setembro.

Rafaela Miranda
Sep 4, 2018 · 2 min read

setembro sempre foi meu mês assim como treze sempre foi meu número. em um ano podia significar todo o sentimento do mundo. em outro? recuperação. logo em seguida podia ser a colheita e então novamente o inesperado.

setembro nunca veio como eu quis, muito menos com a mesma aparência. mas era gentil em me oferecer um doce quando sabia que me deixaria cansada.

setembro sempre foi vermelho. sempre foi o amante mais intenso com o coração mais gentil. sabe o que é bom para você e o que deve ouvir, mesmo quando protege suas orelhas com seus fones de ouvido.

na porta do mês me sento de pernas cruzadas. então? o que tem para mim?

não espero sussurros nem gritos de volta. se setembro me respondesse, ele diria o mesmo que todos. o que tenho para você? o que você tem para mim? gosto de imaginar que tenho muito quando na verdade ando com malas vazias batendo de porta em porta aguardando minha recompensa. apertando todos os números do elevador esperando que eu desça no andar certo.

não é preciso muito para entender que não é assim que funciona.

e de certa forma, é.

setembro sempre tem horário para ir embora. seja às oito ou às dez, nunca vejo o relógio. fecha a porta lentamente antes de deixar o quarto, apaga a luz e fecha as cortinas. no dia seguinte deixo a chave embaixo do tapete de entrada para ele não ter que me acordar em seu retorno

diferente de todos os outros meses — com algumas exceções que me concedo de tempos em tempos — que faço questão de pedir para interfonar.

setembro chegou há não muito tempo agora. talvez eu lhe tenha comprado um presente ou dois, talvez eu perca minha bagagem, eu não sei.

apenas visto meu melhor vestido e encaro a janela

porque arranquei minhas cortinas em agosto.

    Rafaela Miranda

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    errada sou eu de achar que sou poeta.