Por mais histeria:
É preciso um músculo rígido, que seja. Um sistema nervoso em pane, uma falha que desmecanize o corpo.
As mulheres do século XX (talvez, quiçá, de todos os outros séculos também) sempre tiveram razão: a gente engole, amortece, sustenta o impossível até que este se esperneie em nossos corpos que já esquecemos que existem.
E continuaremos engolindo uma vez que vomitemos paralisias.
A histeria moderninha é ainda menos polar: vivemos no espectro.
Cada absurdo a gente engole e logo esperneia, a saturação é um ponto cada vez mais próximo, e um acúmulo de tensão cada vez mais rápido de dispersar.
Hora ou outra, no entanto, saturar vira um processo de rotina: tomo meus cafés da manhã saturado de pensar no almoço ou no ônibus que não tarda a passar (mas tarda a voltar às 18h).
Saturo-me de evitar considerar os tantos prováveis: posso morrer no caminho, morreram alguns no caminho ontem, morrerão mais amanhã.
Queimaram aquele ônibus semana passada. Estupraram pelo menos 200 mulheres no país enquanto eu escrevi este texto.
Ainda assim eu acordo de manhã, ajusto meus sentidos, meus olhos e ouvidos à carnificina, sinto o cheiro de sangue escorrer na atmosfera e dou bom dia aos que continuam por aqui (no geral, homens brancos).
Vivo um mecânico desviar da morte na esquina, sem jamais olhá-la nos olhos.
A gente finge que não sabe que levantar de manhã é um privilégio de ter sobrevivido mais uma vez à miríade de interrupções que hora ou outra nos aguardam.
Tanto finge, tanto pesam os ombros de tanta fragilidade jogada para trás dos olhos, que precisamos ser histéricas para fugir: perder a visão, travar os tornozelos, dobrar os joelhos. Ter surtos de choro, stress, gritos esporádicos sem aparente explicação, surtos de riso irônico, liberações repentinas de energia adensada e empacotada num quarto-e-sala em nossas consciências.
Ainda assim, é disto que precisamos: não esquecer de chorar, de derramar as lágrimas, de perder o controle, de gritar. De deixar este organismo que vive constantemente em alerta, alerta, constantemente no limite, urrar de dor. Dor esta que os médicos cinicamente sentenciarão: “é psicológico”.