Star Wars VII é um reboot?

Alerta: um dos grandes spoilers do filme é mencionado mais à frente.

Há alguns anos atrás, após a compra da Lucasfilm e associados pela Disney, fomos então ainda surpreendidos com o anunciamento de que seriam feitos mais filmes da franquia Star Wars, agora sem a mão desastrosa de George Lucas. E, hoje, semanas após o lançamento de O Despertar da Força, surgem muitas opiniões negativas em relação ao filme: uma delas volta justamente ao argumento de que SW7 seria apenas um “caça-níquel”, e de que TFA (The Force Awakens) seria apenas um reboot da trilogia original.
Há quase 4 décadas atrás, em 1977, estreava Guerra nas Estrelas, posteriormente reentitulado de Episódio 4: Uma Nova Esperança. Recentemente o hype de TFA trouxe de volta muito da história que se seguiu desde então e discutiu-se sobre o sucesso da franquia. Em qualquer discussão tida nos últimos dois meses de hype, é muito improvável não se encontrar um texto que não fale dos ícones da franquia, sejam os personagens, veículos ou lugares e planetas exóticos. Então, desde os trailers de TFA já contávamos com a volta desses ícones, bolando teorias a cada novidade que aparecia: o planeta de areia é Tatooine? stormtroopers de uniforme novo? máscara do Darth Vader? Han Solo e Chewbacca? R2D2 e Luke Skywalker? E por fim veio o pôster e fomos apresentados à base Starkiller da Nova Ordem.
Mas, essa tal de base Starkiller se parece muito com as Estrelas da Morte da trilogia original. Apesar de não ser uma base totalmente construída do zero, como eram as Estrelas da Morte, e sim baseada no potencial massivo de um planeta, pensando sobre os objetos icônicos da franquia, a base Starkiller é a nova Estrela da Morte. E esse é o ponto chave, junto com a estrutura do roteiro de TFA, que levou o público a questionar SW7 e colocá-lo como reboot do primeiro filme, Uma Nova Esperança.
Em Uma Nova Esperança a história tem como seus grandes acontecimentos (eventos icônicos) o droide R2D2 que carrega informações secretas, o resgate da princesa, o herói Luke cuja jornada começa num planeta de areia, Tatooine, o seu mestre e guia da jornada Ben Kenobi, uma operação particular dos heróis dentro da base inimiga (que leva à morte do mestre pelo vilão, Darth Vader) e a destruição da base com uma invasão militar das forças Rebeldes, atingindo-a no seu ponto fraco. Não surpreendentemente, essa fórmula se repete em TFA, com apenas algumas pequenas alterações nos ícones, mas a até mesmo a estrutura se repete: há o droide BB-8 com informações secretas, o resgate do herói Poe, a heroína Rey que vive num planeta de areia, Jakku, o seu mestre e guia da jornada Han Solo, uma operação particular dos heróis dentro da base inimiga (que leva à morte do mestre pelo vilão, Kylo Ren) e a destruição da base inimiga por uma invasão militar da Resistência, atingindo-a no seu ponto fraco.
Realmente, parece que SW7 é um reboot de Uma Nova Esperança.
E felizmente SW7 é um reboot.
Mas como assim?

Tenho que ser sincero que toda a questão de uma nova arma de destruição em massa que repete a fórmula da Estrela da Morte na verdade me incomodou, o que foi o ponto de partida do meu texto. No entanto, relevo essa questão em TFA e celebro o filme enquanto reboot. E por quê? Bom, sendo sincero e indo direto ao ponto (e esperando a chuva de chorume e lágrimas), porque TFA é um filme muito melhor do que Uma Nova Esperança. E essa opinião, que pode parecer uma heresia aos ouvidos dos fãs mais conservadores da franquia (e principalmente da trilogia original), é porque TFA se adequa aos tempos em que vivemos e, portanto, não repete a mesma história, porque até hoje nunca vimos um trio de heróis protagonistas da franquia que fosse composto por uma mulher, um negro e um latino.
Essa reflexão me lembra um texto que escrevi mais cedo neste ano sobre o filme Jurassic World, em que eu comentava sobre a insistência do filme em apagar os três outros filmes da franquia para se firmar como o futuro dela, um futuro melhor, e isso era feito através de ícones em decadência. No entanto, como eu afirmei no meu texto, isso era falho porque o futuro da franquia que JW trazia era conservador e com ideias muito retrógradas para o ano de 2015. E o que acontece em TFA é que o filme também vai trazer ícones em decadência (os destroços de naves e veículos de guerra do passado, pequenos objetos easter eggs sem utilidade e a morte de Han Solo) para se firmar como futuro da franquia e ele tem sucesso justamente por conta da abordagem condizente com seu tempo: o futuro é de todos, em igualdade de seus direitos, onde todos podem se sentir representados por seus heróis.
E não há nada melhor no filme do que a personagem Rey que se coloca muito bem enquanto nova protagonista da franquia, sendo capaz de fazer qualquer coisa e independente de qualquer um. Desde o início vemos ela lutando pela própria sobrevivência em exílio e não se deixando ser colocada em segundo plano por ninguém. Inclusive, todos os personagens principais tem participação em igual ao longo de todo o filme, o que mostra a elegância de TFA de incorporar os novos heróis aos antigos sem necessariamente falar de questões de representatividade; nós apenas sabemos que essas questões estão lá porque num contexto em que ainda se luta muito pela garantia dos direitos das minorias, TFA é um filme que traz a igualdade de direitos que tanto é necessária para o futuro, não só das franquias e do cinema como um todo, mas da sociedade, e que tanto é presente na franquia quando lidamos com um universo repleto de seres e criaturas em enorme variedade onde isso nunca parece ter sido um problema.
E em TFA é essencialmente uma cena (ligada a um outro acontecimento) que promete o futuro que precisamos. No final do filme, Chewbacca se junta à sua nova piloto principal, Rey, que assume muito bem sua posição na Millenium Falcon e segura a barra que é o legado de Han Solo após sua morte, que foi necessária para selar o compromisso da nova trilogia com esses tempos mais justos para todos, independentemente de suas diferenças humanas, assim dando um adeus aos outros 6 filmes e a tempos mais obscuros em representatividade, que caem num abismo sem fim. A presença de Han e de muitos outros velhos ícones da franquia e outros easter eggs vem justamente como um último suspiro, em homenagem à dedicação dos fãs e dos realizadores que deram início à jornada de fazer um Star Wars. Mas agora o tempo deles é passado, e é hora de abrir a franquia para que todos possam se sentir representados por ela.
Assim, um reboot de Star Wars é muito bem recebido com as melhores ‘boas-vindas’ possíveis; e ainda abro os braços para mais reboots como The Force Awakens e como Mad Max: Fury Road, com sua excelente Furiosa. Em 2015, esses foram os dois filmes que mudaram a fama do reboot, que antes era classificado como “caça-níquel”, mas que hoje podem ser trazidos como uma “readequação”, e se assim forem, serão muito bem-vindos. E que 2016 seja cheio de muitos outros reboots como estes!

E mais, leitura extra e obrigatória:
Vamos falar sobre a Rey