Como a distinção “Gênero x Sexualidade” mantém privilégios masculinos

Essa palhaçada das bonecas infláveis para pedófilos me fez pensar em muitas coisas.
A grande problemática da retórica pós-moderna pra botar a mão na cabeça de todo mundo e falar que podemos ser o que quisermos é:

“Gênero e Sexualidade não se misturam”

Podemos falar sobre isso em duas chaves, a primeira de todas é: como afirmar por exemplo que uma pessoa trans é hetero, homo ou bi?
Baseado na identificação de… gênero dela.
Ou seja, a sexualidade é uma posição em relação ao outro cuja classificação é baseada no gênero que se assume.

Se a gente partir desse princípio, gênero é algo completamente marcado pelas posições sexuais assumidas, seja hetero homo ou bi.

E agora, (muito) mais importante que isso tem aquela pulguinha atrás da orelha:

Se gênero não é atrelado à sexualidade, porque então o homem enquanto gênero perpetuou e construiu ao longo da história isso que chamamos de cultura do estupro? Foi meramente um “agenciamento coletivo de enunciação”, como diria o Deleuze? Tribos indígenas isoladas, culturas orientais, todos os países do Ocidente estupram, e em alguns desses lugares “mulher” nem é ser humano. Foi um acaso? Os símbolos ocidentais por acaso são reproduzidos em todo o mundo?

Se isso não é uma condição de gênero completamente atravessada por sexualidade eu não sei o que é. O gênero mulher foi construído muito a partir de uma dominação sexual que o gênero homem perpetuou e construiu até industrias pra manter (a pornografia por exemplo).

Aliás, sobre ela, como dizer que gênero não tem a ver com sexualidade quando pais ensinam que ser homem é transar pela primeira vez? Que pagam prostitutas, que mostram filmes pornôs para os filhos?

Talvez a gente possa dizer que orientação sexual não é a mesma coisa que gênero, mas A Sexualidade também é um efeito — e em alguns casos, muito perverso — de práticas e discursos (além da Biologia, claro, mas não sejamos reducionistas).

Ou seja, os nossos “gostos” não são só preferências individuais que a gente trouxe de outras vidas, são maneiras de se relacionar que a gente aceitou, que foram construídas em torno de violência. A pedofilia é só o maior exemplo disso.

Portanto: nós precisamos falar sobre a sexualidade.
E agora falando diretamente pros homens como eu: a gente pode ser muito legal, ter quebrado mil padrões de gênero no Facebook e etc, mas se a gente não botar o nosso tesão em questão, não vale de nada. Se a gente não considerar que isso que é chamado de Patriarcado foi espalhado em bancas de jornais, sites, televisões, cinemas e constituiu a nossa relação com mulheres em algum momento, a gente vai falhar. 
A gente falha achando que não querer mulheres gordas é “questão de preferência”. A gente falha achando que o que outros corpos fazem sobre si mesmos deveria ter a ver com o nosso tesão (engordar, emagrecer, malhar, se tatuar, se depilar, o que quer que seja).

O maior problema é que a gente precisa querer parar de falhar. 
Enquanto a gente não parar de consumir pornografia a gente não é aliado o suficiente. 
Enquanto a gente não parar de consumir, julgar, classificar e comentar na rodinha o corpo de mulheres na rua a gente não é aliado o suficiente.
Enquanto a gente não entender que nós homens somos os principais perpetuadores da gordofobia e que os transtornos mentais consequentes NÃO SÃO FUTILIDADE NEM MIMIMI, nós não somos aliados o suficiente.

Porque enquanto a gente não entender que tudo isso compõe uma lógica que parte do princípio de que mulheres são objetos sexuais à nossa disposição, cujos corpos são regulados pelas nossas vontades, a gente vai continuar achando normal a existência de bonecas infláveis para pedófilos, porque nós já entenderemos sexualidade como um exercício sem um Outro.

E aí em determinado momento você vai ser super desconstruído em termos de gênero, mas na hora de deitar na cama aquele outro ser humano deitado com você não vai ser um ser agente, passional e cheio de sentidos internos.

Vai ser só mais uma boneca inflável no grande desfile de corpos cujas subjetividades a gente preferiu jogar no lixo.

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