou quando São Paulo passa a ser a cidade onde a pessoa mora há mais tempo do que já morou em outra cidade. Sendo assim, eu sou paulistano, pois moro aqui faz 17 anos (morei 9 anos na cidade em segundo lugar nesse ranking de tempo, e nem é minha cidade natal). Morando aqui há tanto tempo, claro que me sinto um local.

Mas, aproveitando a vibe eleitoral que se aproxima neste 2016 muito louco, vou adotar neste texto o seguinte critério pra paulistano: o cidadão que vota na cidade. O eleitor que vota em São Paulo. E é pra esse paulistano que faço a pergunta:

Como e quando passamos a aceitar conviver com o fedor insuportável do Rio Pinheiros e da Estação Tamanduateí?

Desde que moro na cidade, sempre fui obrigado a sentir esse cheiro fétido e insuportável. É o peido do demônio: única descrição possível que imagino quando inalo esses odores ruins. Se distraído no trem ou no metrô, o alerta de que estou próximo a esses lugares é sentir o nada silencioso pum de satanás.

No fundo, estamos falando de poluição. Os rios Tietê e Pinheiros são famosos por sua poluição. Por que esses rios continuam poluídos há tanto tempo? Décadas e décadas? Não sabemos. Podemos tentar descobrir e provavelmente seremos soterrados por caminhões de justificativas e caçambas de boas intenções. “Há projetos”, dirão talvez. Ou coisas irritantemente óbvias, como que “pra despoluir esses rios, é preciso despoluir todos os córregos que desaguam neles” — o que é mais ou menos a mesma coisa que responder “pra cozinhar a salsicha é preciso esquentar a água” a quem te pede um cachorro quente.

O Tietê dizem que não tá mais tão ruim como já foi, ou não tão horrível como o Pinheiros ainda é hoje em dia. O Tietê teria assim que voltar a ser poluído se quisesse cheirar tão mal quanto o Pinheiros, então boa sorte se tentar.

No começo de 2007, quando, por conta do trabalho, passei a pegar todo dia o trem que corre na margem do Pinheiros, o espanhol, mandei um email pra prefeitura e pro governo do estado. O título era “Salvem as capivaras”:

Entre a linha do trem e o rio há uma pequena estrada asfaltada, aparentemente usada por carros públicos. Nessa estrada, há diversas placas com o aviso:
ATENÇÃO — CUIDADO — ANIMAIS SILVESTRES — CAPIVARA
As capivaras moram nas margens do rio desde muito antes do homem ocidental-’civilizado’ chegar até Pinheiros. As capivaras moram lá, nadam lá, vivem lá. Desde sempre.
A primeira questão que quero respondida é: por que colocar placas pedindo cuidado aos carros pra não atropelarem as capivaras sendo que o rio em que elas moram é poluído, morto e fétido? Por que salvar as capivaras do atropelamento mas não salvar o próprio lugar em que elas vivem, que é muito mais importante?
[…] desde segunda passada tenho usado diariamente o trem na linha que segue paralela ao rio Pinheiros, e tudo ali é deprimente: o odor horrível que sai do rio e somos obrigados a respirar, o rio escuro e parado, além dos gases tóxicos exalados pelos dois lados da marginal.
A segunda questão que quero respondida é: quando começam os trabalhos de despoluição completa do rio Pinheiros?

O governo do estado agradeceu o contato e disse que “assim que possível enviaremos as informações solicitadas ou encaminharemos sua mensagem ao devido órgão para que providencie resposta”. Claro que a resposta nunca veio.

A prefeitura respondeu. Disse que a despoluição dos rios era de responsabilidade do governo estadual e não do município. Curiosamente, o governador naquela época era o Serra, que abandonou a prefeitura, deixando o cargo pro seu então vice, o Kassab. Ou seja, poderia-se esperar algum alinhamento sobre o tema se ele fosse mesmo prioritário pros envolvidos, certo?

Mas e a Estação Tamanduateí? O que tem a ver com poluição? Eu achava que a fonte de cheiro ruim fosse a poluição do rio mais próximo, mas não. Em 2014, quando escrevi ao metrô pra reclamar, eles me contaram o que acontece (destaco abaixo):

Informamos que na estação Tamanduateí existe — próxima à Estação (Saida pela CPTM) — uma pequena estação de tratamento de esgoto operacionalizada pela SABESP e, devido a falta de chuvas e tempo com umidade extremamente baixa este odor é extremamente perceptivel.
 Esperamos contar com a sua compreensão

É, talvez nos falte compreensão…

Bom, mas se não é uma poluição como a dos rios, passa a ser quando ofende nossos sentidos. Não foi essa a motivação da Lei Cidade Limpa, a poluição visual, que prejudicava a paisagem social?

E, de certo modo, é trágico pensar que entre todas as decisões contra poluição já tomadas na cidade, a que mais e melhor avançou é justamente a de maior impacto sensitivo, mesmo sendo certamente o tipo de poluição de menor prioridade. Quantos problemas de saúde a poluição visual causa(va)? Agora pense nas doenças que a poluição dos rios e a do ar nos causa, a começar pela sensação constante de nojo.

Considerando isso tudo, confesso que o mais chocante é a inesperada conclusão de que o que pode estar adiando a solução desses malcheirosos problemas é a nossa falta de sensibilidade. Mas como?

É chocante e inesperado pois a única representação que me vem em mente quando tento fingir estar insensível a esses fedores é a de ter em minha frente um lutador de boxe gigantesco e de luvas dando porrada na minha cara e eu pateticamente agindo como se isso não estivesse acontecendo. Me sinto ridículo quando algo tão descarado está há tanto tempo sendo imposto ao meu olfato.

Esses dois fedores da cidade são agressivos e não podem contar com a nossa falta de sensibilidade. Não pode ser normal sentir um cheiro tão ruim assim. Não podemos nos tornar insensíveis aos problemas da cidade nesse nível fundamental, que é o dos nossos sentidos!

Por isso pergunto:

Paulistanos, como e quando nos tornamos insensíveis aos nossos próprios sentidos?
O que precisamos fazer pra isso mudar, meu Deus?
O que falta? Tempo? Dinheiro?

Precisamos saber, não basta mais só sentir.

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