Sonho e Solitude

Aquele dia parecia interminável. Joana já estava exausta, quando viu um amontoado de sujeira no final da rua. Com olhos cerrados e sobrancelhas arqueadas, dirigiu-se até lá. A Carlos Epitáfio era uma rua sem saída e pouco movimentada, apenas carros estacionavam ali. Ser gari na capital é como em qualquer outra cidade do interior: usa-se farda (por cá, blusa e calça vermelhas), uma vassoura de piaçaba e uma pá enorme. Enquanto caminhava ao local destinada, uma mulher na faixa dos trinta anos reclamava de sua filha - que seguia a passos lentos -, e mãe repetia com voz calma que era melhor parar o chororô, porque não iria voltar à loja para comprar aquela boneca da vitrine. "Você tem muito brinquedo, minha filha, e vive os destruindo eles aos poucos. Vamos, se mexa. Os olhinhos enfurnados da menina continuavam sem vida, opacos, à medida que era conduzida pelos ombros da mãe. Enquanto isso, o lixo aquele canto esperava que alguém o resgatasse, colocasse num balde e o levasse embora. Viu um cão de rua lacrimejando um dos olhos. Sentiu uma dose de pena, embora devesse prosseguir. Terminara o expediente.

Em casa, deu comida para aos cães e preparou a janta. Os pães na mesa foram degustados numa velocidade constante, na companhia da xícara de café com leite. Quem a conhecia sabia que não gostava de ficar parada. Então se dirigiu à máquina de costura, mexeu nos tubos cor-de-bege e apanhou uma pilha de roupas que estavam num banco próximo. Ao olhar para o alto, avistou o retrato de sua mãe pendurado à parede, esta que há dois anos atrás morrera de meningite. A filha herdara a coragem e a determinação para trabalhar. Aprendeu que com isso, o ser humano se dignifica desde cedo. Às vezes, descansava o café e caía no sono, não conseguindo fixar os olhos na máquina. Geralmente ficava no batente até às 23h e deixava prontas as encomendas para entregar no dia seguinte, em horário de almoço.

Fazia cinco anos que Joana saia de casa às seis da manhã, em meio a ruas vazias, onde só o canto dos bem-ti-vis e o vento úmido eram perceptíveis. Mas tudo passou rápido nos últimos tempos. Passaram-se dois anos, de altas costuras e varreduras de folhas secas, quando Joana deixou o emprego de gari para se dedicar ao bom rendimento de sua habilidade com o trabalho extra. Numa certa manhã ensolarada de abril, decidiu que iria voltar estudar para poder realizar um grande sonho. Desabafou para suas duas filhas, Mônica, de quatorze anos, que queixava das amiguinhas "chatas" da escola, e Cássia, com doze, sorridente, dona de uns cílios belos e compridos. Contou às filhas, sentada num banco de madeira empoeirado, que recebera uma proposta de trabalhar numa casa de costuras na Rua Frederico Gaspari, Situada na Avenida Principal, próxima dali, e que já voltaria à escola em breve. O salário, explicara, não era suficiente para sustentá-las. O marido morrera há muito, deixando as crias alimentadas pelo pão conquistado a cada dia. Às seis e meia do outro dia, procurava o estabelecimento. Era sábado e estava de folga. Um transeunte passou apressado ao seu lado, esbarrando em seu ombro. Pediu desculpas educadamente e seguiu adiante. O encontro com a proprietária se deu por volta das oito da manhã. Pela conversa simples e objetiva, ficou certo de que poderia começar na semana seguinte. O Universo havia conspirado a favor. Antes de sair, à espera de um cafezinho, avistou uma borboleta pela janela, indecisa de ficava ou saía. Na volta para casa pegou um ônibus lotado. Ainda assim sorriu para o cobrador. Apesar de tudo, era destemida e alegre. Acreditava que o bom humor ajudaria a melhorar os problemas da vida.

[…]

Um ano se passou. As coisas se encaminhavam bem. Joana estava empregada somente na casa de costura e já havia alugado uma casinha maior. Os cães seguiram com elas. Arrumou no terraço para que os bichos ficassem à vontade, sombra, água fresca. A determinação de Joana a levara adiante. Numa manhã chuvosa, a casa com cerca de 10 cães — as fêmeas não eram castradas e cruzavam com seus namoradinhos machinhos -, ela se dirigiu ao lugar em que acabara de conseguir com uma amiga do trabalho: uma casa para acolhimento de cães e gatos de rua. Seu sonho de um lar para esses animais estava cada vez mais se concretizando, acompanhado de sua melhoria nos conhecimentos gerais e no vocabulário. Dedicava-se agora aos últimos retoques de pintura e dos aparelhos, simples e equivalentes ao que recebiam. Pediram patrocínio para alguns estabelecimentos e arrecadaram uma quantia para montar uma logo. O negócio fluía bem. Outro dia regressou à rua em que trabalhava como gari. Não viu sujeira pelo chão. Ficou feliz por terem preenchido sua vaga e na preservação da limpeza, embora sua busca por algum bicho estivesse fracassada. Alguns dias depois, ao sair do trabalho, e do outro lado da rua, avistou um pequeno filhote de vira-lata — deduzia -, esticado ao chão, ao lado de uma lata de lixo. Ergueu as sobrancelhas, passou a mãe pelo cabelo oleoso e apanhou o animal. Levou-o para casa enquanto a Instituição não ficava pronta. As meninas amaram o Nick. Pensaram no nome assim que assistiam a mãe dar-lhe no tanque e enxugar-lhe as orelhas sujas.

A Instituição estava avançando. Cada vez mais, foi ganhando certa notoriedade, ajuda e mais personagens para aquela trama. Com o emprego de costureira, Joana conseguiu manter-se de pé firme na associação, e procurava, sempre que lhe sobrava um tempo após o expediente, visitar o local para saber de novidades. Numa tranquila tarde de sexta, o cão de pele cinza e dourada deu alguns latidos. Uma emissora de TV estava à porta de sua casa e queria entrevistá-la, para saber um pouco mais da vida e do empreendedorismo generoso que fizera. A reportagem saíra, juntamente com bons comentários que vieram à tona. Sem perder a humildade, a vida seguia.

Joana preservava o amor. Seu coração grande era. Sustentava suas filhas e estava feliz por ter realizado seu sonho. Dava carinho de todos àqueles que amava e aos animais que tinha o prazer de cuidar.

[…]

Segundos após, Joana abriu os olhos. Sentou-se no sofá, assustada. Considerava que dormira mais que podia e que já deveria estar atendendo seus pacientes no consultório. Sentiu que viveu um sonho mágico, bem diferente de sua realidade — literalmente um sonho. Passava-se então, das duas da tarde, quando se dirigiu ao banheiro e lavou o rosto. A casa vazia. Os móveis limpos. Porém, Joana se sentia incompleta. Era viúva há cinco meses e não tinha filhos. Queria que sua vida fosse mais alegre, embora fosse bem sucedida profissionalmente. Arrumou-se e a pé, foi ao supermercado comprar algumas frutas, antes de pegar o carro. No caminho viu um pequeno cão parado em frente ao prédio. Foi aí que percebeu que sua vida poderia ganharia mais vigor com aquele animal correndo pela sala de sua casa, limpo, vacinado e saudável, todas as noites, enquanto ela assistia o jornal e comia torradas. Sentiu sua vida ganhar um brilho maior, com aquela presença.

Há sonhos que vem como forma de aviso e aniquila a solidão. Agradecia por ter se atrasado no trabalho e sonhado aquilo que deixaria sua vida um pouco mais divertida. Deitada ao tapete, pensava coisas do tipo, ali, quieta, pacífica, a imaginar que poderia ajudar a recolher animais de rua e entregá-los à caridade. Mas naquele momento, queria estar em paz, ali, quieta, acariciando o novo companheiro.

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