Como meu filho me ensinou a ser feminista

Foi quando meu filho nasceu, no auge dos meus 22 anos, que descobri o feminismo. Até então, o feminismo para mim estava na mesma categoria que um dia coloquei o ambientalismo, a luta pela equiparação racial ou mesmo pelo direito à saúde: era legal, admirava quem lutava pela causa, mas já havíamos avançado muito e, em pleno século XXI, o movimento servia apenas para modificar o sistema de pensamento de uma minoria. Sem contar que a imagem de uma feminista, para mim, se alinhava bem com o senso comum: mulheres que não dependiam de ninguém, desdenhavam das que optavam por ser dona de casa, somente mantinham relacionamentos libertários e, se calhar, ainda abominavam maquiagem, salto alto e depilação. Era eu e minha bolha.

Olhando retrospectivamente parece inconcebível para mim que aquele fosse meu sistema de pensamento na época. Não pelos meus 22 anos. Mas por ser já uma jornalista (recém)formada, orgulhosa de estar sempre ao lado do “bem”, lutando pelas causas sociais e com consciência ambientalista-social-libertária-entusiasta-dos-direitos-humanos-vamos-mudar-o-mundo. Este parágrafo é um só parêntese nesta história para lembrar a mim mesma que até “gente do bem” se engana e pode estar até a testa mergulhada em seus próprios pré-conceitos e ignorância (do verbo ignorar mesmo). Li Marta Suplicy aos 9, mas aos 22 continuava achando que o feminismo era ultrapassado porque eu tinha a liberdade de trabalhar no que eu quisesse. Rá rá.

O engraçado, parênteses dois, é que o meu filho foi não-planejado. Mesmo. Não planejava, jamais, um dia, ter uma família. Simplesmente achava que o esquema marido-casa-filho não era para mim. Por quê? Simples. Eu queria ser uma grande jornalista, correspondente de guerra, daquelas que ganham prêmios e entram para os anais da profissão. Ah, doce sonhadora. Para ser boa profissional, mulher “muderna”, em um mundo que não precisava muito mais do feminismo, precisava não ter filhos. Ou marido. Ou, possivelmente, vida pessoal. Para não ser tão dura comigo mesmo, era uma ideia até compreensível para quem jornalismo significava trabalhar de 10 a 12 horas por dia, em vez das 5 horas do contrato, no mínimo uma vez por semana.

Mas foi quando Pedro nasceu, depois de nove meses de choque absoluto, que percebi o quão machista era o mundo que eu habitava. Machismo concreto, palpável, presente, mas sutil, como o fio de linha que dá forma ao tecido. O machismo herança de uma sociedade patriarcal, que subjuga as mulheres e formata os homens, que precisam não-ser (sensíveis, cuidadores, carinhosos, compreensivos etc.) para serem masculinos, ou melhor, machos. O machismo que entra na gente sem que percebamos ao longo de anos de convivência com tal sistema cultural.

Olha como ele é um bom pai. Troca fralda e dá até banho! Menina, não pode beber água enquanto amamenta, faz mal, depois mata a sede. Tome mingau de milho, eu sei que você não gosta, mas vai aumentar a produção de leite e é sempre bom (mesmo com o leite cheio). Desistiu da cinta? Não pode, vai ficar barriguda e feia. Já botou o café do seu marido? Não? Mas menina, ele trabalhou o dia inteiro, deve estar cansado.

Enquanto eu era preparada (ou melhor, cobrada) 24 horas por dia, 7 dias por semana, a ser a melhor versão de mim (ou melhor, a ser boa esposa-e-mãe), abnegando qualquer prazer pessoal e sacrificando todo meu ser em prol do meu filhinho, meu marido (oh coitadinho, trabalha) era um “menino de ouro”, “super-pai”, apenas por trocar as fraldas e dividir os cuidados da cria quando dava (isso porque nem vou mencionar o período em que eu trabalhava mais e ele cuidava mais do menino). E isso, incrivelmente, todo esse peso vinha das mulheres da família (a minha é matriarcal), que, claro, já tinham aguentado muito pior. Não existe nada mais trágico do que competição por “quem sofreu mais”.

Não consigo nem descrever o que aconteceu quando, antes de completar seis meses de maternidade, resolvi fazer mestrado em outro estado. Até tive certo apoio da minha família, embora impressionada pela “loucura” que era fazer o marido largar o emprego para me seguir, ainda que, no processo, ele também fosse fazer especialização e tenha chegado na nova cidade praticamente empregado. Durante os anos que morei fora, ficou pairando nas entrelinhas que eu era “louca” e “egoísta”, para dizer o mínimo, simplesmente por ter tentado ter uma vida melhor com um bebê nos braços.

E foi no meu primeiro dia de aula do mestrado, após contar minha história na roda de apresentação, que me disseram pela primeira vez que eu era uma feminista na prática. Eu??? Fe-mi-nis-ta??? Mas eu só luto pelo que acho justo, por direitos iguais, gritei dentro de mim. Mas o choque inicial aos poucos foi se tornando sentido. E, do mesmo jeito quando se aprende a nomear um sentimento inexprimível, fui me acarinhando com a ideia de ser feminista. Neste processo tudo passou a fazer (muito) sentido.

O feminismo luta sim pelos salários equiparáveis, pela ocupação das mulheres nos espaços de poder, pela punição rigorosa de crimes praticados contra as mulheres, mas é muito mais do que isso. O feminismo se trata, na verdade, da liberdade. Liberdade de ser mulher, ser mãe, sem precisar ser oprimida, ser rotulada, ser desrespeitada, ser tratada como pedaço de carne (ou pior, como uma santa), ter que seguir padrões. Sem ser chamada puta, por ser mãe solo e querer um pouco de amor; sem ter que precisar se vestir com roupas “bem-comportadas” para ser certificar sua capacidade materna; sem ter que ter medo, pânico até, de estar sozinha, seja no táxi, passando em ruas desertas ou no bar/jogo de futebol/balada/qualquer lugar com muitos homens.

Desde que me descobri feminista, Dia das Mães se tornou mais do que uma data celebrativa para mim. Virou um dia de luta. Não quero ser endeusada, chamada de “guerreira” ou “super-mãe”, por fazer quantos turnos (trabalhar, estudar, amamentar nas madrugadas, cuidar da casa, das contas, do marido) for preciso para assegurar a saúde física e emocional do meu filho. Não quero me sentir culpada por não ser 100% sempre. Não mais. Quero ser livre para também falhar, ser cuidada, ter preguiça. Livre para poder levar meu filho ao médico sem ter minha capacidade profissional questionada. Livre para poder sair para um programa noturno sem sentir a culpa de deixá-lo com os avós. Livre para poder ser eu, e não apenas mãe, nem mulher. Liberta até de mim mesma.

Então esse foi o feminismo que meu filho me fez encontrar. E é deste modo que de fio em fio, no tecido do cotidiano, que vou costurando um novo caminho: o da libertação. Não só para mim, ou para ele, mas para todas nós.

Para ler mais:

Uma mãe no Tinder (ou como nossos jovens continuam machistas)
Feminismo para leigos

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