ARTE E POLÍTICA NA CIDADE LINDA

*** Rafic Ayoub

“A arte é a magia liberta da mentira de ser verdadeira, com a sublime missão de introduzir o caos na ordem!” ( Theodore Adorno)

Sou de uma geração que foi criada sob ameaças permanentes de punição a cada “arte” praticada na infância e na adolescência.

Cada transgressão, intencional ou não, era tratada com o rigor das palmadas, chineladas e castigos severos que variavam de acordo com o grau e consequências da “arte” cometida.

Essa associação entre arte e desordem era muito comum sempre que os pais se referiam ao comportamento fora dos padrões convencionais de normalidade educacional dos filhos: “ele faz muita arte, não se pode descuidar nem um minuto sem que ele invente e apronte uma desordem”, desabafavam inconformados.

Essas reminiscências ressurgiram fortes em minha mente no preciso instante em que o Prefeito João Doria, travestido falsamente de gari, provavelmente com um modelito especialmente criado para ele por um desses estilistas que povoam as passarelas exclusivas e excludentes da São Paulo Fashion Week, lançou o seu asséptico programa “Cidade Linda” que, ao contrário da visão anarquista de Theodore Adorno, não contempla a arte como um caos na ordem vigente.

Com um visual de faxineiro fashion tão convincente quanto uma rainha Elizabeth fantasiada de camareira, o Prefeito João Dória deu inicio à sua insana cruzada de combate à arte de rua, num esforço direcionado de aprisionamento e de eliminação pura e simples dos criativos e espontâneos grafites espalhados pelas praças, ruas e avenidas da Cidade, produzidos por diversos artistas anônimos durante a gestão anterior de Fernando Haddad.

Inspirado por uma visão política e elitista de arte rigorosamente dissociada da realidade de um novo mundo e uma nova estética marcados por uma liberdade criativa diversa, tolerante e sem quaisquer tipos de preconceitos, o prefeito João Dória fez a opção por uma política cultural equivocada, restritiva e manipulada que, enganosa e deliberadamente, culpa a arte pelo deprimente quadro de pobreza urbana produzido historicamente por sucessivas gestões públicas de exclusão social, artística e cultural.

Sem a menor sensibilidade para compreender e aceitar as manifestações artísticas de rua também como instrumentos de expressão política e social, o prefeito João Dória, travestido de gari fashion, tenta emular as ações midiáticas do falecido ex-prefeito Jânio Quadros que para conquistar a simpatia do eleitorado, simulava até caspas sobre os ombros de seus paletós deliberadamente puídos e amarfanhados.

Os antigos conceitos políticos e estéticos que aprisionavam e restringiam a arte em suas diversas manifestações às excludentes, frias e elitistas vernissages, galerias e museus que parecem ainda orientar os padrões e conceitos de arte do prefeito João Dória, já fazem parte de um passado e de uma realidade que não comporta mais o entendimento de uma arte universal e sem confinamento ou fronteiras.

Essa visão deformada da arte e suas potencialidades que o prefeito João Dória vem esculpindo certamente inspirado pelos ateliês elitistas instalados nos sofisticados bairros dos Jardins e Vila Nova Conceição, nos ajuda a identificar as raízes dos padrões estéticos e referências que orientam o seu programa Cidade Linda, uma farsa demagógica rigorosamente apartada da realidade e incapaz de absorver e expressar o verdadeiro espirito da cidade de São Paulo, com os seus mais de 20 milhões de habitantes e prioridades e demandas tão mais reais e difusas como um caos na ordem por ela estabelecida. Miserere Nobis!