Semana passada eu assisti o documentário Bichas e essa experiência me fez pensar em algumas coisas. Por acaso, também semana passada, eu estava conversando com um amigo sobre o fato de eu ter parado de escrever qualquer coisa e aquele sentimento de odiar qualquer coisa que eu escrevo que quase me levou a deletar um blog que eu tenho a alguns anos. 
Voltando da faculdade ontem à noite, pensei em escrever alguma coisa sobre o documentário e que talvez essa fosse uma boa oportunidade pra passar por cima da barreira que eu mesmo coloquei pra minha atividade escrita.
“Bichas, o documentário” é um projeto do Marlon Parente que nasce a partir de um episódio de violência homofóbica onde foi ameaçado por um sujeito armado que ameaçou atirar em Marlon e alguns amigos.

“Eu tinha duas opções: deixar esse episódio tomar conta de mim e me corroer ou fazer algo para que eu pudesse superar”, conta Marlon em entrevista ao UOL (http://cinema.uol.com.br/noticias/redacao/2016/02/25/ao-custo-de-r-10-documentario-bichas-nasceu-apos-ameaca-com-revolver.htm)

Com um orçamento de R$10 (o que também descobri através do link acima), o projeto é, tecnicamente, bem simples. Um documentário no formato de narrativas de vivências onde 6 rapazes contam sobre suas vidas e, sobretudo, sobre o processo de aceitação que envolve as relações com suas famílias e o momento em que se assumiram bichas. E é justamente nessa simplicidade que mora a importância desse projeto.

Sem comentar muito sobre a história de cada um dos meninos (porque quero muito que todo mundo que leia esse textinho assista ao documentário), “Bichas” levanta discussões que me são muito fundamentais.

Representatividade.

E com isso não quero me referir a uma representatividade forjada de comercial de televisão ou uma representação caricata, na grande maioria das vezes, de novelas, filmes ou seriados. No documentário, a gente tem seis pessoas reais, contando histórias reais, discutindo homofobia, as dificuldades no diálogo com a família a respeito da nossa sexualidade, as dificuldades da nossa própria aceitação, na formação da nossa identidade e as especificidades dessas questões na vida de um homem gay negro.

A força do documentário está muito fundamentada na sua capacidade de servir como referencial. De alguma forma, nós bichas, conseguimos identificar alguma ou muita similaridade com as histórias contadas ali. Pra uma comunidade que tem sua história constantemente apagada e que tem poucos referenciais para se enxergar, isso é muito especial.

Penso em mim mesmo, 10 anos atrás, assistindo vídeos no YouTube do projeto It Gets Better, desesperado pra me sentir menos sozinho, buscando me agarrar a qualquer palavra de incentivo que fosse. Penso nos gays adolescentes de agora, na possibilidade que eles tem de assistir esse documentário tão lindo e conseguirem se ver nesses meninos, nessas histórias. Só quem já passou por isso sabe como é reconfortante saber que você não é o único, que você não tá sozinho. Se ver representado de forma tão carinhosa em um trabalho como o “Bichas” nos fortalece e eu muito feliz em pensar que pode, principalmente, fortalecer adolescentes que estejam passando pelas mesmas coisas que passamos anos atrás, pela insegurança, o medo, a impossibilidade de enxergar-se lá na frente.

Fico feliz porque “Bichas” é uma produção brasileira, de bichas nordestinas e com bichas nordestinas. Feliz pelo alcance que ele tá tendo, em menos de 15 dias, no momento que escrevo isso, tem 361.815 visualizações. Fico feliz por mim que hoje sou capaz de encher a boca pra falar que também sou bicha. Fico feliz por todas as bichas que tem orgulho de dizer que são bichas.

Se existe o esforço de resignificar a palavra bicha é porque nós, as bichas, também somos capazes de se reinventar, de transformar nossa realidade, e eu acredito muito que esse documentário é um desses vetores de transformação. O Marlon foi capaz de transformar uma experiência horrível em arte, em política, em resistência.

Não sei dizer outra coisa, exceto que sou grato ao Marlon e todas as bichas que existem e que resistem. “Bichas, o documentário” é uma contribuição incrível na tarefa de construir a humanidade que tentam nos negar todos os dias.

ASSISTAM ❤ https://www.youtube.com/watch?v=0cik7j-0cVU