Relação de quê: consumo ou paternidade?

Estudando para uma prova de Direito Digital, li um trecho do livro de Patrícia Peck que me chamou a atenção. Ela comentava sobre pontos de contato entre o Direito Digital e o Direito do Consumidor:

“Logo, vemos que o consumidor mudou, está mais informado, utiliza ambientes remotos de relacionamento (telefone, celular, messenger, chat, comunidades, redes sociais, e-mail, internet); tem mais conhecimento sobre seus direitos; quer tudo para ontem (síndrome da vida em tempo real); negocia seu poder de “clique” (o concorrente está a um clique de distância); quer atendimento personalizado, mas sem exageros na comunicação (invasão de privacidade)”. (PECK, Patrícia Pinheiro. Direito Digital. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 2013).

De imediato, pensei: já vi isso em algum lugar. E não foi quando eu estudei o Código de Defesa do Consumidor no semestre passado.

Torcemos o nariz para a mercantilização da fé dos tempos atuais, mas não nos damos conta de que, em alguns momentos, nosso relacionamento com Deus mais se aproxima de um vínculo consumerista do que de uma relação entre pai e filho.

Queremos tudo para ontem, fazemos barganha — como se do auge da nossa inutilidade pudéssemos oferecer algo, pedimos respostas específicas, contanto que a réplica esteja de acordo com a nossa vontade. Quando as mensagens que nos chegam tratam de planos que não foram previamente maquinados em nossas mentes, mas que vêm do alto, pedimos privacidade, espaço, principalmente, se nos tira da zona de conforto.

O que estamos pensando? “Hmm… Hoje não tem promoção no McDonald’s, vou para o Subway!”. Aplicaremos o mesmo raciocínio a Deus? “Deus está em silêncio. Baal, venha cá!”. Provavelmente, não clamaremos por Baal, mas temos criado muitos ídolos modernos a quem buscaremos recorrer.

Toda a nossa agonia, o desejo de “tudo para ontem”, é resultado de uma vista míope. Enxergamos Deus de forma deturpada e, por isso, nos atemorizamos com o futuro. Pensamos que Ele não sabe o que é melhor para nós, nem conhece o tempo adequado para cada coisa. Às vezes, supomos que, talvez, Ele até saiba o que é melhor, mas, “por ruindade”, simplesmente nos ignora. Enxergamos um Deus fraco e insensível às nossas dores.

Essas distorções, todavia, nada falam a respeito dEle, mas dizem muito sobre a nossa hipermetropia ao ler a Palavra, que nos apresenta não um Deus fraco e insensível, mas soberano, sábio e atento ao que (de fato) precisamos:

Ó profundidade da riqueza da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e inescrutáveis os seus caminhos! “Quem conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro?” “Quem primeiro lhe deu, para que ele o recompense?” Pois dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre! Amém. (Romanos 11:33–36)
Portanto, não se preocupem, dizendo: ‘Que vamos comer?’ ou ‘que vamos beber?’ ou ‘que vamos vestir?’ Pois os pagãos é que correm atrás dessas coisas; mas o Pai celestial sabe que vocês precisam delas. Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas. (Mateus 6:31–33)

Reconhecer a própria insignificância ante a sabedoria divina e a dependência em relação a um Deus soberano, que faz tudo conforme a sua vontade, não é dos “golpes” mais fáceis se receber, principalmente nos tempos atuais. Mas é necessário, sobretudo se, apesar de toda a nossa insensatez reiterada, temos gravada em nossos corações a consciência de que “É necessário que ele cresça e que eu diminua” (João 3:30).

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