A pretensão revolucionária e a marginalização da experiência humana.

Na sexta feira, dia 03 de Março, o programa Amor e Sexo — da Rede Globo — abordou questões de identidades de gênero e sexualidades dissidentes do padrão binário e circulou bastante em torno da experiência e da narrativa da vida de pessoas trans. Parte do programa foi protagonizada pela cantora Liniker, que reinterpretou a música Geni e o Zepelin, de Chico Buarque, canção cujas origens remontam à experiências não-normativas de gênero e sexualidade, inserindo na apresentação a seguinte fala: “O Brasil é o país que mais mata travestis, transexuais, homossexuais e bissexuais no mundo. Isso tem que acabar. Basta. Só assim podemos nos redimir”.

Desde então, diversas opiniões e textos sobre o assunto surgiram no Facebook, podendo ser divididos em dois posicionamentos majoritários: um que acredita na importância da representatividade e da necessidade de ocupar espaços hegemônicos com discursos tradicionalmente marginalizados — apesar das muitas críticas que podem ser feitos às posições e falas dos participantes; e o outro que acredita não haver necessidade de permitir que discursos marginalizados sejam cooptados para a lógica do lucro, produtividade e pontos de audiência que sustentou diversos posicionamentos anti-éticos em uma emissora como a Rede Globo.

Não é a primeira vez que este debate se põe dentro deste binômio, seja pelas iniciativas supostamente inofensivas que grandes corporações tem em “defesa” do meio ambiente ou pela quantidade de distorções feministas que apareceram na grande mídia recentemente.

Contudo, muito há de ser dito sobre a retórica que acusa a participação de pessoas trans no programa de “liberal” ou de “participar da lógica do lucro”.

No sábado, dia seguinte à veiculação de “Amor e Sexo”, o cantor Father John Misty foi ao tradicional programa norte-americano “Saturday Night Live” apresentar canções de seu novo álbum, “Pure Comedy”, em rede nacional.

A primeira apresentação foi de uma música chamada “Total Entertainment Forever”, onde o cantor critica e denuncia o poder da indústria do entretenimento de nos emburrecer e nos tornar anestesiados pela sensações de estarmos confortáveis.

Muito se comentou sobre a plataforma onde o cantor veiculou suas ideias: um programa com tantos anos de história cujos produtores e atores envolvidos todos participam da massiva indústria de entretenimento norte-americana, esta tão pasteurizada. Essa que o cantor critica em diversos momentos de seu novo álbum em diversas músicas de forma direta ou indireta.

Dessa forma, a questão que se põe é: qual a importância de se posicionar frente à problemas hegemônicos dentro de espaços tradicionalmente hegemônicos?

Porque um compositor tão angustiado pela indústria do entretenimento e seus efeitos iria para um centro de consumo e entretenimento manifestar essa angústia?

Talvez pelo reconhecimento que ele tenha do poder dessa indústria. Da capacidade dela de produzir efeitos e respostas emocionais nos espectadores e da consequente importância de se contestar essa relação de dentro, a partir da própria origem do problema. Talvez por não subestimar o crescimento da indústria de massa pura e não taxá-la simplesmente enquanto “produto” de um processo histórico amorfo e unidirecional “capitalista”, reconhecendo-a a assim enquanto expressão humana válida e disputável, como reconhecem seus milhares de espectadores. É, portanto, entender que a experiência humana se encontra e se valida na superficialidade da televisão também, e que trabalhar pra melhorar esse cenário envolve cantar sobre ele dentro dele. É, enfim, uma forma de se aproximar do espectador sem subestimá-lo.

O próprio SNL entende isso: a sua influência na narrativa norte-americana de oposição ao Donald Trump com suas esquetes e comentários políticos bem humorados contribui diariamente para uma oposição ideológica aos fascismos do atual governo. Um paralelo pode ser traçado com o humor pouco estratégico de Marcelo Adnet e seu programa “Tá no Ar” que recentemente satirizaram a estrutura racial do Brasil e já caçoaram inclusive da própria Rede Globo.

A resposta a isso tudo parece difusa, mas não é: os meios de comunicação de massa estão constantemente em disputa. Seja pela tendência capitalista de se moldar pela demanda ou não, o que Amor e Sexo, Tá no Ar e Saturday Night Live tem em comum é o espaço dado a narrativas que contestam a estrutura vigente, seja de forma humilde e amansada ou de forma direta.

É importante, contudo, entender que este mérito não é da bondade inerente dos produtores dos programas ou da família Marinho, e sim na necessidade destes de atender uma demanda que se torna cada vez mais pública: a de que os meios hegemônicos se tornem mais justos e representem (sim, é sobre representatividade) de forma mais clara a diversidade que habita o tecido social. De acordo com o argumento “marxista” isso supostamente é “frustrar a revolução” ou “cooptar” as narrativas que construiriam a derrubada do capitalismo, porém isto é uma falácia. Se as condições materiais e o debate público tornassem possíveis a revolução, não seria um programa como “Amor e Sexo” que teria o poder de frustrá-la, porém, essas condições não existem porque o interesse não é esse, e também pela prepotência dos militantes que defendem essa saída política em criticar todas as outras formas de se criar debates que não sejam “revolucionárias”.

O absurdo chegou ao ponto contraditório onde pessoas citaram a série “Black Mirror” e o episódio “50 Million Merits” onde a série aborda a capacidade da indústria do entretenimento de cooptar narrativas e esvaziar discursos, para afirmar que o que aconteceu na Rede Globo é um espelho do episódio. Ignorando, portanto, que, por essa lógica, a própria série é um espelho do episódio, pois é veiculada em um gigantesco meio de comunicação privado que visa o lucro. A contradição deste argumento é tão grande que ignora o quanto aprenderam sobre entretenimento numa série cujo papel inicial era entreter e gerar lucro, mas que decidiu se utilizar desse espaço para gerar novos debates.

Outros exemplos podem ser elencados: a escritora nigeriana Chimamanda Adichie, premiada internacionalmente e propulsionada à atenção mundial a partir de um TED Talk no qual ela fala sobre feminismo de forma acessível e inteligente (que depois se transformou em livro) deu recentemente entrevista à Folha de S. Paulo onde ela elenca dicas (que também estão presentes em seu novo livro) para educar crianças feministas.

Também na Folha de S. Paulo, o filósofo de esquerda e tradicionalmente ligado à pautas revolucionárias Vladmir Safatle escreve semanalmente no jornal, que é parte do terceiro maior grupo midiático do país.

Nos exemplos supracitados, a lógica do lucro está presente em diversos âmbitos: no TED, que em 2012 teve 41 milhões de dólares de entrada em dinheiro (quanto ganham os participantes?), na escritora que tira seu sustento de vender livros que trazem acesso à informações e perspectivas feministas à mulheres que talvez nunca tivessem encontrado tais assuntos em outros lugares, na exploração da tendência a discutir gênero que a Folha se utiliza para criar manchetes, na necessidade de um filósofo projetar suas ideias rotineiramente em um jornal de grande circulação também para que ele possa escrever livros e produzir para além da necessidade de lucro. O discurso de Chimamanda foi também sampleado pela cantora Beyoncé, que recentemente tornou sua carreira um grande veículo para a construção do debate público sobre gênero e raça, chegando ao ponto mais comercial ao apresentar o single “Formation” do álbum Lemonade em pleno Super Bowl, tornando sua crítica à estrutura racial algo presente em milhares de televisões norte-americanas.

Ninguém menciona, até esta suposta contradição se tornar tão flagrante, que o “capitalismo cooptar as novas dissidências” não frustra nenhuma possível “revolução” que se ponha no futuro. Ao contrário: todas as mais recentes revoluções não rejeitaram os progressos tecnológicos nem os espaços construídos dentro da própria lógica do capitalismo. Desde a Primavera Árabe até a maior marcha de mulheres que aconteceu nos Estados Unidos (também considerado o maior protesto do país) todas se utilizaram das redes sociais para criar encontros e novas iniciativas; além disso, diversos coletivos independentes e páginas de apoio a grupos minoritários se tornaram instituições físicas e materiais, e começaram em espaços como o Facebook e o Twitter. Uma revolução que se preze não pode virar as costas para a maneira que a população (que supostamente deveria protagonizar essa revolução) se utiliza para se expressar, se comunicar, se encontrar e criar, por um puritanismo de gênese: “a origem é o capital, logo, não serve”. Dessa forma, quando processos autoproclamados revolucionários acusam os meios de comunicação de insuficientes e desnecessários, contrapostos por uma “rua revolucionária”, eles só se isentam da responsabilidade de ocupar espaços de forma ética e honesta, tornando-se arrogantes e prepotentes ao julgar os esforços alheios.

Desta forma, o argumento de que nenhuma dessas ações tem validade pois “participam da lógica do lucro” é irreal, atrasada e profundamente destituída de empatia, pois ignoram o progresso nas narrativas minoritárias e as formas com as quais elas conquistam espaço e atenção do grande público. No domingo, por exemplo, o Faustão pautou, 3 dias antes do Dia da Mulher, o índice de feminicídios no país. Quão recente é a possibilidade disso acontecer? Quão inválido é isso diante de uma promessa revolucionária tão provável ao olharmos o passado quanto o “fim da história?” Será mesmo que uma projeção de uma suposta “revolução” cujos resultados todos em todos os lugares incorreram, eventualmente, no genocídio de populações, deveria superar a necessidade de dialogar com o grande público em espaços “capitalistas”? Deveria dizer que o “diálogo da Globo não serve” pura e simplesmente porque a emissora tem origens execráveis? Apenas uma lógica assumidamente totalitária (aquela que pressupõe a ditadura do proletariado) pode negar formas de diálogo.

O que dizer da seletividade em criticar as mulheres trans e seus supostos vícios em feminilidade na Rede Globo, mas fazer vista grossa aos diversos textos e produções midiáticas de múltiplos outros discursos minoritários? É possível criticar os processos revolucionários do mundo árabe uma vez que a Samsung, empresa reconhecidamente envolvida com relatos de escravidão e exploração do trabalho, esteve tão presente no processo de organização social (na invenção do Android à possibilidade de existência de outros apps de comunicação)? Qual alternativa se propõe para “purificar” o processo de criação de diálogo? Há alguma se não a promessa messiânica da revolução proposta num momento histórico onde o progresso humano estava muito menos socializado e diluído da experiência coletiva? O quão atrasado estamos em nossos sensos de empatia ao anular os espaços ocupados por minorias que reafirmam suas existências e resistências publicamente em nome de um processo “mais puro” que virá num horizonte que nunca chega?

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