Fragmento

Davi Kopenawa Yanomami nos dá um exemplo dramático na sua A queda do céu: palavras de um xamã yanomami, a respeito do primeiro contato entre os portugueses (os “forasteiros”) e o povo indígena:

Foi com sua espuma que Omama criou os forasteiros. De modo que nossos antigos xamãs já falavam dos brancos muito antes de eles nos encontrarem na floresta. Seus antepassados não descobriram esta terra, não! Chegaram como visitantes! Porém, logo depois de terem chegado, não pararam mais de devasta-la e de retalhar sua imagem em pedaços, que começaram a repartir entre si. Alegara que estava vazia para se apoderar dela, e a mesma mentira persiste até hoje. Esta terra nunca foi vazia no passado e não está vazia agora! Muito antes de os brancos chegarem, nossos ancestrais e os de todos os habitantes da floresta já viviam aqui. Esta é, desde o primeiro tempo, a terra de Omama. Antes de serem dizimados pelas fumaças de epidemia, os nossos eram aqui muito numerosos. Naqueles tempos antigos, não havia motores, nem aviões, nem carros. Não havia óleo nem gasolina. Os homens, a floresta e o céu ainda não estavam doentes de todas essas coisas. (Kopenawa & Albert, 2015, p. 253).

A linha dura do açoite encontra a pele banhada pelo sol. Kopenawa narra em primeira pessoa o início de um longo processo de colonização de uma terra falsamente vazia, Kopenawa parece dizer “estou aqui e vivo!”, mesmo após o fim do mundo, ou seja, após o contato com os brancos.

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