quando o som toca a alma
Sempre foi boa a minha relação afetiva com os animais. Com dez anos de idade comecei a criar alguns de estimação, já que minha mãe também tem gosto pela coisa. Foi então que juntamos nossos interesses e partimos à prática. Foi a partir daí que ganhei meu primeiro bicho de estimação, o Ari — um periquito com aquelas cores tradicionais (verde e amarelo) bem meigo, pois consideremos que os periquitos são bichinhos dóceis, embora reservados em seus cantos. A casa era espaçosa. Ele ficava numa gaiola no chão, próximo ao aparelho televisivo da sala de TV e de um balcão — que dividia a sala da cozinha, numa espécie de copa, como dizem por aí -, além de água e comida. Quase todos os dias, eu o apanhava, brincava com ele, tirava-o da gaiola por um momento, acariciava o pelo, e até incorporava aquela voz infantil que muitas pessoas fazem quando estão estão se comunicando com crianças. Nessa ocasião a coisa fofa era Ari, um periquito-verde cuja espécie conheci um tempo depois. Na mesma época, ainda criava peixinhos coloridos de aquário.
Como diz a Psicologia, é na infância e pré-adolescência que o ser humano está começando a formar sua personalidade, construindo os valores e princípios que nos norteiam ao longo das nossas vidas. Escolhas que realizamos, métodos para chegarmos a um objetivo, são alguns dos exemplos. São ainda, nesses valores, que posso dizer que além de literatura, sempre tive gosto pela arte, em especial o teatro. Nessas idas e vindas, descobri que gostava de pisar num palco e interpretar outro alguém, adquirir trejeitos e pensamentos de uma outra personalidade.
É nessa situação acima que me lembro de uma sexta-feira à noite, quando eu e minha mãe chegávamos em casa após eu ter apresentado uma peça no colégio. Ari me esperava em casa, quieto, mais que de costume. Talvez decerto o único ser. E tinha um motivo especial para isso: ele estava machucado, com o papo dolorido, após dias antes dele saltar das minhas mãos e bater o peito na gaiola. Nesse dia, eu o vi vivo pela última vez. No sábado seguinte, a manhã estava ensolarada — não precisa inventar que estava nublada como em alguns contos que vimos por aí -, e foi ao acordar que minha mãe me deu a notícia: “Ari morreu”. Fiquei tristezinho, porque uma criancinha daquela idade se apega muito com os bichinhos -, mas a vida seguiu. Lembro que mamãe não disse muita coisa. Levou-o até a lata de lixo do quintal e o despejou lá.
Na mesma manhã, escutei tocar na rádio, a música Retrovisor, do cantor Fagner. Alguns anos depois, fiquei com essa lembrança na mente. Sempre que ouvia um trecho da música ou simplesmente me atentar ao toque, me fazia lembrar do acontecido. Hoje não é mais assim, não faço tantas relações com tal fato. Porém o que resta é que o toque sensibilizante que a música proporciona é inegável e, toca a alma.
Ari ficou na memória, apenas. Chegaram outros bichos lá em casa. Todos já se foram. Só sei que o que é infinito não morreu: a música. Simples. É como o “azul que é memória de algum lugar”, como disse Caetano Veloso na canção Trem das Cores, de 1982. A vida tem dessas.