De elitista a comunista: um breve conto

Raíssa Silveira
Sep 4, 2018 · 3 min read

Atenção, não tenho nenhuma pretensão de que este texto tenha cunho científico. Como diz o título, é um conto — inclusive contém uma lição ao final.

Mais um esclarecimento para quem vai ler e, ainda assim, concluir o que quiser: não sou comunista.

Em 2014, ano em que iniciei minha graduação em Ciência Política, fiz declarações, podemos dizer, um tanto polêmicas. Declarei-me elitista (talvez), meme que carrego até os dias atuais — merecidamente. Revisitando o referido texto, vejo que o ponto central era: me reconheço como socialmente privilegiada e a minha opção de voto decorre disto. Eis a pérola, abaixo.

Elitista, com certeza.

O ponto deste conto não é justificar o que falei há anos atrás, mas elucidar as mudanças que ocorreram desde então. Apesar de estar relatando algo pessoal, há um argumento mais amplo aqui implícito.

De 2014 para 2018, minha visão sobre diversos tópicos permanece a mesma. Cristã que sou, carrego a mesma interpretação bíblica dos fatos que vejo e preceitos sigo. A grande mudança está na forma com que interajo as minhas verdades (isto não é uma referência à filosofia pós-moderna) com a realidade social em que vivo. E aqui, vejo eu, está o grande equívoco da Raíssa de 2014.

Tendemos a viver, pensar, e agir de forma egoísta. Quer você tenha uma interpretação hobbesiana ou espiritual disto. Uma estrutura de pensamento que preza pela individualidade segue somente a orientação daquilo que, diretamente, traz os maiores e melhores benefícios para mim e para os meus. Do contrário, ao pensar na coletividade, as decisões tendem a ser utilitárias no sentido de “o maior bem para o maior número”. Nesse último, deixo de pensar apenas no “eu”, mas no “eu e o outro”. E desta distinção básica entre pensamento individualista e pensamento coletivo partem as minhas — e suas — opiniões sobre as coisas.

Deus tá vendo.

O exposto acima mostra que não diz respeito a ser elitista ou comunista ideologicamente, mas sobre a motivação da escolha, forma de defesa e ordenação das prioridades das minhas bandeiras. E eu resolvi olhar para o outro (inclusive, escreverei futuramente sobre alteridade). Aquela palavra que eu via como “de esquerda”: empatia.

O interessante da trajetória é ver a percepção das pessoas sobre mim mudando. Boa parte do meu ciclo conservador me vendo como apóstata e os meus amigos de esquerda dizendo que mudei para a melhor. Aparentemente, não há meio termo, moderação. Sem eu ter dito nada que corroborasse, me vi enquadrada como comunista, petista, defensora incondicional de Lula, abortista, militante LGBT, feminazi — o que quer que cada um destes termos signifiquem. Mas isso tem sido didático.

Vejo que, cada vez mais, as pessoas se aproximam de um arquétipo de quem você é. Não necessariamente aquilo que você demonstra ser, mas como a racionalidade do outro encara os sinais externos que você emite e processam de acordo com conceitos previamente estabelecidos em suas mentes. Isso já é bastante explicado pela psicologia, antropologia e sociologia, mas não deixa de ser, no mínimo, assustador. Junto a mim, vejo diversas pessoas que têm passado pelo mesmo processo, sobretudo pelo aumento do acesso às opiniões polarizadas em mídias sociais. Os outros dizem quem nós somos (em belas palavras, atalhos cognitivos).

Tudo isso foi para chegar a uma exortação que carrego para mim mesma, em primeira mão: os preconceitos sobre grupos ou camadas sociais não afetam primariamente as dinâmicas destes grupos, mas os indivíduos que estão enquadrados neles. Acrescento: há uma grande probabilidade de estarmos equivocados em nossas preconcepções. Tanto sobre o outro, quanto sobre o mundo. Estejamos vigilantes.

Raíssa Silveira

Written by

Political scientist and internationalist, mastering in International Politics. It means that I don’t know much about things.

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