Pale Blue Dot, (Terra vista a 6,4 bilhões de quilômetros).

Ressignificando crises de ansiedade:

Há poucos dias de me contemplar com 21 anos de idade, me encontrei em uma varanda com o coração disparado, pensamentos correndo de um lado para o outro, em um estado mental profundamente consciente de si e do entorno.
E ao contrário do que parece, isto não foi ruim.

Nas minhas primeiras crises, eu tinha certeza de que eu iria morrer. Absoluta, inexorável certeza. Eu pressentia rompimentos arteriais, reações fisiológicas desastrosas ou um episódio de morte súbita. Como os mortos não escrevem, percebe-se que estive errado. Todas as vezes.
Ainda assim, a biologia me contava várias coisas: meu coração disparava, minha respiração ofegava, meu suor esfriava. O corpo inteiro se preparava para a tão chamada luta ou fuga. Mas onde estava o perigo? 
É nesse sentido que é preciso atribuir às crises de ansiedade, anteriormente ao desígnio de transtornos mentais, o título de crises de sentido.
Ainda que eu estivesse errado sobre a temporalidade do fato, permanece verdadeiro que os temores de minhas primeiras crises tem fundamento: hora ou outra eu de fato vou morrer.

Tendo isso em mente, é sempre bom ter alguns dados em mãos: se há de fato uma correlação entre urbanização e ansiedade (e, por consequência, melhora em quadros clínicos devido ao aumento de contato com a natureza), isto não se dá sem motivo. O processo de urbanização é necessariamente um processo no qual uma vida se dedica a funções e atividades que a tornam secundária: o trabalho, a casa, o trânsito, o carro, o relatório, o chefe, o imposto de renda, a conta de luz. São todos desígnios para o qual uma vida se ocupa, se dedica, se põe pronta todos os dias.

E mais que tudo isso, são desígnios para os quais uma vida se antecipa.

Conversar com indivíduos com transtornos de ansiedade costuma ser desconfortável, tendo você uma condição similar ou não. Na maioria das vezes, esta pessoa, ao descrever os processos e atividades mentais que geram crises de ansiedade, endereçará problemas que provavelmente todo ser humano urbanizado já se deparou com, e na maioria das vezes, não resolveu e deixou de lado. A exemplo: para onde estou levando minha vida? De onde vem os meus sentimentos? Por que sinto as coisas como as sinto? Por que as coisas são como elas são? Como darei conta de minhas obrigações e deveres e ter tempo para ser feliz? Como não sentir medo diante deste mundo? Será que eu na verdade não estou apenas fazendo isso ou aquilo para ser aceito? Eu sou, de fato, aceito? Meus amigos gostam de mim de fato? Eu gosto de mim de fato?
E, finalmente: quem sou eu?

Na descrição destes eventos mentais é que se responde à minha primeira pergunta: o perigo existe e é real, e é diretamente relacionado à maneira como vivemos nossas vidas.
Nós não estamos satisfeitos com como as coisas estão sendo, nós não estamos satisfeitos com trabalhar 1/3 do nosso dia, dormir mal o outro 1/3 e perder o resto no transporte público; nós não estamos felizes com dedicar todas as nossas leituras a textos super-saturados com termos incompreensíveis que não exercitam a criatividade, a imaginação e a ficção; nós não estamos satisfeitos com a fetichização e esvaziamento de todos os nossos significados e rituais coletivos, desde o uso de entorpecentes até o ato de ouvir uma música.

Ainda assim, muitos de nós conseguimos ignorar essa insatisfação e continuar a servir corporal e mentalmente atividades ulteriores a nós mesmos, preocupando-se sempre com qualquer outra coisa que não seja o grande elefante branco em nossa sala mental.

No entanto, como nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, há muito se fala sobre angústias virarem úlceras ou crises de pânico.
Disso resultam-se dois extremos, dois radicalismos caricatos mas dolorosamente reais: o primeiro deles é o psiquiatra que recebe o quase-adulto universitário num consultório (R$300,00 a consulta) e paulatinamente prescreve um ansiolítico e talvez um anti-depressivo. 
Este considera que a fundação das crises de ansiedade são, essencialmente, existencialismos demais.
O outro extremo, obviamente, é o quase-adulto universitário cujo ansiolítico é o beck no DCE que toma como objetivo de vida a dissolução do Capital.
Ambos falham em perceber duas realidades coexistentes: o primeiro negligencia os efeitos nefastos dos processos de urbanização, e o segundo se esforça com uma quantidade incalculável de verborragias a dissolver algo que permanecerá provavelmente até o esgotamento do planeta.
Para efeitos de crises de ansiedade, no entanto, o perigo continuará existindo.
Para os que tomarem remédios, as perguntas continuarão vindo, mas agora completamente rompidas de suas respostas emocionais, pois estas estarão suprimidas, e por hora isso será suficiente, até que o remédio pare de fazer efeito.
Para os que fumarem maconha, derreter ouvindo Tame Impala no sofá eventualmente parecerá insuficiente e as razões para estar vivo continuarão sendo escassas o suficiente para se enrolar mais um.
Como andar nesse meio?

A minha resposta, que continua profundamente pessoal e individual, consiste em perceber corações acelerados, respirações ofegantes, pensamentos acelerados e confusão mental como um sinal de consciência.
Sim, o meu coração está disparado.
Mas mais que isso, meu coração está batendo. 
Sim, o mundo parece que vai desaparecer a qualquer segundo. Mas ele não vai, e é justamente o fato de que tudo está tão presente que faz parecer que pode não estar.
Sim, os meus pensamentos e as minhas emoções são diversos e incontroláveis, e eu não posso prever nenhuma das minhas reações a nada, mas é apenas a percepção de que tais pensamentos e emoções existem — e são efêmeros — que cria a noção de que eles podem mudar ou desaparecer a qualquer segundo (se isso parece absurdo, pergunte a pessoas com transtornos de ansiedade quantas vezes elas já não acharam que iria enlouquecer — ou que já estavam loucas).

Crises de ansiedade, em verdade, são crises de sentido justamente por nos colocarem frente a frente com um Real sem nome, sem símbolo, sem lugar em nossa vida cotidiana — justamente porque o cotidiano nos faz ignorá-lo. 
O coração batendo, o mundo físico e material que nos circunda dolorosamente presente e aparentemente inconstante, a fragilidade de nossas relações, a necessidade de cultivar vínculos que estão sendo deixados de lado, tudo isso é o que nós nos esforçamos para não ver, porque precisamos seguir um script que não é nosso, e não é muitas vezes nem o nosso desejo e nem a nossa linguagem (ver: crianças tomando Ritalina por terem ‘distúrbios de atenção’).
Assim, a melhor maneira de responder a uma crise de ansiedade é não tentar ignorá-la, e pelo contrário, acolhê-la. 
É tomar consciência do que quer que seja que esta crise tenha sinalizado como importante ou urgente, é tomar consciência de que de fato há algo em nossos corpos, há algo em nossas veias, em nossas químicas, que sinaliza perigo. 
E integrar essa consciência às nossas rotinas, direcionando assim nossos esforços, nossos trabalhos, nossas horas diárias tão poucas e espremidas a coisas que dêem conta de nossas urgências, e não às urgências de outras existências. Às vezes, isso se combina: há trabalhos que dão prazer pelo simples fato de que levam a produções e produtos que criam sensos de realização, e no fundo todos nós sabemos o que de fato nos faria mais completos.
Por isso mesmo, a solução jamais é negar a rotina. É tornar rotina os processos diários de se realizar, de se fazer, e de se produzir juntamente com a produção de um trabalho.
Também não é jamais negar aos processos históricos a necessidade de que eles ainda existam: não é necessário abolir a urbanização, a vida em apartamentos ou o transporte público, é necessário torná-los úteis para outros fins, os fins que desejarmos, os fins que nossas consciências consideram importantes de fato, e que fariam nossas noites de sono mais tranquilas.
Mas que fins?
Essa é exatamente a mesma pergunta que “quem sou eu”, mas talvez justamente posicionada com as consciências necessárias: quem sou eu no mundo, qual é a importância das minhas ações, qual é a veracidade dos meus sentimentos, com quem divido minhas refeições, quais são as verdades da minha existência?
Pessoalmente, a única resposta que tenho a tudo isso é que com toda consciência advém uma nova ética, e dedicar-se a produzir uma vida com sentido, significado e verdade não é apenas uma questão de estética, é uma questão de vida ou morte.

No entanto, respostas para todas essas perguntas são diversas, e só podem ser dadas por quem se pergunta sobre elas, se debruça sobre elas, e se questionou de verdade sobre o que considera importante, relevante, e urgente sobre o fato de que sim, existimos, e estamos sujeitos a não existir mais a qualquer segundo.