INVESTIMENTOS E RESPONSABILIDADE CORPORATIVA
*Rafic Ayoub
Por iniciativa de um grupo de investidores brasileiros e portugueses, recentemente foi anunciada a criação do banco Granito & Capital, uma instituição focada no chamado investimento responsável, com sede em Londres e um mandato para captar US$ 2 bilhões para projetos nas áreas de energia renovável, saúde, desenvolvimento urbano, infraestrutura e finanças.
Dedicado exclusivamente a projetos com retorno não apenas financeiro , mas também social e ambiental, num setor que movimenta hoje cerca de US$ 30 trilhões em todo o mundo globalizado, esse novo banco surge trazendo como bandeira a árdua missão de subverter a velha lógica que predomina nesse mercado de que quanto maior o risco, maior será o retorno.
Sabiamente, a nova instituição desenvolverá suas operações apoiada num conceito original e, até agora, inédito, de que quando eliminados os fatores de risco tipicamente de responsabilidade corporativa como, por exemplo, de gestão ambiental, social e de governança, cria-se um novo valor que impacta diretamente na qualidade dos ativos, provocando um retorno significativamente maior dos investimentos realizados.
Orientada pela certeza de que é possível, ao mesmo tempo, fazer bem e fazer o bem, essa nova instituição, se fizer bem feito, candidata-se a ser uma referência e um diferencial nos mercados financeiro e de negócios globais, comprometidos até hoje com as velhas práticas do capitalismo selvagem e predador que busca e prioriza apenas o lucro pelo lucro, sem agregar quaisquer outras virtudes capazes de transformar, verdadeiramente, essa triste e nociva realidade do mundo contemporâneo.
Essa nova filosofia operacional proposta pelo banco Granito & Capital consagra e coroa todo discurso e prática propostos pioneiramente no final da década de 1990 através do gabarito de responsabilidade corporativa que desenvolvi à frente do IPRAXIS — Instituto Brasileiro de Responsabilidade Corporativa e lançado com muito sucesso através de um seminário específico realizado em parceria com a FGV — SP — Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, com a participação de representantes das maiores empresas de auditoria do mundo e, principalmente, de inúmeros convidados e especialistas nacionais e internacionais.
Paralelamente a uma imprescindível necessidade de criação de uma nova cultura nos universos empresarial, industrial e financeiro e de negócios, o referido gabarito proposto pelo IPRAXIS contemplava uma série articulada de programas específicos que incorporados às práticas e rotinas empresariais, revelavam com absoluta correção e fidelidade, a qualidade da gestão, a situação econômico-financeira, filosofia operacional e, principalmente, o seu comprometimento com as políticas de proteção e preservação ambiental , de relacionamento social e institucional com os seus múltiplos públicos de interesse, incluindo o poder político em seus três níveis (municipal, estadual e federal) clientes e consumidores, colaboradores, acionistas, fornecedores, além de uma total transparência fiscal e tributária.
Durante o referido seminário internacional realizado em parceria com a FGV-SP, a questão que mais se destacou ao longo dos inúmeros painéis de debates, foi exatamente a necessidade imediata de adoção desse gabarito, (cuja íntegra encontra-se disponível no site do IPRAXIS — instituto Brasileiro de Responsabilidade Corporativa) não só pelo setor da iniciativa privada, como as empresas de capital aberto e demais instituições e agentes dos mercados financeiro e de capitais, mas também e, principalmente, pelas empresas do setor público nos níveis municipal, estadual e federal, que até hoje constituem-se em verdadeiras caixas pretas, indecifráveis e não transparentes.
A simples adoção desse gabarito IPRAXIS pelas empresas estatais, além de criar e consolidar uma indispensável cultura ética e de transparência permanente no trato da coisa pública , através das chamadas boas práticas de responsabilidade corporativa, teria previamente revelado e impedido o mau uso dessas empresas para os fins nada republicanos denunciados tristemente nos últimos três anos através da chamada Operação Lava-Jato.
E o mais incrível em toda essa constatação é que, apesar de todo o clima de desconfiança e de falta de credibilidade que cerca hoje as nossas grandes corporações públicas e privadas, com raras exceções, nenhuma legislação, política, programas ou até mesmo um simples movimento capaz de interferir e alterar positivamente essa realidade foi registrado até hoje em todas rotinas de gestão empresarial no país.
E para agravar ainda mais a nossa profunda tristeza, todos sabemos que num país que elege como prioridade a construção de penitenciárias ao invés de mais escolas para a sua população, torna-se mais difícil a criação de uma cultura ética que nos permita fazer bem e, principalmente, fazer o bem estar comum como propõe a filosofia operacional do novo banco Granito & Capital.
*Rafic Ayoub, criador ex-presidente do IPRAXIS — Instituto Brasileiro de Responsabilidade Corporativa, é jornalista e consultor especializado em Reputation & Crises Management.