A voz de quem não fala pela boca
Os impactos da difusão da cultura surda em ambientes acadêmicos e sociais

Se as pesquisas científicas mais recentes indicam que acordar às 9h-10h não é saudável para o relógio biológico do ser humano, que dirá acordar e ter que levantar da cama às seis ou sete horas da manhã. Embora haja produções científicas a respeito do tema, o que ocorre é que na prática e na legislação de nenhum país ou província isso se torna real. Na prática as coisas são mais duras. Um exemplo disso foram as pessoas que tiveram que acordar cedo e sair de casa para estarem presentes em um evento realizado dia 8 de julho, em um auditório da Universidade Federal da Bahia (UFBA ), em Salvador. O evento em questão foi o II Colóquio de Linguagem e Surdez, iniciado às oito da manhã e se estendendo até às 17 horas. Na ocasião, palestrantes de três mesas debatedoras, distribuídos em horários reservados e estendidos ao longo do dia, argumentaram acerca das possíveis reflexões da cultura surda na sociedade e formação da identidade surda no Brasil.
Quando o relógio marcou sete e meia da manhã, a sala de inscrições e o credenciamento para entrar no espaço do evento foram abertos. O dia amanhecera nublado, pois é inverno em Salvador — embora seja fácil esperar que durante o mesmo dia, o tempo mude de uma hora para a outra. Quando o sol sai, a chuva vem, e assim vice-versa. Às vezes o frio vem acompanhado da chuva, pois assim se fez por volta das sete e meia. Pessoas procuravam abrigo por entre as coberturas dos institutos e faculdades, passavam as mãos pelos braços revelando simbolicamente a presença de frio no corpo, enquanto outras procuravam um lugar mais quente para sentar, até que começasse o evento. Às oito e meia, quando as moças da recepção já haviam credenciado a maioria dos participantes, decidiram anunciar o início da realização do evento. Os participantes que estavam no pátio do Instituto de Letras da UFBA começavam a entrar no auditório, assim que foram alertadas sobre o início.
As moças em questão eram estudantes do curso de Fonoaudiologia na UFBA. A equipe organizadora era formada por cinco estudantes mulheres e um estudante homem (os conceitos de gênero neste momento não se aplicam tão fortemente). Como em todo evento acadêmico, este também contou com a presença de diversas pessoas, de variadas áreas, como alunos e profissionais de História e Geografia. Todos se posicionaram no auditório. O ar condicionado já estava prestes a esfriar a sala, quando foi dada a largada para o início do evento. Uma das organizadoras subiu ao palco, pegou o microfone com fio, sorriu solenemente para plateia e pronunciou palavras convocatórias para atrair atenção de todos para o começo das apresentações. No mesmo momento, do outro lado do palco, estava posicionado um intérprete de libras que, procurava atrair a atenção dos surdos que estavam no evento. Com os ponteiros do relógio marcando nove horas e o ar condicionado numa temperatura adequada, a sala toda se enchia. Estava pronto pra começar.
As mesas estavam posicionadas no canto direito (do ponto de vista da plateia) acompanhada de três cadeiras novas e garrafas de água. O centro do palco estava vazio de adereços, com apenas um projetor de vídeos ao fundo para que os palestrantes pudessem exibir seus slides no momento de apresentação. Do lado direito do palco, um(a) intérprete de libras estava posicionado para realizar as traduções dos debates. Para a primeira mesa, foram convidadas três pessoas, ou melhor, três mulheres “empoderadas”, como dizem os termos mais modernos.
“Rede de Saúde Auditiva: há lugar para a cultura surda nos profissionais de saúde?”. Foi com base nesse tema que começaram os diálogos do evento, mais precisamente acerca da forma de lidar com a saúde das comunidades surdas existentes na sociedade brasileira. A fonoaudióloga do Centro Estadual para de Reabilitação de Deficiências (CEPRED) da Bahia, Valéria Oliveira, relatou sobre o cenário da rede de atendimento às pessoas com deficiência auditiva. Valéria, que tem especialidade em Audiologia e trabalha com o diagnóstico da audição na população infantil, adulta e idosa, discursos palavras honrosas sobre o trabalho que considera bastante promissor para a humanidade, dando destaque assim, ao auxílio que o Centro oferece a comunidades deficientes, embora revelasse que os atendimentos oferecidos pelo Centro e pela rede de saúde pública da Bahia ainda precisam ser melhorados para atender maior quantidade de pessoas deficientes. Evitar constrangimentos pessoais e conseguir mais equipamentos que ajudem no tratamento dessas deficiências foram os obstáculos mencionados pela fonoaudióloga. Com o aviso da assessoria informando sobre seus os últimos instantes de fala, Valéria fez seus agradecimentos e se retirou do centro do palco após dizer que a luta era grande e que deveríamos todos prosseguir nela.
Sentada ao centro da mesa, ao redor das duas outras palestrantes, Laiza Rebouças não desgrudava os olhos do intérprete de libras, que, sentado na primeira fileira da plateia, gesticulava para ela. Com o aviso dele de que seria a vez de Laiza se levantar e se pronunciar, ela bateu palmas para as falas de Valéria, sorriu e se levantou. Os longos fios do cabelo de Laiza balançavam enquanto ela se levantava. Usava um look básico para falar de um tema complexo: calça jeans azul escuro e uma blusa social branca com decote nas mangas médias. À frente da plateia apresentou o seu sinal, a letra L. Em seguida pediu que a moça que manuseava o computador exibisse os slides que ela trouxera. Tudo pronto, começou seu discurso.
Ao centro do palco, a palestrante relatou sobre a importância da cultura surda na sociedade, com atenção especial à saúde desta comunidade. Para contextualizar a temática, estudiosos que abordam a área de saúde sobre povos surdos em suas pesquisas, foram citados por Laiza, hoje representante da Central de Intérpretes de Libras do Estado da Bahia (CILBA) e professora de Língua de Sinais. Tal cultura mencionada por Laiza diz respeito às questões tanto audiológicas, quanto políticas e linguísticas de comunidades surdas. A partir daí relatou sobre a necessidade e capacidade dos surdos se adequarem socialmente quanto qualquer ouvinte. Suas palavras fortes durante seu discurso foram acompanhadas de aplausos de ambos os tipos, em som e em gesto.
Karla Daniele de Sá, doutora em Psicologia Clínica pela USP, começou emotiva. Revelou que estava intrinsecamente emocionada pela intensidade dos relatos que acabara de ouvir por parte das colegas palestrantes. Esperou então, cerca de dez segundos para recuperar o fôlego, pois parecia que as lágrimas iam descer a qualquer momento. Os olhos de Karla brilhavam feito uma mãe quando vê seu filho nascer. Não desceram. Escorreram por dentro do cristalino e da retina. Tentou ser forte e foi. Em seguida, olhou para os papeis que estavam na mesa à sua frente e mencionou aquela sinceridade comum em palestras com curto espaço de tempo para longas falas. “Falo demais. Quando acharem que tenho que parar podem dizer”, revelou sorrindo. A fala foi acompanhada de algumas risadas que logo se esvaíram no ar, talvez por conta da própria intensidade do tema.
Depois de um sorriso de canto de rosto, a palestrante mudou seu semblante e se concentrou em duas ou três folhas de papel que estava diante de si. Não usava óculos. Não fazia nenhum movimento que pudesse indicar algum esforço para enxergar melhor as letras do papel. Usava um vestido preto de regata que combinava com a cor do cabelo, num tom de preto azulado. Karla narrou um pouco sobre sua vida profissional, local de trabalho e as pesquisas que desenvolve com alguns de seus alunos na Universidade Federal do Vale do São Francisco, em Pernambuco.
Em seguida, resumiu algumas falas mencionadas pelas palestrantes anteriores, que destacaram sobre a insuficiência do atendimento à rede pública de saúde e da luta para que a comunidade surda no Brasil não fique desamparada. Karla, então, deu destaque maior a um outro subtema: os desafios de se debater a saúde da comunidade surda em ambientes acadêmicos. “Enquanto isso não entra na universidade, mais difícil será trabalhar na área”, afirma. Karla defendia a ideia de que os cursos universitários especializados em saúde humana deveriam especializar o(a) aluno(a) de forma mais atenciosa, ao atendimento a pessoas que apresentam deficiências tanto físicas quanto cognitivas ou intelectuais.
Para encerrar sua participação, contou um caso de dois ou três estudantes que trabalham com ela em Pernambuco. Na ocasião, relembrou que ficou bastante embasbacada quando os ouviu dizer que não sabiam atender um paciente com surdez. “Como assim, professora? O que a gente vai fazer? Eu não sei falar a língua dos sinais”. Karla relembrou as palavras usadas por um deles naquele momento e compartilhou com a plateia.
O episódio se estendeu e terminou de modo que fez Karla transformar seu espanto em entusiasmo, pois depois de receber conselhos da professora, um deles se virou para o paciente surdo, disse que não sabia a língua de comunicação dele, mas disse as palavras: “me ajuda a te ajudar”. Patrícia revelou que aquelas palavras a deixaram feliz, por simplesmente saber que já era um início de inclusão, de aceitação, paciência e profissionalismo por parte daqueles estagiários. No fim das contas, reforçou por meio de seu exemplo, que por mais que seja profissional o psicólogo saber lidar com diversos tipos de paciente, a universidade tem um importante papel de ensinar como se trata, com cooperação e humanidade.

Associações acolhedoras
Com o término da primeira mesa debatedora, surgiu a possibilidade da plateia se pronunciar com perguntas ou conhecimentos. Diante das várias pessoas que se levantaram para compartilharem e esclarecerem suas dúvidas acerca do debate, uma delas, Vivian Freitas, mãe, surda e professora, convidada para palestrar na terceira mesa do colóquio, avançou no tempo e logo se pronunciou, com relatos de sua vida pessoal e profissional. Sentada na terceira fileira, a mulher não pôde se conter diante de um debate que muito escancara a sua realidade. No entanto, Vivian ainda guardou diversos conhecimentos e experiências, pois tinha muito a contribuir posteriormente naqueles debates.
Depois de um tempo, um homem alto, branco, charmoso e aparentando estar na casa dos 50 foi o primeiro a ser chamado para compor a segunda mesa, que discutiu a Importância das Associações para a preservação da cultura surda. Joselito Ferreira, representante do Centro de Surdos da Bahia (CESBA), subiu ao palco com semblante alegre, cumprimentou a plateia e se dirigiu à primeira cadeira da mesa. Quando foi chamado para dar o ar da graça com seus conhecimentos acerca do tema, Joselito pediu à moça que colocasse seus slides em tela e agradeceu solenemente pelo ato. No centro do palco, ressaltou sobre a importância do associativismo entre federações e associações da cultura surda e ouvinte no Brasil. Por conta de seu senso de humor, muitas das expressões ditas por ele vinham acompanhadas de algum trocadilho que gerava o riso da plateia. Suas falas ponderadas estavam num nível ao mesmo tempo militante (a favor da difusão da cultura surda na sociedade) quanto educativo, pois as informações que Joselito mencionou causaram surpresa e comoção de uma boa parte dos participantes do evento.
O homem falou da história da fundação CESBA em Salvador, suas origens, implicações, equipe e atendimento e até formas de contato com a mídia. “O Nordeste tem 24 federações e o Sudeste tem diversas associações”, afirmou. Complementou dizendo que no Norte ainda não há muitas associações especializadas no atendimento da comunidade surda e que a luta para que a surdez deixe de ser invisível no Brasil todo é uma luta constante e, de todos. Não pôde concluir todos os seus slides por falta de tempo, mas deixou suas mensagens registradas na memórias da plateia. Ao final, contou uma piada sobre algum aspecto de sua vida pessoal, arrancando assim algumas gargalhadas, emoções e muitas palmas.
Para acompanhar Joselito, Patrícia Rezende, doutora em Educação pela UFSC e professora do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES) levantou-se descalça, sorriu para a plateia e começou seu discurso complementando as falas de Joselito, sobre a importância de associações da cultura surda no Brasil. Patrícia tinha energia para dar e vender. Andava pelo palco, brincava diante dos temas com os quais discutia e reforçava sempre mensagens positivas quanto a inclusão da cultura surda em ambientes escolares, ao argumentar sobre a importância o ensino da língua de sinais em escolas públicas e particulares do Brasil.
Gaúcha por naturalidade, Patrícia começou bastante nova nos estudos acerca da cultura surda e na militância a favor dos direitos humanos que tal comunidade necessita. Ao palestrar por diversas cidades brasileiras, sempre argumenta a favor da inclusão social. Comentou, no Colóquio, que o Rio Grande do Sul é um dos estados brasileiros em que comunidades surdas se fazem presentes, porém não mais que no Norte e Nordeste. Entre um gole e outro de água que tomava durante suas falas, Patrícia resumiu seu discurso com uma metáfora que fez a galera cair na risada, mas no bom sentido. Compartilhou que em uma de suas pesquisas pelo norte brasileiro sobre comunidade surda, apelidou algumas das árvores da Amazônia que cogitou também apresentar tal deficiência cognitiva, e claro, com seu jeito acolhedor, não quis desprezá-las, ao contrário, incluiu-as, tornando-se amigas. Patrícia sorriu. A plateia aplaudiu.
O papel da família

O coffee break não durou mais de vinte minutos e a plateia já estava posicionada para voltar ao auditório do evento. A relação entre família e surdez foi o tema da última mesa: Diálogos familiares: cultura surda e família ouvinte. Nesta fase final das palestras, Vivian, mestranda em Linguística pela UFAL subiu ao palco novamente para relatar uma de suas experiências pessoais como mãe surda. Acompanhada de seu filho de dez anos, revelou que ele havia pedido para se apresentar com a mãe. Concedida a ideia, foram os dois para o palco. A plateia bateu palmas depois da fala dele. Talvez muitos se emocionaram com a cena.
Vivian falou toda sua trajetória de uma mãe surda, que, feliz ao descobrir que estava grávida a alguns anos atrás, não se abalou quanto recebeu a notícia de que o bebê era surdo assim quando ele nasceu. “Para mim foi natural. Só queria fazer de tudo para o bem-estar do meu filho”, disse. Acompanhada do marido e de uma educação de qualidade seguiu sua vida e educou seu filho da melhor maneira que pôde.
O psicólogo Álon Maurício, tradutor e intérprete de Libras do Núcleo de Apoio à Inclusão do Aluno com Necessidades Educacionais Especiais (NAPE/UFBA), comentou sobre seu projeto de pesquisa na UFBA. Revelou que amava sua profissão, sobre sua sexualidade e disse que a vida poderia ser bem melhor caso a inclusão da comunidade surda fosse mais ampla no Brasil, já que o país apresenta cerca de 300 milhões de surdos, segundo dados recentes do IBGE. “A invisibilidade da sexualidade dos surdos” foi o tema que Álon compartilhou com todos aquela tarde, justificou a importância e seguiu confiante em suas pesquisas, além das diversas palmas que chegaram ao final de sua fala.
Surdez também é cultura
As falas dos palestrantes, mediadas por alguns fonoaudiólogos, atraíram atenção de estudantes e profissionais de diversas áreas, incluindo diversos interessados no tema, como na área de Comunicação, História, Geografia, Medicina além de Letras e Fonoaudiologia. Tais interessados apresentaram algumas pesquisas acadêmicas que muito contribuíram para a importância dos debates. Ao final do evento, a porta-voz do evento subiu mais uma vez ao palco e agradeceu pela vinda de todos àquele Encontro. Mencionou palavras bonitas e agradeceu fortemente à professora e coordenadora do evento, Desirée Begrow, que, emocionada, chorou, recebeu um abraço e um beijo do marido que estava ao seu lado, pegou o microfone quando lhe entregaram e agradeceu fortemente, pela área que atua, pelas pessoas que conquistou para caminhar junto e aos participantes daquele evento. As últimas palavras foram poucas, porém as mais notáveis: cultura, gratidão e inclusão. O mundo precisa cada vez mais disso.
