Entrevista com Raquel Pagno, autora de “Legado de Sangue” e “O Autor”

Raquel Pagno é administradora, projetista, cartógrafa e ainda bem que também escritora, já que é por conta disso que ela está aqui. Seu livro mais recente foi lançado pela editora Fonzie e conversamos sobre outros livros, mercado literário e processo de escrita na entrevista que segue.

Começando com a pergunta mais básica, você está escrevendo um livro nesse momento?

Raquel: Não, eu acabei de concluir um romance e, apesar de ter vários projetos já iniciados, estou me dando um tempo pra poder sair daquela atmosfera que envolvia a história. Só assim pra eu conseguir me desligar e partir pra outra.

Esse romance que você terminou é seu próximo lançamento?

Raquel: Não, este ainda não tem previsão de lançamento. Como eu só concluí o primeiro rascunho, penso que mais um ano, no mínimo, antes de pensar em publicá-lo. Teremos novidades pro próximo ano, mas se trata de outro livro, escrito a quatro mãos.

Um livro escrito em parceria, pode falar sobre ele? Ou segredo ainda?

Raquel: Só posso adiantar que se trata de uma história de fantasia, um gênero que eu nunca tinha me aventurado além de alguns contos bem curtos.

Engraçado que eu tinha a impressão que você já escreveu fantasia. Qual o gênero do Legado de Sangue?

Raquel: Legado de Sangue é um drama, apesar de ser, claro, uma ficção com bruxas e vampiros.

Entendi. E sobre o livro secreto, é o primeiro livro que você escreve em parceria?

Raquel: Sim, foi o primeiro. Um presente lindo que ganhei da Iris de Albuquerque, que me convidou pra adotar um pedacinho do seu mundo e abraçar seus personagens. Isso já tem uns três anos. Agora, tenho mais dois livros em desenvolvimento com outros autores. Eu amei a experiência, cada vez aprendo mais, e espero poder repetir isso muitas outras vezes.

Então, foi uma experiência muito boa pra você? Perguntando por que eu imagino que os dois autores precisam estar em uma sintonia muito singular pra um projeto em parceria dar certo. Com você, essa sintonia aconteceu ou teve momentos em que as ideias divergiram?

Raquel: Eu adorei a experiência. Tivemos momentos de divergências, como é de se esperar, mas sempre conseguimos chegar num consenso, dando o braço a torcer um pouquinho de cada lado. Só os escritores sabem o quanto isso é difícil. Mas sempre colocando o bem da história em primeiro lugar. Pra mim, foi tranquilo, eu não encontro nenhum aspecto negativo nesse tipo de projeto pra apontar.

Tirando esses projetos em parceria que você topou e se dedicou, quando você escreve um livro, você sente que a escrita é um processo solitário?

Raquel: Sim, raramente eu mostro ou conto algo sobre o que estou escrevendo. As ideias surgem pra mim com início e fim, e eu só preciso encontrar os meios, o que quase sempre se dá através das pesquisas e exige muita concentração. Solidão, paz e sossego são essenciais pro escritor. Eu não consigo trabalhar com barulho, por exemplo, principalmente de conversas ou televisão. O único momento em que prefiro estar rodeada, de preferência por escritores, é quando tenho um prazo a cumprir e estou sem ideias, o que às vezes acontece quando tenho que escrever algo baseado em um tema específico. Aí, eu peço socorro, sem dó.

Você falou que o livro que você acabou de escrever vai levar, no mínimo, mais um ano pra ser aperfeiçoado e lançado, e o livro que você escreveu em parceria também teve três anos de desenvolvimento, e eu acho importante você ter falado isso, por que eu sempre vejo uma ansiedade nos escritores em geral pra lançar as obras, e eu queria que você falasse sobre como é esse processo de cuidado e amadurecimento de um livro e do quanto ele é importante. Por exemplo, você tem leitor beta? Quantas revisões você faz no seu livro antes de publicar?

Raquel: Eu me sinto mais pressionada a escrever do que a publicar. Me preocupo com a minha produção, as metas pessoais que me imponho e fico muito frustrada quando não as cumpro. Quanto à publicação, eu tenho muita coisa que talvez nunca chegue ao público, e isso realmente não me preocupa. Uma coisa que eu preciso é deixar o texto descansar, antes de revisar. Quando eu escrevo uma primeira versão, me envolvo demais emocionalmente, entro no clima da história e depois acho difícil sair. Nunca reviso uma obra logo depois de escrever o rascunho, eu não teria a mínima condição de encontrar as falhas. Então, deixo por meses na gaveta, e depois de me envolver com outro projeto, eu volto e começo a revisar. A quantidade de vezes que isso acontece varia. Seablue, eu revisei oito vezes, e em todas elas tinha alguma coisa pra ser melhorada. Acredito que ainda tenham muitas, aliás. Mas tem uma exceção que foi o Ahmed Mir O Príncipe do Egito, que eu escrevi durante o NaMoWriMo do ano passado e fui publicando ao mesmo tempo no Wattpad. Foi uma experiência interessante que se tratava de um trabalho bem simples que não exigiu muito de mim.

E você gostou da experiência com o Wattpad? De receber o feedback ao mesmo tempo em que escreve?

Raquel: Gostei muito. Até mesmo pelas sugestões do pessoal que me ajudaram bastante naquelas horinhas em que as ideias fugiam. E essa história continua no Wattpad, do jeito que ela nasceu, com os erros, os vícios de linguagem e sem correção, por que não tinha tempo pra isso na época e depois decidi que não iria alterar. Mesmo assim, Ahmed Mir alcançou um número de leituras maior do que todas as minhas outras obras juntas, chegando ao 5º lugar no ranking. Talvez por ser um gênero mais popular, já que a história é uma comédia romântica. E esse ano, eu vou repetir essa experiência, já que foi bem gratificante pra mim.

No NaMoWriMo também?

Raquel: Isso.

E já tem a ideia, a sinopse?

Raquel: Tenho algumas ideias, mas ainda não escolhi qual eu vou desenvolver. Só sei que será algo simples, assim como foi o Ahmed Mir. Talvez outra comédia.

Entendi. Você começou a sua carreira de escritora escrevendo contos também?

Raquel: Quando eu escrevi o meu primeiro conto, já tinha dois romances escritos, mas não publicados. Consegui publicar alguns contos através de concursos que participei, ganhei alguns prêmios como contista e só depois disso, consegui publicar o meu primeiro romance.

Apesar da diferença de tamanho, você acha que escrever um conto é tão difícil quanto escrever um romance, ou você vê uma diferença de dificuldade também?

Raquel: Isso depende muito. Acho que depende do estado de espírito do autor no momento da escrita. Tem contos que eu considero mais complexos do que romances inteiros, e tem outros que são extremamente simples.

Você ganhou muitos prêmios literários durante a sua carreira, Prêmio Interarte, Clarice Lispector de Literatura, você acha que os prêmios influenciaram a sua carreira de alguma forma?

Raquel: Sinceramente, acho que nos últimos tempos, eu tenho conseguido contratos com editoras por conta do meu currículo de autora. Falo isso por que eu sinto que o mercado se fechou um pouquinho. Tem muitos autores surgindo, um gênero que eu não escrevo está em alta, a própria crise econômica atrapalhando as vendas, tem muita coisa envolvida.

Ainda bem que você tocou nesse assunto. Semana passada, eu entrevistei a Simone, e ela disse algo parecido, que ela sente que o mercado pra autores nacionais agora está mais difícil do que quando ela começou, há dez anos atrás, você também sente isso?

Raquel: Tenho notado a mesma coisa. Quando eu comecei minha carreira, coloquei um original num site de escritores e editores, e quase que imediatamente recebi inúmeras propostas. Se fosse hoje, acho que não aconteceria da mesma forma.

O gênero em alta que você citou é a literatura erótica?

Raquel: Isso mesmo.

Também acho que está acontecendo com os livros eróticos algo parecido com o que aconteceu com os livros de fantasia em 2012/2013. Pra onde você ia, tinha um livro de fantasia nacional fazendo sucesso.

Raquel: Pois é. É normal surgirem essas modinhas e dá pra notar que são sempre baseadas em algum best-seller internacional. Estou ansiosa pra saber qual será a próxima.

Arrisca um chute?

Raquel: Aposto no Terror.

E você já escreveu algo do gênero?

Raquel: Sim, meu último lançamento, O Autor, que saiu agora pela Fonzie.

Pode falar um pouco sobre a história dele?

Raquel: É a história de um escritor, Simas Sigmund, que acaba invocando um demônio ao escrever um livro com antigos rituais celtas. Mas houve uma falha e a criatura não conseguiu passar totalmente pro mundo real. Agora, Simas está sendo chantageado pela sua criação, ou ele escreve uma continuação pro seu livro, a fim de terminar de transcrever os rituais e dar vida ao demônio, ou vai perder todos aqueles que ama.

Acho que isso não terá um final muito bom. Eu vi que tem versões dos seus livros em outros idiomas na Amazon. É você mesma que traduz?

Raquel: Não, eu mal sei o português. São vários tradutores. Praticamente, cada livro tem um tradutor diferente.

Pra finalizar, como tá o sentimento pré-bienal? Tá animada pra ficar em casa, vendo as fotos todas passando pela timeline?

Raquel: Eu adoro. É claro que eu gostaria de estar lá, mas já que esse ano não deu, vou acompanhar tudo por aqui e torcer muito pelos nossos autores, com ênfase nas postagens do Renato Rodrigues, o autor de Dragões de Titânia, que faz umas divulgações direto da bienal que são o maior barato.

Nos resta ficar na torcida mesmo. Raquel, obrigado pelo seu tempo e juro que, quando eu começo as entrevistas, eu não imagino que vou perguntar tanta coisa, então desculpa pelo tempo e obrigado.

Raquel: Imagina, eu que te agradeço. Adorei o nosso papo.

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