Entrevista com Lídia Medeiros, autora de “Acompanhante de Luxo”

Raigor Ferreira
Aug 24, 2017 · 11 min read

Lídia Medeiros é uma escritora nacional, natural de Fortaleza, que começou a carreira escrevendo romances. Seu livro mais conhecido é a dualogia ‘Acompanhante de Luxo’, obra que sofreu com a distribuição ilegal de sua versão digital, o que levou a autora a postar um desabafo em vídeo no início do mês passado.

Eu quero começar perguntando se você está escrevendo algum livro novo nesse momento.

Lídia: Sim, eu estou com três livros em fase de escrita. Um livro está na metade e o gênero dele é fantasia. O segundo ainda está no início, e é um romance. E o terceiro, bom, eu ainda estou decidindo se volto para o universo dele ou não, pois seria um terceiro livro para a Série Luxos, com os meus personagens Nathan e Kate, do livro Acompanhante de Luxo.

Então, você está se arriscando em outros gêneros além do erótico. Escrever fantasia é uma coisa que você sempre planejou? Como surgiu isso?

Lídia: Eu estou focando em outros gêneros além do erótico sim. Escrever fantasia era algo que eu já ansiava muito fazer, mas os personagens Nathan e Kate me prenderam por quase três anos, e foi só depois de terminar o livro 2 deles que eu comecei a escrever o de fantasia, que inclusive, já tem até nome definido. Ele se chama O Senhor do Submundo.

Wow, já tem até nome definido. Tudo bem eu divulgar o nome do livro na entrevista, ou você é uma escritora supersticiosa e prefere que tudo fique em segredo?

Lídia: Pode divulgar sim. Ainda não conheço nenhum livro com esse título, então, acho que serei a primeira. Tem uma série da Gena Showalter que se chama Senhores do Submundo, mas é uma série de livros, e o meu é um livro único, então pretendo isso.

Você está escrevendo fantasia, mas eu acredito que você tenha começado a sua carreira de escritora e ficado conhecida por causa dos livros eróticos, não? Ou eu tô errado?

Lídia: Na verdade, eu comecei com um romance água com açúcar. O primeiro a ser publicado foi A Virgem, que conta a história de uma adolescente que fica grávida mesmo sendo virgem. Depois, vieram os dois livros que fizeram com que eu me tornasse um pouco mais conhecida, que foram Acompanhante de Luxo e O Casamento. Apesar de não estar em uma editora, eu consegui vender bastante o volume 1, e agora em setembro, teremos a pré-venda do volume 2, em livro físico mesmo.

Legal, eu vi o seu anúncio de pré-venda. Mas eu acho que você vai concordar comigo que a literatura erótica sofre alguns preconceitos, talvez mais preconceitos do que qualquer outro gênero literário, e uma parte dos leitores até rejeita esse tipo de literatura antes mesmo de conhecer o autor ou saber do que se trata a história. Por que você acha que isso acontece? De onde vem essas críticas à literatura erótica?

Lídia: Eu acho que a literatura em si já sofre muitos preconceitos, pois não é da cultura brasileira a leitura desde cedo, durante o período escolar mesmo. Quanto ao gênero erótico, acredito que sofra muito com os preconceitos por conta da mente machista da maioria das pessoas, não apenas no Brasil, mas em muitos lugares do mundo. A cabeça fechada pra esse tipo de escrita faz com que ela seja vista como o “pornô da mamãe”, e como uma mãe, pra algumas pessoas, não pode assistir ou nem mesmo ler esse tipo de coisa, acaba gerando essa série de preconceitos descabidos e infundados. Ninguém vira puta só por ler um livro erótico. Há muitas vantagens em ler esse tipo de livro, tanto pra homens, quanto pra mulheres. O que eu mais tenho recebido ultimamente são mensagens de leitores homens que leram o meu livro e amaram a minha história. Existem sim histórias ótimas no meio da literatura erótica, assim como existem aquelas que só tem sexo e mais sexo. E bom, se for sexo pelo sexo, eu fico com os vídeos pornôs. Quando eu leio livros eróticos, pelo menos, eu busco a história que há por trás deles, e não apenas as cenas de sexo.

Eu também tenho amigos que adoram literatura erótica, ás vezes, até mais do que as leitoras mulheres que eu conheço. E você já recebeu esse tipo de crítica que diz que o seu livro é ruim apenas por ser erótico?

Lídia: Não, eu nunca recebi esse tipo de crítica. As críticas que eu recebo sobre o meu livro ser ruim são por conta de algum erro de revisão, o que, pra algumas pessoas, é o fim do mundo. Mas ser ruim só por ser erótico, não, ainda mais que, por mais que tenha cenas eróticas no meu livro, tem toda uma história por trás.

Você se inspira em algum autor nacional ou internacional?

Lídia: Ah, sinceramente? Eu lia muito durante a adolescência, e o que me levou a escrever foi a Stephenie Meyer, de Crepúsculo. Eu comecei escrevendo fanfics de Crepúsculo, e só depois passei a escrever minhas próprias histórias.

Sério? E algumas dessas fanfics que você escrevia de Crepúsculo chegou a virar um livro, uma história própria?

Lídia: Sim, a história de A Virgem era uma fanfic de Crepúsculo. Eu conheço outras autoras nacionais que fizeram a mesma coisa, transformaram a fanfic delas em um livro.

Eu também vejo isso acontecer, e muito. E temos até um caso internacional famoso, né?

Lídia: Sim, 50 tons de cinza. Esse é um caso bem conhecido. Mas no caso de 50 tons, te garanto que a fanfic é bem melhor do que o livro.

Espera, você era uma leitora de 50 tons, quando ainda era só uma fanfic?

Lídia: Sim, eu sou daquela época, muito antes da fanfic virar livro. Eu, inclusive, traduzia capítulos da fanfic pra algumas amigas na época. Mas conforme ela foi ficando famosa, logo virou a famosa história do Christian Grey, e virou essa febre mundial. Eu considero sim a fanfic melhor do que o livro. Se você chegar a ler um dia, vai concordar comigo e ver que é bem melhor.

Mas você continua sendo fã de 50 tons? Ou era fã só da fanfic?

Lídia: Eu era fã da fanfic por que eu gostava dos personagens Edward e Bella que ela usava. Eu li os livros do 50 tons, mas não sou fã de BDSM, que ela tanto tentou por no livro, mas na verdade, não pôs. Mas sim, eu li os livros e gostei. Não digo que sou fã da história. Eu jamais casaria com um Christian Grey, por exemplo, por mais rico que ele fosse. Eu prefiro o sexo tradicional.

Tem toda essa hype que acusa os livros da E L James de serem machistas. Você concorda com isso?

Lídia: Olha, machista em determinados pontos sim, por que o Christian é um homem super possessivo que quer controlar a vida da Ana, e isso faz com que a gente volte pra mil anos atrás, quando a mulher não tinha voz alguma dentro da sua própria casa. Mas também sei que é uma história de amor e descobertas, e talvez seja isso que conquistou tantas leitoras. Dentro de cada mulher, existe essa coisa de se sentir protegida, de sentir que o homem está no controle da casa, mas são poucas mulheres que assumem isso. E muitos outros livros, não só o dela, que vieram depois fizeram sucesso pelo mesmo motivo, CEOs, homens bilionários que querem controlar a vida de sua parceira.

Entre a fanfic e o livro, você disse que prefere a fanfic. Mas e entre o livro e os filmes?

Lídia: Ah, cara, os livros. Os filmes ficaram uma merda. Desculpa o palavrão.

Eu gostei do primeiro filme, mas o segundo tem muitos problemas.

Lídia: Eu não gostei dos filmes, por que os atores não são quem eu escolheria pra interpretar a Ana e o Christian, e aquele rosto todo sem expressão da Ana me irrita.

Mudando de assunto, no início do mês passado, você passou por uma situação que eu acredito que tenha mudado a sua rotina de escritora, pelo menos na semana em que tudo aconteceu, que foi a publicação de um vídeo onde você fazia um desabafo sobre a distribuição ilegal do seu livro e tudo o mais. O vídeo foi muito comentado nas redes e chegou a repercutir por dias e dias. Eu queria saber, primeiro, sobre isso, se a sua insatisfação com os PDF’s do seu livro foi a sua única motivação pra ter gravado aquele vídeo ou estavam acontecendo outras coisas na sua carreira de uma forma geral que te motivou a gravar aquele recado em vídeo?

Lídia: Então, julho foi um mês bem tumultuado. Eu nunca tinha reclamado da distribuição dos PDF’s, por que eu nunca tinha visto acontecer da forma que aconteceu. Eu sei que tem sites por aí que devem ter o meu livro em PDF, por que alguém colocou lá. Mas eu nunca tinha visto ser colocado como foi no mês passado. A coisa se transformou em algo enorme, por que não estavam apenas distribuindo o PDF. Eles estavam postando a minha história integralmente como se fosse um conto erótico, o que ele não é. E o pior, eles nem sabiam o meu nome. Ou seja, quem estava postando a minha história, estava levando todo o crédito pela história, e isso me levou ao limite. Por isso, comecei a fazer os vídeos.

Então, não foi apenas um vídeo, foram vários vídeos?

Lídia: Foram 3 vídeos. No primeiro vídeo, eu falei da minha gestação, sobre por que eu preciso vender os meus livros, que é pra comprar medicação e tal. O segundo vídeo foi falando da distribuição dos PDF’s, e citei alguns grupos que estavam fazendo isso.

Então, o vídeo que mais repercutiu foi esse segundo vídeo que você falou da distribuição dos PDF’s e citou os grupos?

Lídia: Nada. O que mais repercutiu foi um vídeo que o meu marido esculhambou com todo mundo. Ele ficou puto da vida e falou um monte de coisa. Aí, as feministas caíram em cima dele, falando um monte de besteira. Falaram até que eu era uma esposa submissa a ele, que eu apanhava dele.

E você apanha dele?

Lídia: Deus me livre. O meu marido é a melhor pessoa do mundo. Sou eu que bato nele de vez em quando.

Por favor, não faça isso com seu marido. Mas menos mal que essas impressões sobre violência doméstica estavam erradas. Mas hoje, olhando pra tudo o que aconteceu naquela semana, você continua com a mesma opinião sobre a distribuição ilegal de livros em PDF na internet, ou a sua visão sobre isso mudou?

Lídia: Continua a mesma. A distribuição ilegal é ruim, seja em PDF, em dvds piratas ou em qualquer outra coisa. Você está tirando algo de alguém que deveria receber por isso. Por exemplo, se você baixa um livro pra você mesmo, não dá nada. Mas agora, se você coloca em um site pra que a partir dele outras pessoas baixem, isso sim dá processo.

Você falou no vídeo que processaria essas pessoas que estavam distribuindo ilegalmente o seu livro. Você pretende levar isso adiante?

Lídia: Esse é um caso sigiloso. Não posso falar sobre.

Você se arrepende dos vídeos?

Lídia: Dos vídeos sobre os PDF’s, não. Mas o vídeo do meu marido, sim, por que quando começamos a gravar, não era a intenção. E tudo isso que aconteceu fez com que eu perdesse muitas pessoas que se diziam minhas amigas. Mas que no fim, não eram nada disso. Então, tirando esse vídeo que o meu marido esculhambou com todo mundo, os demais, eu não me arrependo.

A sua relação com a internet mudou depois da publicação do vídeo e de toda a repercussão?

Lídia: Sim, a minha relação com todas as tecnologias mudou muito. Eu sou mais reservada agora. Eu me afastei durante 20 dias de qualquer comunicação por conta do ocorrido, por ordens do meu médico. E eu quase entrei em trabalho de parto pelo nervoso que passei.

Mas agora, tá tudo bem com você e com o seu bebê? Com sua família? Você tá conseguindo separar a vida profissional da vida pessoal?

Lídia: Eu tô bem. Tomando muita medicação, mas bem. Estou esperando o bebê, por que falta só dois meses pra nascer. Tá bem difícil separar a vida profissional da vida pessoal, ainda mais por que sentimentos não esperam, né? Mas eu tô tentando.

E a sua carreira de escritora? Logo depois da publicação do vídeo, algumas pessoas passaram a se referir a ele como um suicídio literário. O que você pensa disso?

Lídia: Então, eu li esses comentários sobre o suicídio literário, mas olha, vou te contar, esse foi o mês que mais vendi livros na minha carreira inteira de cinco anos como escritora. Mudaram algumas coisas, algumas pessoas deixaram de me seguir, mas foram só algumas e outras milhares chegaram. Todos os dias, eu recebo mensagens de apoio, mensagens que me pedem livros, mensagens nos comentários, nas minhas páginas. Se você tiver um tempinho pra ver, vai ver que quase toda hora, eu recebo um novo comentário de um leitor novo querendo comprar os meus livros. Então, é como aquele ditado que dizem: há males que vem pra bem. Esse ditado se encaixa pra mim. Eu perdi sim muitas amizades, perdi algumas leitoras, mas eu ganhei outras. Então, eu não concordo que foi um suicídio literário. Eu sou uma escritora muito mais conhecida agora do que antes do vídeo. Não foi por uma razão das melhores, mas foi bem vindo, ainda mais nesse momento que tanto preciso das vendas dos livros pra comprar todos os remédios, já que o SUS não me forneceu esse mês, e pode ser que eu nem tenha pro próximo mês.

Que bom que tá conseguindo ver o copo meio cheio. Isso é muito importante pra você nesse momento, eu penso. Você disse que traduzia as fanfics da James. Você já fez parte de algum grupo de tradução de livros estrangeiros? Já trabalhou ou trabalha como tradutora?

Lídia: Isso foi há muitos anos atrás. Eu fazia parte de um grupo de tradução, mas hoje, não faço mais. Hoje, faço faculdade, tenho meu marido e escrevo meus livros, não tenho mais tempo que me permita fazer isso. E eu não sou tradutora, nunca fui. Eu só leio em inglês e traduzo algumas coisas que acho interessantes pra mim mesma.

E você ganhava pelas traduções, ou era um hobbie?

Lídia: Eu não trabalhava como tradutora. Na verdade, eu trabalho como webdesigner.

Algumas pessoas divulgaram alguns print’s de avaliações na Amazon de uma leitora que tinha o mesmo nome que o seu. Por causa disso, alguns leitores associaram esses comentários a você, alegando que teriam sido escritos por você mesma. Você já escreveu avaliações, seja na Amazon, no Skoob, ou em qualquer outra plataforma, para os seus próprios livros?

Lídia: Ah, é mesmo, eu vi isso. E é de uma leitora mesmo. Eu não comento por lá, mas como o pessoal não costuma pesquisar, eu não quis me dar ao trabalho de responder. Eu tinha um blog onde eu escrevia resenhas para os livros que eu lia, e postava também resenhas desses livros no Skoob e na Amazon, mas eu não uso o nome Lídia Medeiros pra fazer esses comentários. Então, se você ver alguma Lídia Medeiros comentando alguma resenha por aí, não sou eu.

Só pra finalizar, e o bebê? É menino ou menina?

Lídia: É um garotão.

Já tem nome?

Lídia: Já tem sim. Alberto Gael.

Lídia, muito obrigado por esse tempo e desculpa se tomei muito dele. Eu desejo sorte na sua carreira e força nesses seus dois últimos meses de gestação. Não esquece que seu filho é mais importante que tudo, e eu imagino que você já tenha entendido isso.

Lídia: Obrigada, sim, o bebê é o mais importante agora por ser meu primeiro e tão esperado na minha vida. Muito obrigada pela sua paciência e se cuida.

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@raigorbooks

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