La Doce — A Explosiva História da Torcida Organizada Mais Temida do Mundo

Raísa Boing
Sep 4, 2018 · 5 min read

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O livro de Gustavo Gabria é um convite para descobrir o universo das torcidas organizadas, não só as da argentina, como brasileiras. Nos faz refletir como pode ser sombrio e perigoso a aliança entre torcidas e clubes em todo o mundo.

O autor:

Gustavo Grabia nasceu em 1967, em Buenos Aires. É formado em ciências da comunicação e iniciou sua carreira na Editora Abril, passando pela Editora Garcia Ferré, pela Revista 13/20 e pelos jornais La Razón e El Expreso. Desde 1996 trabalha no maior jornal esportivo da Argentina, o Olé, onde atualmente ocupa o cargo de editor. Gustavo é considerado o maior especialista argentino em violência no futebol.

“Quando eu era criança, o plano de ir ao estádio era muito mais que ir a um jogo de futebol. Era um lugar de conexão para pais e filhos, para amigos do bairro, um mundo cheio de sensações confortáveis que excediam, e muito, o que acontecia no gramado. Esse mundo foi quebrado a partir da violência das barras bravas. A La Doce é o símbolo mais generalizado dessa violência. Talvez aqueles que lutam contra ela, do lado de fora, apenas busquem recuperar esse universo para se sentirem plenos novamente.”

Início do livro:

Por se tratar de uma história específica sobre a violência das torcidas argentinas, a publicação do livro no Brasil traz um pequeno capítulo de abertura feito pelo jornalista Mauro Cézar Pereira, da ESPN. Mauro é especialista em falar sobre o comportamento das torcidas brasileiras, e conta, em três páginas, um pouco sobre a história das organizadas no Brasil. O capítulo se resume em “Torcida organizada: ruim com ela, pior sem ela” onde o jornalista conta capítulos em que as TO’s brasileiras já foram fundamentais para apoiar e salvar seus times de momentos ruins, mas que estão se tornando cada vez mais comuns em episódios de violência e impunidade no país. As autoridades punem, de maneira errada, o clube, e deixa de lado os principais culpados.

“Violência em torcidas organizadas é caso de polícia, de segurança pública. Belas festas e apoio ao time em campo é coisa do futebol. Ao estilo brasileiro ou à moda argentina, o bom é fazer os torcedores ficarem reunidos. Separar a parte podre, isolá-la, eliminá-la é o desafio. Futebol sem torcida é futebol sem festa. E futebol sem festa não é futebol.”

Formato da publicação e ideia geral do livro:

Gustavo Grabia deixa claro desde o início da publicação, que a gravidade do poder de La Doce é tanto, que parece impossível mudar o cenário. “La Doce é a torcida que tem mais contatos políticos, que trabalhou tanto para o justicialismo como para o radicalismo, e chegou a participar de operações políticas montadas pela Side, antiga Secretaria de Inteligência do Estado. É a única torcida do mundo a criar uma fundação legal para lavagem de dinheiro proveniente da extorsão de políticos, empresários e desportistas, bem como o financiamento sem escrúpulos pela revenda de ingressos, a gestão de ônibus para levar torcedores ao interior, o estacionamento nas ruas de La Boca cada vez que havia uma partida, e o merchandising. Isso sem contar a porcentagem arrecadada pelas concessões feitas a barracas de alimentos e bebidas no estádio.”

O livro segue uma ordem cronológica de fatos. Inicia contando como surgiu e o porquê do nome de La Doce (uma referência ao décimo segundo jogador em campo, a torcida). Gustavo apresenta dados da própria polícia argentina, de histórias de violência que já ocorriam na década de 60.

O torcedor do Boca Juniors passou a ser chamado de “O Furioso” já nas décadas de 70 e 80, e era apresentado como “aquele que insulta os jogadores quando perdem e os defende a ponto de arriscar sua vida quando ganham. Para ele, ou você é do Boca, ou é inimigo. O torcedor do Boca faz mal ao Boca por querer fazer o bem.” disse um dos antigos líderes da barra brava.

A publicação traz ainda muitos nomes e personagens, o que pode tornar a leitura cansativa para quem não é fanático pelo futebol, e é preciso conhecer um pouco da história do esporte na Argentina. Gustavo passou três anos estudando a fundo todo o material que conseguira reunir sobre a La Doce. Trata-se de uma pesquisa minuciosa sobre cada detalhe da torcida em toda sua história. São dados de todos os líderes que já passaram pela presidência de La Doce, e todos acabaram presos ou envolvidos em escândalos.

Rafa Di Zeo e Mauro Martin: rivalidade dentro da torcida

O período mais crítico foi nos anos 90, quando Rafa Di Zeo assumiu a liderança da torcida. Di Zeo implementou uma visão “empresarial” dos negócios ilícitos da “12”. Recebia ingressos do clube e também garantiu uma parte do dinheiro daqueles vendidos nas bilheterias. Uma das maiores demonstrações de poder foi o direito de administrar o estacionamento da rua Del Valle Iberluzea, uma das principais que dão acesso ao estádio do Boca.

“Não sou poderoso, mas tenho o telefone dos poderosos” diz Rafa. Sua rede de contatos atingia inclusive a funcionários do governo portenho. Tinha acerto com os policiais da 24ª Delegacia, sediada no bairro de La Boca e inclusive compartilhava com eles, os mesmos advogados. Como nos melhores filmes de máfia, depois que Di Zeo é preso, assume o poder seu braço direito: Mauro Martín, com a promessa de devolver o comando da barra quando Rafa saísse da prisão.

Neste ano Di Zeo foi solto e em uma entrevista exclusiva a um canal de televisão aberta, avisou que queria sua barra de volta. Di Zeo e Mauro racharam a torcida, e o que se via nas arquibancadas eram torcedores do mesmo clube duelando e lutando por poder, deixando o jogo de lado. Os canais de televisão por momentos esqueciam-se dos jogadores no campo e do que acontecia no palco principal, para filmar as duas personalidades penduradas nas arquibancadas. Inclusive com tela dividida e close nos novos protagonistas.

O atual presidente de La Doce, Mauro Martín, está preso acusado de assassinato do vizinho de seu cunhado. Também foi indiciado por formação de quadrilha e envolvimento em uma briga de torcida no jogo contra o Newell’s Old Boys, pela Libertadores desse ano. Na ocasião, mais de 50 membros da La Doce foram detidos.

Barras Bravas

É um tipo de torcida da América Latina que incentiva as equipes com cantos, fogos de artifício e uso de faixas, mas que também são responsáveis por atos de violência. Esses grupos surgiram nos anos 70 na Argentina e no Uruguai. As mais tradicionais, além de La Doce, do Boca, são a Los Borrachos Del Tablón, do River Plate, e a La Guardia Imperial, do Racing Club, todas da Argentina. O país vizinho já registrou mais de 70 mortes em três décadas. Os barra bravas argentinos chegaram ao ponto de exportar os métodos de violência para outros países.

Raísa Boing

Written by

Jornalista, redatora e transcritora. Portfólio de textos e materiais jornalísticos produzidos durante a faculdade, estágios e demais trabalhos.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade