Um homem de vanguarda

Foto: Sophia Morais

Com sua determinação para vencer limitações, Ednilson Sacramento aposta numa vida mais justa, por meio da comunicação e do otimismo. Seus estudos, trabalhos realizados e os planos para o futuro são os meios que ele utiliza para atingir esse resultado.

O encontro com Ednilson Sacramento, atual estudante de Jornalismo da Facom, se realizou numa biblioteca pública, um ambiente que lhe é familiar, diante de livros, pessoas e pesquisas. Ele contou sobre sua infância e adolescência destacando suas brincadeiras e atividades, além de sua deficiência visual e dos obstáculos que enfrentou pelo caminho. Sua rotina diária é marcada por seus estudos e pelo trabalho como presidente do Conselho Municipal dos Direitos Humanos da Pessoa com Deficiência de Salvador.

Ednilson, baiano de Maragogipe, veio para Salvador ainda criança. Passou dificuldades, morando em uma comunidade pobre e estudando à luz de velas. Já adolescente, começou a enfrentar os problemas de visão, que surgiam gradativamente. Ele comprava lupas para ler melhor. Mas continuou trabalhando para ajudar sua família, em empregos como office boy e gerente.

Sua perda total da visão veio a partir dos 20 anos, no momento em que começou a trabalhar como técnico fiscalizador do CREA-BA. Por essa razão, foi afastado. Para chegar à faculdade fez vestibulares mal sucedidos, até se matricular e se graduar em História. Em seguida, Ednilson ingressou no Bacharelado Interdisciplinar (BI) de Humanidades na UFBA, até escolher a Facom.

Ele teve uma infância e adolescência pobre. No distrito onde morava, só havia energia elétrica nas ruas principais, e as residências ficavam às escuras. Dentre as brincadeiras de “criança pobre” — palavras dele — das quais participava, estavam as de carrinho de pau, patinete de madeira e bola. Além disso, ressalta que esses brinquedos eram puramente artesanais.

Ednilson não perdeu o otimismo em nenhum momento. “Na verdade, com o diagnóstico, me vi diante de um desafio. Poderia me incomodar ou não. No entanto os meus planos não eram puramente visuais, e sim mais futuristas. Fui descobrindo assim novos caminhos”. Antes mesmo de pensar em entrar numa faculdade de Comunicação, sempre gostou de ler, de se atualizar, escrever crônicas, críticas e poesias. Acha que a partir da revista eletrônica Telefanzine, já “fazia jornalismo”, diz ele, sorrindo.

Bem humorado e falante, salienta que sempre foi um simpatizante do movimento punk. Admira também o Rock desde os 19 anos, pelo forte estilo em si e pela postura dos cantores no cenário baiano. Ele afirma que essas composições, há décadas atrás, eram revestidas de marginalidade e possuíam uma maior carga de crítica social. “Outro fato é que as mães antigamente não deixavam seus filhos escutarem esse estilo musical, por se tratar de denúncias da realidade. Hoje, há apelos do próprio espetáculo. As pessoas vão a shows mais para se divertirem, pois essas bandas não põem mais medo”, diz.

Amante do rock, Ednilson falou sobre a cena do gênero em Salvador, cidade dominada pelo axé. “Talvez seja devido à chamada monocultura, que forma blocos monolíticos, onde se fez surgir uma galera nova que resolveu mudar esse cenário”. Em seu livro Rock baiano — história de uma cultura subterrânea, ele conta toda a sua análise sobre esse estilo musical na Bahia.

Ao criar o Telefanzine, a primeira revista eletrônica por telefone da Bahia, produzia e divulgava conhecimento em áreas como cultura, política e esporte, para toda a cidade. As pessoas admiravam bastante e o trabalho era feito com sucesso, em termos de satisfação pessoal e dos ouvintes.

Ednilson caminhando pela nova rampa (Foto: Sophia Morais)

Sobre seus passatempos, Ednilson fala: “Sou uma pessoa sem muita arte por conta da falta de lazer. O lazer são migalhas do dia-a-dia, no que deveria ser ao contrário. Mas sempre quando posso, visito espaços culturais”. Sua filosofia de vida: “Acreditar nas pessoas. Perdemos como cidadãos quando não acreditamos. É preciso inspirar confiança uns aos outros”.

Sobre acessibilidade, um dos temas que Ednilson mais conhece, ele dispara: “A cidade em geral não prepara para isso. Os órgãos da prefeitura não determinam bem os espaços que poderiam ter, cumprindo as leis de forma mais eficaz. Os governantes não ‘pensam’ que esses deficientes participam, gostam, e são capazes de frequentar esses locais. Existem trabalhos também para os ‘empregadores de olhos’, porém, no mercado há um número ínfimo para esses, por possuir poucas pessoas pesquisando e se interessando mais pelo assunto. Assim, a apreciação estética fica limitada, inviável”.

Ao falar sobre a questão da inclusão na universidade, as questões vão dos espaços físicos até as salas de aula, os materiais de estudo e a adaptação dos colegas, funcionários e principalmente dos professores, para conduzi-lo bem durante as aulas. “Os professores no início não estão bem preparados. Alguns podem ter tido passagem em alguns projetos à inclusão de deficientes visuais. Mas no pedagógico não há uma metodologia visada exclusivamente a incluí-los, a exemplo de aulas expositivas e leituras. Ao passar do tempo se forma uma melhor relação entre esses alunos e a comunidade”.

As tecnologias que permitem a inclusão são abrangentes. Para ler, Ednilson usa programas instalados no computador, como leitores de tela, que traduzem o que está escrito. Os comandos de voz, lupas eletrônicas e canetas especializadas também o ajudam. Ele não se utiliza de todas as tecnologias disponíveis, devido ao alto preço. “Eu utilizo os programas DOSVOX e NVDA”.

Sobre seu futuro profissional, Ednilson demonstra muito interesse em atuar nas áreas de radiojornalismo, mas também se atenta à redação jornalística. Ainda destaca disciplinas que poderia haver no curso, como Tecnologias da Informação e Comunicação e Direitos Humanos.

Sempre otimista e cativante, Ednilson Sacramento é um homem determinado e confiante em suas escolhas. Leva em seu íntimo um olhar mais profundo das belezas do mundo. Pode parecer muito poético, mas este homem, sem dúvidas, é um grande exemplo para a Facom e para toda a sociedade.

*perfil realizado para a disciplina Oficina de Comunicação Escrita do primeiro semestre do curso de Jornalismo (2013.2)

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