Não entendo, mas quero falar: a ignorância que mata

A atriz Irene Ravache fez um vídeo falando a respeito do direito ao cumprimento de pena no regime semiaberto, concedido à Anna Carolina Jatobá, que está presa desde 2008. Os advogados de defesa alegam, com razão, que a condenada cumpriu o tempo mínimo exigido para a progressão do regime, tem bom comportamento etc. e tal. O próprio Ministério Público concordou com a progressão do regime, que é perfeitamente legal.

A atriz, entretanto, começa o vídeo com a seguinte frase: “Não entendo de leis e não quero falar delas, quero falar de Isabella”. Ora, se não entende de leis, por qual motivo falar delas?

A manipulação emocional com base no “mas ela matou a enteada” é cruel, porque faz pensar que Anna Carolina Jatobá não está submetida às leis; ela está, cumpre pena todos os dias, numa cela fechada, enquanto tu escreve baboseira sem respaldo legal algum, porque crê, junto com teu umbigo e teus confortos, que quem entende de justiça é tu. Este tipo de manipulação faz pensar que Anna Carolina está num spa de luxo. Faz pensar que estar preso é ótimo. Faz ignorar que temos cadeias superlotadas que, mesmo não sendo o caso de Anna Carolina, é o caso da grande maioria da população carcerária, que não é branca, não tem grana pra pagar advogado e fica lá apodrecendo, às moscas, enquanto tu senta em frente ao computador pra bradar por leis mais rígidas, tendo como base UM caso de homicídio.

Aliás, esteja ciente: somente uma faixa de 5% a 8% dos assassinos são punidos (procura no google!). Ou seja, tu fica aí pedindo por punição mais rígida pra supostos assassinos que já estão presos, enquanto o esforço policial gasta muito mais energia prendendo pobre preto que roubou iPhone na esquina ou vendeu droga pra ter o que comer mais tarde. Tu legitima um sistema que não tá nem aí pra tua vida, só pro teu patrimônio. Tu quer que o sistema seja mais bruto porque tu pensa que ele se importa e porque ele nunca é bruto contigo. Venho trazer novidades: o sistema não tá nem aí pra tu, pra tua justiça ou pra vida de Isabella.

Não me leve a mal, você que me lê, mas de boas intenções o inferno está cheio. O grande problema em nós é que sempre pensamos que o mundo é dividido entre bons e maus e, surpreendentemente, atolados no nosso próprio ego, consideramos que somos sempre os bons. O grande problema é que nunca pensamos que o outro é capaz de se regenerar, porque, no fundo, gostamos da ideia de que os maus são maus e pronto, sem qualquer tipo de salvação, enquanto nós continuamos plenamente bons.

Se tu, que me lê, pensa que não há justiça neste mundo, é teu direito. Não é teu direito, contudo, espalhar inverdades pautadas em ignorância, buscando uma suposta justiça extremamente seletiva e subjetiva, com finalidades que podem até ter um lado bom, mas que no fim do dia somente geram mais ódio numa população já inflada de sede de justiça cega.

Se tu não sabe, 
é simples:
não fale.