Ativismo animalista

Rafael Leopoldo & Natália Coeli

O ativismo animista luta por uma nova relação com os animais, ou ainda, poderíamos expandir este elo e dizer que se trata de outra relação com a natureza (interna e externa). Muito do que é considerado como ativismo animista está relacionado com os direitos dos animais, porém nem todo o ativismo vai por este caminho. A nossa relação com a natureza é uma relação de dominação, nos colocamos como mestres e senhores da natureza como dita a filosofia de René Descartes. Nos colocamos fora dela, como seres especiais e distantes que somente consegue vê-la e compreendê-la a luz de um laboratório, ou seja, tornando-a objeto de nosso gozo-tecnocrata.

O direito dos animais vem com o intuito de propor outra forma de lidarmos com esta natureza, com os animais não humanos. Um dos grandes pontos da luta animal é o humanitarismo, a tentativa de uma melhor qualidade de vida para os animais, porém, o que acontece com o humanitarismo é que mesmo o animal tendo, teoricamente, uma melhor qualidade de vida do que as condições mínimas de existência e de todo o sofrimento que acontece hoje, o objetivo final do proprietário é o lucro, dito isso, o dono/senhor do animal ao fim escolhe sobre a vida e a morte do seu animal quando lhe convém. Se podemos ver um ponto positivo no humanitarismo é que ele colocou o sofrimento animal não humano em foco, mostrando que deveríamos olhar para aquela realidade. Contudo, parece necessário outro passo.

Este outro passo se trata de quebrar a concepção de que os animais são meras coisas, que eles são apenas uma propriedade privada, seja propriedade individual, empresarial ou governamental. O filósofo, Gary Francione, faz um apontamento muito perspicaz a respeito da relação humanitarismo e a propriedade privada, porque estes elementos seriam incompatíveis, já que não é possível pensar no interesse do animal (interesse de não sentir dor, interesse pela vida), pois o interesse do proprietário sempre vai prevalecer. O direito dos animais nesta via procura uma ética de igual consideração de interesses e também a abolição do animal não humano como uma propriedade, como uma reles coisa.

O filósofo, Peter Singer, escreveu um clássico para os direitos dos animais chamado Libertação animal. Neste livro mais do que um conteúdo duro e filosófico encontramos a cada página como são tratados os animais e, depois de Peter Singer nos defrontamos com tantos outros autores que tratam a questão animal, desta forma, conhecemos um pouco mais sobre nós mesmos, revemos nossas ações, nossos hábitos alimentares, os produtos que usamos no nosso dia a dia, reavaliamos até mesmo nossas atitudes políticas. Voltamos aqueles livros para questioná-los, para saber até onde foram com a questão animal e assim vamos produzindo algo novo.

Este momento em que revemos nossa ação é importantíssimo, porque se trata de um primeiro momento de uma prática individual, mas também, passamos para a esfera coletiva. Ao compreendermos minimamente a situação dos animais não é estranho a vontade de um ativismo, de uma tentativa de mudança e, de fato, determinadas ações ocorrem neste âmbito e cada vez com maior frequência. É um ativista que pega o megafone e se coloca na rua a explicar o que é um Baby Beef; o professor que com o seu pincel na sala de aula com um projeto anti-especista; alguém com uma camiseta escrita “segunda-feira sem carne”; um grupo que prática ação direta e liberta vários cachorros que vão ser sacrificados; um sujeito surfando na internet e em um click compartilhando e curtindo alguma informação a respeito dos animais; alguém politizado que está dentro das assembleias conversando com políticos, ou ainda participando dos eventos que surgem a cada momento e assim chegamos a produzir um conhecimento coletivo.

Todavia, apesar de cada estágio no ativismo em que as pessoas se encontram, em quais etapas passam, talvez, seja necessário salientar que é importante ir além de um especismo eletivo e de um ativismo de condomínio. Aqui, temos o condomínio como a metáfora do medo, mas também, de uma letargia que espera o seu momento catártico, o momento de colocar para fora o que nos apequena, nos faz mal. O ativismo que acontece por meio de um click é fantasmagórico e, por vezes, somente está no ambiente virtual e não chega a produção de uma mudança efetiva e ainda pode gerar a decepção em qualquer outra forma de ativismo. Claro que a internet não é o pior dos nossos pesadelos, mas sim, outro reflexo de nossa humanidade. Trata-se então de outros encontros, conversas e ações, ou seja, produção coletiva de horizontes.