São

Uma multidão com fones de ouvido

Uma multidão

Que ouve uma infindável musica sem refrão

Que apenas cresce

Que

Um cachorro perdido num estacionamento

Amedrontado

Como uma mulher que às 23 espera o ônibus

Um, uma

Despejar em alto volume no bar

A fala recolhida mansa desde a segunda-feira

O pensamento engaiolado anônimo no apartamento

O som

São Paulo é sujeito oculto da frase que todos pensam ja ter lido

As roupas cor de vaidade

Do Itaim à Augusta

A vaidade que une a multidão de rostos

Asfalto afogado

Concreto afogante

Cem vidas reiniciaram no ultimo alagamento

Os signos do picho, das placas

Mantenha a esquerda livre

Quero ser usada pelo poeta, pelo dinheiro

Ninguém é daqui

Ninguém tem pai nem mãe

Adolescência de uma vida toda

Com os pesos de responsabilidades

Um poeta cria no celular

O barão guarda dinheiro no colchão

E um dia de sol irrompe terremotinhos na avenida paulista

A maior receita

A maior velocidade

A maior produção

A maior população

Não é cidade

Nem maior

Um beijo de amor escondido num protesto anti-Dilma,

anti-PT,

tudo isso que tá aí

Ela vendia Mary Kay e me falava de Foucault

Tenho uma orquídea que nunca mais floresceu

E nunca deixou de morrer

Escondida no meu banheiro

As meninas nuas para a retina do obturador da internet

E ainda a adolescência sem fim

Pois preciso falar de sexo

Naturalmente falar de pau, boceta

Porque são coisas naturais

Mas não é natural

Preciso comprar queijo

Sou o primo que deu certo

Faço compras num supermercado que toca jazz

Com golden retrievers em carrinhos de bebê

O louco que grita na calçada

Que corre nu e se abraça a um poste

O louco que grita detrás do vidro do vigésimo andar

Que se abraça às horas extras do serviço

As loucuras são levadas à sério

O asfalto cheio de chicletes

Pilulado por pontinhos de tantas cores

De longe é o concreto

Da ponte

Do prédio

Do metrô

Da rua

Pilulado com tantas cabecinhas passantes

Insão