André Dahmer, Malvados.

Nas discussões sobre Saúde Mental que se desdobraram a partir da campanha pro “Setembro Amarelo”, muita coisa dita precisa ser analisada.
29,6% da população paulistana que vive em áreas metropolitanas possui algum transtorno mental.

Ou seja, se pouco menos de 1/3 da população de uma das cidades mais populosas do país adoece mentalmente, o adoecimento mental tem tendência a se apresentar em condições semelhantes reproduzidas em outros lugares. Se é a “urbanização” e a “privação social” que geram os quadros clínicos, pouco importa. O que se sabe é que o adoecimento está incrustado na vida social, que faz parte dela, que a ansiedade é um denominador comum, e que a linguagem cotidiana está começando a dar espaço para que se fale sobre transtornos mentais, pois ele já é um território comum a grande parte das pessoas.

Nada disso significa dizer que oferecer a caixa de mensagens pro amigo que sofre de transtornos mentais “desabafar” seja a noção mais responsável de atenção à crise.

Mas a tecitura social do problema indica a necessidade urgente de que se simbolize e se trate depressões e ansiedades também pelo senso “comum”, pela linguagem coletiva, pelo repertório da experiência.
Ou seja, é preciso construir e simbolizar o transtorno mental como momentos vividos na vida de quem os sofre, e isto pareciam ignorar todos que preferiam divulgar o número do CVV a se colocar como ouvintes no inbox, para serem mais “responsáveis”. É mais fácil falar disso com estranhos ou pessoas próximas?

É nisso que os especialismos se denunciam nas diversas disciplinas que falam do ser humano: chamam de irresponsáveis aqueles que não as consideram as “únicas” capazes de falar sobre transtornos mentais com propriedade.


A primeira dor de quem sofre o transtorno mental é a sensação de exclusão da normalidade, do comum, de “todas as outras pessoas”.

Por isso, engana-se quem acha que quaisquer técnicas desenvolvidas pelas ciências da psiquê sejam mais efetivas no tratamento dos transtornos mentais do que o fortalecimento do vínculo social, do que o incentivo à vida comum e do senso de integração que isto promove.

É preciso que nos comuniquemos sobre nossas dores para lidarmos com elas.

Seria interessante se esse mês talvez fosse também sobre isso.