Crise de empatia

Crise política, econômica, social, moral… Nada novo debaixo do sol. Desde muito tempo, momentos de desenvolvimento e de crise se sucedem ciclicamente. Não há nada de surpreendente nisso, o que não significa, todavia, que não haja perplexidade em tempos assim.

Em que pese a sensação de mesmice, o desenrolar histórico nos traz alguns elementos novos. A internet, que já não é uma novidade, tem nos permitido acompanhar uma das faces mais tenebrosas da depressão atual: a crise de empatia.

Naturalmente, colocar-se no lugar do outro já é algo desafiador. Em tempos de acirramento, então, parece impossível. E, de tão impossível que parece ser, tem se tornado normal não calçar os sapatos dos outros.

As pessoas têm os seus pensamentos peculiares, que dizem muito a respeito da sua história, da sua formação, dos lugares por onde elas passaram e das pessoas com quem conviveram. A empatia nos leva a considerar todos esses fatores em um diálogo, embora não nos obrigue a concordar com todas as questões expostas por quem dialoga conosco.

A empatia, no entanto, leva-nos a discordar de maneira diferente. Expressamos nossa discordância como quem sabe pelo que o outro passou. Isso, em tese, afasta o radicalismo, que tem sido algo constante nas redes sociais. As pessoas têm questionado o caráter de quem sequer conhecem. Colocam em xeque a honestidade de pessoas cujo histórico de vida aponta para uma reputação ilibada. Antes que as minhas palavras sejam mal interpretadas, destaco veementemente que não me refiro, neste parágrafo, a Dilma, Aécio, Lula, Eduardo Cunha, etc., refiro-me a gente anônima, como eu e você.

Nossa intolerância desmedida tem nos conduzido a uma cegueira que nos impede de enxergar no outro algo além de seu posicionamento político. Não existe mais o “João” fã de breaking bad, especialista em futebol espanhol, detentor da melhor receita de torta alemã e conhecedor de literatura russa. Se João tem aquela camiseta vermelha com a estrelinha do PT, toda a sua individualidade é suplantada pelos rótulos gritados ao som das panelas batidas: petralha! Comunista! Corrupto! Mau-caráter! Por outro lado, se João foi para a Av. Paulista com seus adereços em verde e amarelo e carregando a bandeira brasileira: coxinha! Reaça! Golpista!

Muito se fala em ir para as ruas para garantir um país melhor para as próximas gerações. Um Brasil diferente! Mas… sem que as pessoas saibam dialogar? Se o modus operandi é realmente esse, sinto informar: nós estamos fazendo tudo errado. Muito errado.

ATENÇÃO: as pessoas não precisam ser iguais às outras! Aceite ou não, aceite ou não, aceite ou não…