Parto da dora e as lições que ficaram

Eu postei um vídeo lindo de mulheres parindo e o vídeo foi denunciado e, portanto, excluído da minha time line.

Fico muito triste por ter alguém tão insensível em minha lista já tão restrita de amigos. Ano passado, num pente fino, mil e tantos contatos foram ralo abaixo quando eu decidi assumir minha natureza, que é a de alguém não muito dada à relações.

Bem, os amigos repostaram o vídeo numa atitude linda de apoio que me emocionou muito. Essa é a real empatia da qual nós tantos falamos e eu sou muito grata. Mas o fato do vídeo ter sido DENUNCIADO DUAS VEZES não saiu da minha cabeça. Quem teria feito isso? Pq? Não gosta de mim, ou será que é um misógino? Será que não sabe de onde veio? Será, será, serás…

Olha, pra quem não sabe, há 37 dias eu pari uma linda menina, num parto domiciliar. Dora nasceu depois de 30h de trabalho de parto ativo. Foi exaustivo, foi doído, mas foi lindo. Parir minha filha de forma natural, no conforto da casa onde ela passará muito de seu tempo, ao lado de pessoas muito muito muito queridas, cercada de carinho, de cuidado e de liberdade, foi mágico. Trazer minha filha ao mundo sem qualquer intervenção, respeitando meu tempo, o tempo do meu corpo, o tempo dela, me fez uma mulher consciente de um poder que eu não sabia que tinha. Cada mulher tem o parto que precisa ter, e o meu durou 30 horas, porque esse foi o tempo que eu precisei pra renascer como mulher. Eu não tinha pensado em falar sobre isso até agora, mas diante de uma atitude tão intolerante de alguém, com algo tão bonito como é o nascer, e também porque quando a lethicia postou seu relato sobre como foi nos fotografar, muita gente me escreveu agradecendo por compartilhar, por mudar sua visão sobre parir, sobre seu corpo e isso me vale muito mais, então eu finalmente tive vontade de.

Então, ok, ai vai…

A gravidez não foi fácil. Não esperada, me pegou desprevenida. Com o diagnóstico médico de endometriose, à mim — que sempre quis ser mãe — foi dito que não seria possível engravidar sem um prévio tratamento. Ok. Segui tomando anti-concepcional e tudo bem, inocentemente imagina que filho só daqui uns 10 anos mesmo… aham. Eu tinha 23 anos, e estava vivendo o auge da idade. Saía de terça à domingo e chegava todos os dias às 03h da manhã pra acordar 07h e ir trabalhar. O maior porre da minha vida eu tomei grávida, por exemplo.

Eu já não estava com o pai da bebê quando me descobri — fui descoberta — grávida, em novembro. Como eu não acreditava ser possível, foram necessário dois exames e um ultrassom pra me colocar diante daquela nova realidade. Meus pais foram incríveis e se colocaram do meu lado independente da decisão que eu tomasse, me deixaram segura para seguir meu coração e foi isso que eu fiz. Nos dias seguintes à descoberta eu tive grandes lições, mas a certeza de que minha vida era quase uma novela do Nelson Rodrigues rs.

O tempo foi passando, e como a barriga demorou pra aparecer, eu também só me sentia grávida por causa dos incessantes enjoos. Não voltei com o pai da bebê — tentamos, mas não deu e eu nao me cobrei por isso, outra história havia ficado para trás — , continuei saindo, me divertindo, só que sóbria rs. Por desde sempre ser muito independente, a cobrança das pessoas sobre não me comportar como uma mulher grávida me incomodava muito, pois era como se sempre tentassem me enquadrar num padrão que eu nao sabia qual era… e eu fui uma grávida que sofri demais com os altos e baixos proporcionados pelos hormônios, e diante de tantas situações estressantes, qualquer coisa me fazia chorar o que fez dos primeiros meses (na verdade os 9) especialmente terríveis. Tive alguns sangramentos e esses sim me colocavam de volta na realidade do momento: eu estava grávida, e toda vez que isso acontecia eu morria de medo de que algo acontecesse com aquele ser humaninho que ainda era um acumulado de células. Com isso, as cobranças aumentavam à ponto de se tornarem imposições e eu compreendia ainda menos a questão do padrão: ‘você tem que parar de sair; você tem que comer melhor; você tem que comer menos doce; você tem que dormir; você tem que andar; você tem que se afastar, você tem, você tem, você tem’… e muitas vezes eu acreditei que tinha mesmo. Todo mundo acha que sabe o que é melhor para você, e que você, menina grávida, independente da idade que tenha, da experiência denvida que carregue, não sabe nada e tem que ouvir e se sentir grata. Ai ai…

No início foi um choque para as pessoas quando eu passei a responder de forma realmente sincera e uma das coisas que mais causava reboliço era a questão do parto. Decidi pelo parto natural muito antes de me imaginar mãe, ao estudar para um trabalho cujo tema era escola, desenvolvimento infantil e espaço. Me apaixonei pela ideia quando, numa escala mais subjetiva, me deparei com o impacto psicológico de um parto na vida de alguém e também porque sempre tive pavor de hospital e de cirurgias, pelo que passei a ter para mim que o dia em que fosse mãe, aquela seria minha meta: dar à luz de forma natural à uma criança, na minha casa, de forma que não houvesse violência. Grávida, quando me perguntavam se eu já tinha marcado a data do parto e eu dizia que não, o espanto era grande, mas quando dizia que ela ia nascer em casa, o espanto era ainda maior e logo vinham as críticas. Estudei muito e me muni de informações para rebater todo e qualquer apontamento indevido e passei a tratar o assunto de forma política e relacionada diretamente ao feminismo. Por que o feminismo mesmo, praticado, quem me apresentou foi a maternidade.

Houveram vários momentos em que eu fui desencorajada por pessoas que deveriam estar mais do meu lado do que qualquer outra, e isso me soava violência. Dizer que alguém não e capaz de algo é horrível, e dizer que uma mulher não consegue fazer aquilo que é desejo seu, que é um momento tão único, é ainda pior e eu chorava por conta dessa dúvida quase todos os dias. Minha teimosia não me deixava abalar quando confrontada, mas por dentro eu parecia ter sido esfaqueada… E santos foram @s amig@s que me ouviram pacientemente, deram ombro e não me deixaram desistir — foram muitos, mas devo agradecimento especial à Amanda, Andréa e Gabriel ❤ que, duas semanas antes do parto, por conta de relações mal resolvidas, eu não sabia se conseguiria ter o parto como havia desejado e procurava formas de ainda trazer dora ao mundo de forma mais humana, foram eles que me encheram de esperança, de segurança e tornaram tudo melhor.

Por falar em desencorajamento, no pré-natal isso ocorreu em 100% do tempo. Os médicos do plano de saúde são todos cesaristas. Os do sistema público, pelo menos, direcionam o procedimento para o parto normal, então segui nesse até que, um belo dia e já na reta final, uma enfermeira me disse que eu passaria a ser atendida pelo médico e que alguns tinham como prática procedimentos mais invasivos — ela sabia que eu estava sendo acompanhada por uma equipe e que tinha ideias que eram contrárias ao que aconteceria nas consultas a seguir — como exame de toque, descolamento de membrana, aperto das mamas para verificação da produção de leite (whatahell????) — e achou melhor me ‘previnir’, como ela mesma disse. Preferiria não ir à ir e ser obrigada a esses procedimentos que me parecem mais uma violação ao corpo da mulher já que não são nada necessários… E eu resolvi não ir e seguir somente com o Lumiar, equipe que eu escolhi para me acompanhar no parto. Elas apoiaram e seguimos, mas eu ainda tinha como ideia uma casa de parto… Primeiro por conta da negativa dos meus pais em acontecer na minha casa e, segundo, por não me sentir segura em ser em outro lugar apesar das amigas terem oferecido suas casas para o evento e ter a do Pedro à disposição.

Eu estava com 37 semanas quando resolvi com o Pedro que seria na casa dele sob algumas condições e então começamos a ajeitar tudo para a chegada de dora, ainda um pouco na surdina, pois minha mãe não sabia que eu havia abandonado o pré natal e não apoiava o parto domiciliar.

Percebem como o tempo todo a gente se questiona e molda por conta dos outros? Mas e essas pessoas, o que lhes dá direito de julgar o próximo por qualquer escolha que faça e que diga respeito somente à si e ao seu corpo? Fiquei me questionando o porquê e não encontrei resposta. Algumas vezes parecia que eu estava ofendendo alguém ao dizer um NÃO, e isso não era verdade. ‘NÃO, você não vai tocar. NÃO, eu não voltei com o pai da bebê. NÃO, não tenho que parar de sair. NÃO, eu não quero fulan@ perto de mim, e, por fim, NÃO, eu não vou parir num hospital’. E dizer NÃO, gente… é a melhor coisa do mundo. O poder do não é libertador. Saber que você não precisa fazer nada que não queira é lindo. E foi assim, dona de mim, que eu entrei em trabalho de parto com 39,4 semanas, no dia 19 de julho, quando, às 10h30, a bolsa estourou.

Foram 30h de trabalho de parto ativo, quase 37h de bolsa estourada e cada segundo desse tempo me fez ganhar consciência da mulher que eu sou, do meu poder, do poder do meu corpo e de como eu me subjuguei durante tanto tempo.

Quando a bolsa estourou eu avisei as parteiras pelo grupo. Pedro ia à São Paulo e achei melhor não ligar para avisá-lo. Meus pais estavam em casa comigo e queriam correr para o hospital. Pedro acabou nao indo à São Paulo porque a moto quebrou. Ao meio dia elas me examinaram e disseram que teríamos mais algum tempo, numa visita que só foi solicitada para acalmar meus pais. Eu havia me programado para fazer a unha, ir ao ioga e encontrar a P. Pedro ficou puto comigo que queria fazer tudo isso de uber rs…

Enfim, em resumo: Saindo da manicure vazou tanto líquido que as pessoas me olhavam como se eu tivesse feito xixi, então resolvi ir pra casa trocar de roupa pra encontrar a p — mas também não deu hahahha. Às 16h as contrações ficaram mais fortes e às 18h elas ritmaram .

Às 20h eu ja tinha 4 contrações em 10 min e foi a Lilian chegou. Santa Lilian. Eu estava com dor e não sabia o que fazer. Ficava deitada por pura falta de orientação, sem saber que meu corpo não se adaptava aquela posição. Minhas amigas tambem chegaram logo, mas não tenho ideia de tempo, enquanto tempo as coisas aconteceram. Meus pais foram ver como eu estava, levaram roupa e minha mãe fez arroz doce — a comida que eu passei a gravidez inteira com vontade rs — e vê-los foi bom. Como passei o dia todo andando e não segui a recomendação de descanso, ao fim da noite eu estava exausta. Ainda sem noção da máquina que era o meu corpo, pedi para entrar na banheira e dormi. Dormi mas o preço foi a estabilização das contrações. Rose chegou às 04h e de lá so saiu apos a Dora nascer, o que ainda demorou muito…

Acordei e as contrações estavam muito espaçadas. Rose não arredou o pé do meu lado, Amanda e Andréa foram pra casa, Lethicia também. A manhã passou tranquila, mas eu não conseguia comer nada, tomar nada… e tudo me enjoava. Sem sucesso, as recomendações eram as de tentar comer algo pra ganhar energia, caminhar e aguardar mais um tanto. Mas se nada disso resolvesse, iríamos tentar o tal shake e massagem.

Consegui almoçar. E caminhei um pouco na rua, mas ainda nada de muito significativo. Fui com as meninas até a farmácia comprar o óleo de riceno. Tomei o Shake e a minha recomendação, caso você deteste mamão, mel ou laranja, é escrever isso no plano de parto — outra recomendação é fazer um plano de parto. Eu não fiz rs. — A Li fez uma massagem e na massagem as contrações foram se retomando e à partir daí minha noção de tempo piora muito.

As contrações voltaram e voltaram com tudo e nessa hora já estavam todas as meninas na casa de volta e todos que participaram foram peças fundamentais. Amanda me fazia massagem quando as contrações vinham; Andréa me segurava e me fazia carinho e também mantinha amigos queridos informados; Le tirava fotos lindas e era prestativa a tudo e todos; Rose dizia que eu ia conseguir; Lilian segurava minha mão; Jenifer auscultava a bebê e Pedro tomava conta de tudo, de nós.

A noite foi chegando e o ritmo do dia anterior havia voltado. Minha mãe estava lá e vê-la — logo ela que foi contra — foi um acalanto, mas tambem me deixou nervosa. Eu sabia que ela nao queria e que a cada grito meu ela sofria. Fui para o banho e essa é a última coisa de que me lembro. Segundo as meninas isso era perto 18h e eu fiquei mais de uma hora embaixo do chuveiro. Me lembro que a casa estava cheia e a movimentação me incomodava e que eu pedi para o pedro esvaziar a casa para poder sair e foi o que ele fez. Minha mãe foi embora mas antes se despediu dizendo que voltada caso precisasse, coisa que eu não esperava.

Por mim eu teria saído do banho e ido pra banheira mas a Rose não deixou, com medo de que acontecesse o mesmo da última madrugada. Mesmo assim eu entrei, saí, e então entrei de novo para dali só sair com a dora nos braços.

Não lembro de quase nada, a verdade é essa.

Algumas fotos e músicas me rememoram, mas, pra ser sincera eu lembro da movimentação e deles falando como se eu estivesse com a cabeça em baixo d’água e acho que isso é a partolandia. Ah, aliás… eu fiquei esperando unicornios saltitantes e não houve nada disso rs.

Lembro de sensações, mas não é algo específico. Se alguém me pedir para descrever uma contração eu nao sei. Mas me lembro de ser tomada por um onda de calor, e segundo todo mundo, a noite em que a dora nasceu era de extremo frio. Lembro de ter achado que não conseguiria, e de ter ganho força pra seguir quando me toquei e senti minha filha à caminho.

Mas, enfim…

Ninguém me tocou, ninguém me impediu de comer, de andar, de dormir, de sorrir e chorar … Ninguém me deu remédio para acelerar o trabalho de parto. Ninguém me cortou… Todos estavam ali para me acalantar no momento da dor, me fazer massagem, me segurar e o mais importante: me lembrar que eu era capaz. Assim nasceu dora, às 23h10, do dia 20 de julho, e eu renasci.

Eu quis desistir. Eu quis muito desistir e só não o fiz porque não deixaram. Mas quando a dora nasceu meu corpo automaticamente se rendeu à ela e esqueceu de todo o stress dos momentos anteriores…

Hoje, depois de tantas lições eu sou outra. E não é balela. Muita coisa se ressignificou e por tudo, de bom e ruim, eu sou grata. Graças à tanto desrespeito, hoje eu tenho mais empatia. Graças ao feminismo, eu soube reconhecer a violência de tanta coisa vivida. Graças à amizade, eu entendi que sozinha não sou nada. Graças à Lilian e a Rose, eu aprendi que o tempo é um senhor implacável e que eu sou capaz porque sou dona do meu corpo. Graças ao amor eu me mantive forte na maior parte do tempo.

Por fim, parir é natural… e algo que merece muito mais respeito do que comumente é tratado. É um ato que muda a vida de pessoas ao redor e não só da mãe e do pai, e não só por que chegou uma criança e não se dorme mais a noite. Ele pode ter um significado muito mais amplo como no meu caso. Nascer é o primeiro grande trauma da vida de alguém, e você pode tornar esse trauma maior ou menor. Eu tentei fazer com que dora acreditasse que vale a pena vir pro mundo, mesmo que eu desacredite disso muitas vezes. Falar disso é necessário para que deixe de ser um tabu e o corpo da mulher deixe de ser mal visto e reconhecido somente como um objeto de prazer sexual. Dora saiu da minha vagina, e qual o problema nisso?

Imagens e vídeos de parto devem ser compartilhados, sim, e quem o faz não deve ser rechaçado por isso. O que não deve ser compartilhado são opiniões preconceituosas, misóginas, pré-julgamentos e outras coisas que diminuam qualquer pessoa.

O parto natural e humanizado tem sido a luta de muita gente, respeite.

Em lágrimas, digo: dar a luz à dora é algo que me deixa orgulhosa de ser mulher.

Eu consegui.

Eu, de peitos de fora, com a dora nos braços, sem acreditar que havia conseguido, e pedro. (mamilos são tabu)
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