Puro Sexo.

Diante desta gama de novos textos com relação à sexualidade, trataremos primeiramente do filósofo Alan Goldman, que nos apresenta uma visão que voltaria a um ponto de vista mais próximo do senso comum, sobre a sexualidade. A análise conceitual que Alan Goldman faz da sexualidade nos conduz a uma visada mais simples que gostaria de se manter a parte destas malhas culturais desgastadas e ao mesmo tempo, elaborar outra visão ética com relação à sexualidade e suas perversões, que apesar de conceitualmente simples não deixa de ser interessante.

Desta forma, convém revermos alguns pontos expostos por Alan Goldman, para entendermos o que seria esta visão simples, este puro sexo. Os passos abarcariam primeiramente os seguintes entendimentos: Análise conceitual, Sexo e reprodução, Sexo e amor romântico, Sexo como comunicação, Meios e fins e Equilíbrio conceitual e Perversão sexual. Com este caminho podemos compreender quais as implicações a que a perspectiva de Alan Goldman nos leva, mas também perpassar diversas outras formas de se entender a sexualidade. Por isso a visão de Goldman se torna tão fecunda, pois ele se contrapõe a outros tipos de reflexão da sexualidade antes de chegar a um ponto simples.

Contudo, cabe a nós, depois de percorrermos esta argumentação, saber se este entendimento da sexualidade como puro sexo é filosoficamente viável.

Análise conceitual

Nosso conceito de sexo determina parcialmente nossa visão moral dele, mas como filósofos nós deveríamos formular um conceito que esteja de acordo com o seu próprio status moral. O que precisamos aqui, como em qualquer outro local é um “equilíbrio reflexivo”, um objetivo não alcançado pelas análises tradicionais e as recentes análises com suas implicações morais. Como a atividade sexual, da mesma forma que outras funções tais como comer ou exercitar se tornou incorporada em camadas de cultura, moral, estruturas ilusórias, é difícil conceber o sexo em termos simples. Mas, em parte por esta razão é apenas pensando em puro sexo que podemos começar a alcançar este equilíbrio conceitual. (Soble, 2008, p. 56. Itálico Nosso. Tradução Nossa)[1]

A primeira dificuldade com relação a uma análise conceitual do sexo diz respeito às malhas culturais nas quais o próprio sexo foi envolvido. Mediante à desconstrução destas camadas culturais, Goldman propõe um equilíbrio conceitual e critica as análises feitas com a estrutura de “meios e fins”, aquelas que dão a atividade sexual um propósito externo. Exemplo desta análise de meios e fins é pensar o sexo como reprodução, o sexo como amor romântico, ou ainda, pensa-lo como comunicação. Dentro de todos estes exemplos o sexo é um meio para se atingir outro fim, que por sua vez é externo ao sexo. Tomando o primeiro modelo e vendo pelo âmbito desta análise, temos o sexo como um meio para a reprodução e o desejo como desejo de reprodução. Nos outros casos, o desejo se transforma em desejo de expressar o amor ou de ser amado, ou no último caso de comunicar algum sentimento, e de receber esta comunicação. Esta análise é falha de acordo com Goldman ao ver o puro sexo somente como um meio para outro fim. Este entendimento da sexualidade também leva consigo um caráter normativo, pois o que não se enquadra neste modelo se torna um desvio da norma, ou seja, uma perversão. Estas análises com relação ao sexo não encontram o equilíbrio conceitual que é o entendimento da sexualidade sem um valor moral supostamente intrínseco a ela.

Alan Goldman propõe revermos esta análise de meios e fins e suas implicações morais. Esta análise gera o próprio desviante, e a categorização do pervertido. A figura do desviante é o negativo do conceito normatizado. Desta forma, Goldman propõe outro entendimento do que é o desejo sexual: “Desejo sexual é o desejo pelo contato com o corpo de outra pessoa e pelo prazer que tal contato produz; Atividade sexual é a atividade que tende a preencher este desejo do agente.” (Soble, p. 56. Tradução Nossa)[2] O desejo agora é visto como desejo de um contato físico e o prazer que este contato produz, o fim deste desejo é o contato físico nele mesmo, diferente de uma visão de meios e fins. Este desejo pelo contato físico se torna o critério mínimo para o desejo sexual. Interessante notar que esta definição é um contraponto também à noção de uma visão geral da psicologia, que passa a enfatizar de maneira exacerbada o orgasmo como finalidade da atividade sexual, e o sexo genital como a única forma de sexo. Várias atividades com o fim de se ter o contato físico como beijar, acariciar, poderiam ser qualificadas como sexual, mesmo sem a presença dos genitais. Mediante esta definição Goldman tenta antever três críticas possíveis: 1) uma com relação ao contato físico; 2) a segunda crítica poderia vir do contato da criança na amamentação; 3) a terceira crítica poderia surgir da ideia de personalidade e a atração que ela pode causar.

A primeira crítica ao que concerne ao contato físico poderia relacionar o desejo físico com atividades tais como o futebol e em outros esportes que há este contato. Contudo, o argumento do Goldman indica que estes esportes não visam o contato do corpo do outro por si mesmo. Nestas atividades o objetivo não é o contato físico, mas se exercitar, ganhar ou perder, e tantos outros objetivos. Na linha de Goldman o contato para ser entendido como sexual tem que ter o desejo específico por outro corpo. Na segunda crítica que diz respeito à amamentação e o desejo do contato físico da criança, Goldman regressa à Sigmund Freud para entender este desejo como sexual ou ao menos como protosexual, desejo ainda amorfo, não é o desejo específico por outro corpo, por isso Goldman se torna relutante até mesmo caracterizá-lo como sexual, pois leva em conta que o desejo inconsciente da criança pode ser por segurança, carinho, afeição etc. Goldman poderia ter sustentado a sua argumentação, mais facilmente, usando o conceito freudiano de sexualidade poliforma, porém o autor parece ter restrições a teoria psicanalítica, assim o autor não entra na problemática freudiana sobre a questão da transição entre a sexualidade infantil (e sua organização oral, anal e fálica) e a adulta. A primeira sendo caracterizada pelo poliformismo da sexualidade e a segunda com o desejo voltado para os órgãos genitais e a escolha objetal. Goldman somente toma o desejo da criança como ainda não sendo um desejo pelo corpo do outro. A terceira crítica a respeito da personalidade de outra pessoa como algo sexual, o filósofo faz questão de salientar que sim, sentimos atração pela personalidade de outra pessoa, e esta individualidade está envolvida em seus comportamentos, mesmo que se sinta atraído pela personalidade, não se deseja somente estar e uma conversa agradável, mas também um desejo por contato físico.

Com estas considerações temos uma problematização da sexualidade, que foge dos dois pontos principais das abordagens precedentes, que se baseavam no conceito de desejo e na análise de meios e fins. Já foi salientado que para Goldman estes dois pontos comumente se relacionam a uma visão do sexo como moral, e também a um conceito de perversão sexual. Neste limiar retornamos a tentativa de estabelecer o que ele chamou de equilíbrio conceitual — estes conceitos carecem de um equilíbrio não porque as pessoas não saibam o que é o sexo, muitos sabem, muitos praticam e não seria necessário nenhum filósofo para dizer o que é, mas talvez seja necessário dizer o que não é. Goldman então vai caminhar pela via negativa, para evitar falsas visões de uma moral sexual e de uma perversão sexual que emergem quando se pensa em uma análise de meios e fins.

[1]Our concept of sex will partially determine our moral view of it, but as philosopher we should formulate a concept that will accord with its proper moral status. What we require here, as elsewhere, is “reflective equilibrium” a goal not achieved by traditional and recent analyses together with their moral implications. Because sexual activity, like other natural functions such as eating or exercising, has become embedded in layers of cultural, moral, and superstitious superstructure, it is hard to conceive it in its simplest terms. But partially for this reason, it is only be thinking about plain sex that we can begin to achieve this conceptual equilibrium. (56)

[2] Sexual desire is desire for contact with another person’s body and for the pleasure which such contact produces; Sexual activity is activity which tends to fulfill such desire of the agent.(Soble, 2008. p56)

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