Puro Sexo. Sexo e Reprodução.

Sexo e reprodução

A análise de Goldman desta primeira conexão entre sexo e sua função reprodutiva é por ele considerada mais compreensiva, pois se trata de uma função biológica. Contudo, para uma defesa do sexo como desejo de reprodução, também há as malhas culturais, históricas, teológicas etc. O filósofo cita nesta perspectiva a influência da igreja católica em sua ética sexual cristã derivada principalmente de Paulo. Entretanto, ele não desenvolve e nem exemplifica nenhum argumento do laço entre sexo e reprodução, que poderia ser facilmente encontrados em autores como Santo Agostinho, Duns Scoto, Tomás de Aquino, entre outros filósofos, principalmente os que têm um viés religioso. Volto-me ao filósofo medieval Tomás de Aquino para elucidar uma possível interpretação da ética sexual cristã que de fato varia muito. A escolha deste filósofo é motivada pelo fato da sua união da função biológica da reprodução com os dogmas religiosos criando uma estrutura conceitual para o entendimento da sexualidade.

Tomás de Aquino remonta a uma visão de uma função natural dos órgãos sexuais, e esta função é claramente a reprodução. Contudo, ele vai relacionar esta função natural a outros dados. A atividade sexual natural se transforma naquela em que se tem que ter a emissão do sêmen, com o intuito da procriação, caso contrário o ato sexual é tido como contra a natureza (até mesmo a masturbação seria algo contra a natureza, pois se tem a emissão do sêmen sem o seu propósito que é a reprodução). Eis o pecado. O ato sexual de acordo com esta lógica passa a ser limitado a uma relação monogâmica e heterossexual. A reprodução, por sua vez, não é simplesmente trazer uma vida ao mundo, ela se relaciona a visão de mundo cristão. Dentro do próprio conceito de reprodução há um emaranhado de prescrições, como cuidar do filho até o momento em que ele tenha condições de viver por ele mesmo. O melhor ambiente para esta criança é o familiar, entendido como uma relação heterossexual dentro do casamento, e este casamento deve ser por toda a vida. Neste ponto podemos claramente entender como uma função natural se mescla com a ética sexual cristã e como os conceitos ficam fortes. Diante desta conceituação da sexualidade encontramos uma divisão entre uma sexualidade natural e outra contra a natureza, uma normal e outra pecaminosa, e assim, gera-se a categorização do desviante, do perverso. É necessário ainda colocar que a compreensão da sexualidade, principalmente, pela igreja católica vem sofrendo diversas modificações, porém o discurso oficial permanece antiquado até para uma grande porcentagem dos católicos.

Um entendimento do sexo somente como uma função natural reprodutiva (função biológica) é ficar diante de uma posição fragilíssima tendo em vista a eficácia dos métodos diversos métodos contraceptivos como, por exemplo, os contraceptivos comportamentais (temperatura basal, muco cervical, coito interrompido), os métodos de barreira (camisinha, diafragma, esponjas, espermicidas), os dispositivos intrauterino, contracepção hormonal, contracepção cirúrgica, e tantos outros métodos que dão uma maior possibilidade do casal explorar a sexualidade tornando quase nula a sua função reprodutiva. A psicologia também mostra que não nos mantemos nos níveis biológicos do sexo, ele transborda a sua mera função biológica.

A crítica de Goldman é que quando temos uma análise de meios e fins e nela se cria a ideia de que diante da função reprodutiva, e da atividade sexual existe necessariamente a reprodução, passamos a entender esta atmosfera como um lugar mais moral para o exercício da sexualidade. O mesmo acontece com a visão que interliga esta função natural com a ética sexual cristã, porque a ética sexual cristã estabelece o lugar normal, mais apropriado para a sexualidade, e assim, devemos afirmar novamente, criando o conceito de desviante, perverso, imoral etc.

Like what you read? Give rafael leopoldo a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.