Prazer, Culpa Cristã

Quando eu nasci eu não chorei porque naturalmente todos nós fazemos isso. Chorei porque nasci com o peso do mundo em minhas costas. Chorei porque, ao ser arrancado do útero da minha mãe, eu já sabia no alto da minha sapiência de um cérebro pouco desenvolvido que eu trabalharia dia após dia na única possibilidade de fazê-la feliz. Chorei porque eu também sabia que falharia miseravelmente na única coisa que ela havia desejado. Não deveria ter chorado — deveria, sim, permanecer irresoluto na tentativa de não verter lágrimas, guardando uma por uma, obliterando meus ductos lacrimais malformados de produzir secreção, estocando-as para a posterioridade. Eu precisaria de cada uma delas no futuro.

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Então reconheci diante de ti o meu pecado e não encobri as minhas culpas. Eu não disse: “Confessarei as minhas transgressões”, ao Senhor, e tu perdoaste a culpa do meu pecado”. Salmos 32:5.

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Por onde devo começar? Pelo início? Tipo, literalmente exatamente e mais precisamente pelo início? Pelo nascimento ou antes dele? Fazer uma espécie de autoetnografia sem delimitar espaço-tempo? Perscrutar e ir a fundo nos motivos pelos quais eu sou quem eu sou hoje e tentar achar uma razão no passado para entender o que ou quem me constituiu? Toda história tem um início, meio e fim, certo? Vocês precisam disso, narrativamente falando, para se sentirem minimamente conectados a minha história. Vocês precisam de um lampejo de excitação, uma pitada de drama, um pouco de romance, um clímax que prenda a atenção e se possível uma conclusão ao menos provisória que seja. Mas a minha história não é só minha. Ela é só um relato de alguém que passou — e passa — pelo mesmo que milhares de outras pessoas, em menor ou maior grau de comparação, em menor ou maior escala. Ela é só uma história de vida de alguém que mal passou da casa dos 20. Ela é uma história daqueles que também circunscrevem a minha vida. É a história dos meus pais, dos meus amigos, do meu namorado. É uma história que chacoalha as fronteiras entre o que dizem ser o certo e o que dizem ser o errado. No frigir dos ovos, é só isso: uma história.

Eu não sei nada sobre meus antepassados. Não sei muito sobre o sangue que corre em minhas veias, sobre as histórias daqueles que me antecedem, não tenho noção de suas dores, frustrações, medos e paixões. A verdade é que sei muito pouco sobre mim mesmo; sei pouco de mim porque nunca me foi permitido me conhecer de verdade (sem trocadilhos com masturbação — embora essa tenha sido a coisa que mais me perturbou durante a puberdade). Talvez seja justamente por não saber de minha história e dos meus ancestrais que eu seja tão afeito a ouvir as histórias dos outros. Começou na igreja, quando eu atentamente escutava os testemunhos mais abrasivos de pessoas que condenadas ao fogo eterno, conseguiam surpreendentemente mudar a sua rota e tornarem-se verdadeiros discípulos. Depois passei a ouvir melhor os meus amigos, destrinchando cada momento de suas autobiografias, moendo-as e engolindo-as em grandes blocos. Eu era um antropofágico das histórias de vida dos outros. Me deliciava em contemplar as histórias de quem vivenciou os mais diversos impropérios e os mais banais dos momentos ordinários. Paradoxalmente, pouco falava sobre mim. Eu muito escutava e pouco dava retorno. Eu não conseguia. Eu não conseguia e muito menos poderia falar.

Eu não poderia falar sobre mim porque a minha vida foi em grande parte uma ficção. Eu fui uma criança aterrorizada com a possibilidade de ser deixado no mundo após o arrebatamento da igreja evangélica. Eu fui um adolescente que pouco vivenciou as paixões inerentes a essa fase da vida porque enquanto cristão, jamais poderia me destinar aos desejos carnais que estavam incutidos a destina-lo a um outro garoto. Eu fui um perfeito personagem por anos a fio, contando uma história mentirosa e atuando perfeitamente bem — ou pelo menos tentando.

Devo assumir que, antes de tudo, eu era um prodígio como cristão. Durante a infância eu me sentia realizado em vestir ternos cor de vinho com uma gravata listrada e uma caneta grudada entre os meus botões. Segurava uma bíblia preta com capa de couro embaixo do meu braço e desfilava pelos corredores da Igreja Universal arrancando suspiros das senhorinhas que me chamavam de “irmão” e que achavam aquilo a coisa mais amável possível. Eu me sentia pertencente a um mundo. Os homens, por outro lado, olhavam com um olhar de suspeição, como quem soubessem que assim como eles, eu era uma ficção — uma perfeita e bem atuada ficção, mas ainda uma ficção. Eu decorei todos os hinos mais conhecidos de um CD com as músicas favoritas do Bispo Macedo e repetia como um papagaio que aprende novas palavras; não sabia exatamente o que significava “pare de sofrer agora! Jesus tem para você toda a vitória. Agora só depende de você. Ficar sofrendo ou vencer!”. Eu tinha apenas seis anos de idade e sofrimento não era bem uma palavra do meu vocabulário e eu não definitivamente não saberia defini-la se fosse questionado. Sofrimento talvez tenha sido descobrir pela minha professora de Escola Dominical que cães não iriam para o céu. Choque. Minha primeira decepção com a religião. [Como assim Bidu, o meu melhor amigo, não iria compartilhar as delícias de um lugar com ruas de ouro e de cristal?] Sofrimento passou a ser isso: um céu sem animais, sem vida e muito asséptico. Sofrimento também passou a designar o fato de minha melhor amiga ser condenada ao fogo eterno do inferno por ser católica. Ela adorava o mesmo Deus que eu, mas por dividir sua afeição a Maria, figura materna presente nos ritos católicos, seria prontamente destinada ao sofrimento eterno. O céu não teria cães e nem amigos. Passei a imaginar um céu solitário, até me dar conta que bem, eu também não iria para lá.

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Eu ainda tenho uma imagem muito forte dos ritos dominicais que presenciei durante boa parte da minha infância. Um pastor com voz solene que alterava o seu tom a medida que alterava o seu discurso, como num convite a ser fisgado e manipulado de maneira vertiginosa. Numa espécie de queijo-com-goiabada das igrejas, esses pastores geralmente combinavam uma doçura inerente ao seu papel enquanto salvador de ovelhas longe do aprisco com uma postura firme e asséptica, na melhor definição da palavra. Manter limpo. Puro. Santo. O altar permanecia como uma separação entre aquele que muito sabia e a mim, total ignorância. O altar passou a ser um símbolo de realização, de o que eu não só deveria mas queria ser. Eu queria conter em mim toda a sapiência do mundo como quem comeu do fruto proibido, queria fazer as pessoas melhores, queria confortá-las nos momentos de sombras e de dor. Queria ser doce como uma mãe, como Maria!, queria ser também Fogo Consumidor, apontando o que deveria ser mudado. Eu queria isso aos seis. Aos seis. Eu não queria ser um super-herói, um astronauta, um caçador de Pokémon. Eu queria ser pastor.

Para isso, tive que me desfazer de quase tudo que hoje me faz um tantinho de falta. Eu não poderia me contaminar com “o mundo” — separação muito certeira entre aquilo que a igreja É e aquilo que ela não pode SER. O mundo é basicamente — e literalmente, se formos contabilizar — tudo a nossa volta, é um enunciado poderosíssimo de segregação e de delimitar o santo do incauto. Aquilo que separa os “salvos e remidos pelo sangue de Jesus” da mera “criatura”. Filmes da Disney? Demoníacos, baseados nos mais diversos meios de bruxaria e feitiçaria com personagens que deturpam a imagem que Deus espera de nós. Músicas da Xuxa? Jamais. De trás para a frente, então, é pedir para ser amaldiçoado. Minha mãe chegou ao ponto de queimar a boneca da minha irmã, já que o pastor-de-terno-cor-de-vinho e voz solene havia alertado a sua igreja sobre os perigos de um brinquedo de plástico na vida das pobres crianças. Cresci num ambiente extremamente opressor e tenho pouquíssimas lembranças dessa época. Tenho uma inveja avassaladora de quem pôde vivenciar tudo o que sua idade pedia: assistir compulsivamente Power Rangers (“Rita Repulsa é um demônio!”), Dragon Ball (“Esse não precisa nem disfarçar, olha o nome do personagem! Mr. SATÃ!!!”), os mais diversos variados desenhos da Disney — que nem vou me atrever a listar os contras de cada um deles — e músicas da Xuxa. Por outro lado, me contentava com aqueles materiais permitidos, aqueles pouquíssimos artefatos que não constavam naquela espécie de Index Librorum Prohibitorum atualizada da igreja evangélica: uns parcos dvd’s do Smilinguido com histórias edificantes, umas míseras opções de músicas infantis entoadas por cantoras evangélicas com temática cristã — e que por vezes nos assusta com a violência simbólica que é cantar para uma criança que “quem pecar vai morrer” (!!!) — E uns pouquíssimos filmes que não tinham um ou outro problema de ordem mundana. Lembro de ter chorado copiosamente em meio a um culto em que um pastor demonizava os Teletubbies e dizia com voz agressiva o quão absurdo era os fiéis permitirem que seus filhos assistissem um programa em que um boneco afeminado usava uma bolsa de mulher. Absurdo!

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Peço desculpas por abruptamente voltar mais ainda ao meu passado, mas agora é a hora que preciso falar sobre não quem eu sou, mas quem fui programado a ser. Me estilhaço em meio a esse material bruto, áspero e que sub-repticiamente me faz compreender esse amontoado de culpa cristã que sou hoje. Principalmente de quem eu fui — embora o que eu fui e o que hoje sou não é um produto acabado e determinado. Não porque o sujeito esteja sempre em constante mudança, mas porque esses dois eus foram tão violentamente construídos e subalternizados que não posso dizer com propriedade que, vejam só, eu sou o que eu sou. Eu sou o que me fizeram ser. Eu sou aquilo que fui designado desde o ventre da minha mãe. Eu sou a soma das expectativas de quem me cerca. O que eu sou hoje não chega nem perto disso, mas não quer dizer que eu possa ser quem eu sou. Eu não sou: eu, na melhor das hipóteses, estou.

Há uma esquete muito engraçada em “O Sentido da Vida”, um dos filmes realizados pelo grupo inglês de comédia Monty Python em que uma mulher, após dar à luz, pergunta ao médico o sexo de seu filho. “É menino ou menina?” Prontamente ele responde: “Não acha que é meio cedo para impor papeis de gênero a pobre criança?”.

Ouch.

Mesmo vindo de uma obra lá dos anos 80, isso nos incomoda até — e principalmente — hoje, sujeitos pós-modernos que somos. Queria muito dizer que não, essa não é a minha história!, mas a verdade é que esquete e história não se diferem muito. Se eu pudesse achar um pequeno desvio entre uma e outra, é que os desígnios de quem eu sou — ou pelo menos deveria ser — começou bem antes do meu nascimento. Eu ainda estava lá, no útero da minha mãe, quando os discursos começaram a ser escritos sobre mim. Eles incidiam de forma vigorosa, sorrateira e violenta. Eu ainda nem havia dado o primeiro suspiro de vida quando já estava coagido a viver de uma maneira que me foi tão prontamente imposta.

Minha mãe naquele momento estava radiante com a possibilidade de ter um filho depois de tantos anos. Eu seria o primeiro de sua cria a ter uma oportunidade incrível e que ela infelizmente não havia possibilitado aos meus irmãos: crescer na igreja. Que maravilha! Finalmente ela poderia realizar seu sonho. Fui constituído como o “filho da promessa”, primeiro enunciado sobre um corpo que mal havia sido formado e já tinha expectativas de como ele seria. Eu, enquanto feto, estava presente em rodas de orações, cultos de avivamento, comissões de visita, círculos de orações, encontros de mulheres; eu era o vislumbre de um futuro promissor, um novo mundo de realizações, uma imagem quase messiânica de um filho que viria para mudar a vida de uma mulher com inúmeros fracassos pessoais.

É um menino!”, eles disseram. Nesse enunciado, muitas coisas que não são ditas estão ali, implícitas, obstinadas. Elas vão se somando a outros enunciados a depender de outros fatores que envolvem a sua história — e no meu caso, eu o chamo de C-Factor. O fator Cristão. “Vai ser — obrigatoriamente — hétero!”, “Que maravilha, um pastor!”, “Vai se casar com uma varoa!”, “Vai ser um pregador de renome!” “Eu profetizo que esse vai ser um levita da casa de Deus!”. É difícil apontar com precisão em quantas coisas eu falhei no discurso de “ser menino” que confunde-se ao “ser menino cristão”. Mas sei com convicção que falhei em absolutamente tudo.

Com poucos dias de vida minha mãe me levou a igreja para um ritual que sublima a necessidade dos evangélicos em batizar as crianças — em teoria, as crianças não nascem com a herança do pecado como acreditam os católicos (e me perdoem os católicos se eu estou falando bobagem, mas foi assim que fui ensinado por anos a fio). Por outro lado, a “apresentação à igreja” é um momento indispensável na vida de todo e qualquer recém-nascido. E lá estava eu, criança ranhenta e um amontoado de fraldas descartáveis e choro, sendo apresentado aos meus futuros “irmãos em Cristo”. Foi a minha primeira vez no altar, lugar do qual esperava-se que um dia eu finalmente ocupasse na posição de um pastor. Lugar do qual na juventude me sentia pleno enquanto cantava músicas gospel e fugia da obrigação de ter que “pregar” — e essa foi a minha primeira frustração quanto aos papeis de gênero, uma vez que na igreja obrigatoriamente homens pregam, mulheres cantam. Há uma fotografia já bem gasta registrando o momento dessa apresentação; um homem com terno cor de vinho (sempre essa cor) me impulsiona para o ar de uma forma bem semelhante ao que Rafiki faz com Simba em O Rei Leão (e que Deus me livre desse pastor ler essa comparação). Minha mãe olha atentamente e seus olhos são quase como dois diamantes de tanto brilho. Era uma realização de um sonho e de um projeto que ela havia planejado por tantos anos.

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Sabe quando você é criança e está passeando no shopping com seus pais no dia do Natal e em meio aquele caos você se desgruda das mãos deles por um mísero segundo e se perde no mar de pessoas desconhecidas? Já tiveram essa sensação de perda irreparável, de desespero e angústia? Imagine viver isso todos os dias da sua vida: essa é a sensação de um garoto gay que vive em uma família cristã. O medo de a qualquer momento sua família sumir pelos ares num momento que os evangélicos denominam de “arrebatamento”. Eu preciso descrever exatamente o que seria isso porque ainda me assusto quando as pessoas ao meu redor não sabem do que se trata (claro, eu só vivia entre os meus pares que sabem descrever com bastante acurácia o que seria esse evento). Arrebatamento é o momento quando e somente os salvos (todos aqueles santificados que não negaram a Cristo e se permaneceram imaculados nesse mundo de perdição) serão arrebatados aos céus enquanto o mundo vivencia todo tipo de agonia. O Anticristo será o governador do mundo até os últimos dias. Seremos também obrigados a implantar um chip com a marca da Besta se quisermos fazer coisas banais do tipo beber água ou comer (!). Descrevendo assim parece a sinopse de um filme apocalíptico com um roteiro absurdo, mas é exatamente essa a teoria que os crentes têm do fim dos tempos. Como o arrebatamento convenientemente não tem nem dia e nem hora, os cristãos passam a vida esperando por isso — e obviamente, tentando manter-se o mais puro possível, para não serem deixados aqui quando de fato acontecer.

É exatamente assim que funciona a Culpa Cristã. Prazer. Smack, smack. Ela te corroí diariamente sem que você ao menos perceba. Você acha que é só um ônus de se manter limpo, de se manter fiel, de se manter alerta. Afinal de contas, você não quer ficar de fora dessa, não é mesmo? Então mantenha-se puro e santo para que não seja condenado. É uma forma de controle muito inteligente da parte dos cristãos. Ora, nós sabemos exatamente o que se passa enquanto estamos na igreja, um vigiando o outro. Como no conforto das nossas casas é mais difícil que esse outro saiba o que estamos fazendo de errado, o controle tem que vir de nós mesmos. É uma exaustiva autovigilância que deteriora completamente nossa noção do certo e do errado. Passamos a nos inspecionar de forma ardilosa e cruel.

Com isso, o desejo que começa a aparecer ainda na infância é alvo de patologização por nós mesmos, se ele destoa do que é dito como “normal”. Nem conseguimos entender o que é “gostar” ou “sentir atração”, mas já sabemos que é errado, porque assim a bíblia disse. Posteriormente, toda e qualquer masturbação na puberdade se torna muito mais culpa do que prazer. Afinal de contas, se o arrebatamento acontecesse naquele exato momento, você ficaria. E como nossos corpos em puberdade são bombas de hormônios prestes a explodir, nossos dias são uma penumbra escura de medo e excitação; cada orgasmo era uma passagem perdida aos céus. Nos distanciamos cada vez mais da eternidade.

Lá pelos 17 anos eu enfim larguei a igreja. Achei que viveria plenamente com a minha liberdade até perceber que a Culpa Cristã, ahhhh, a Culpa Cristã… ela me acompanharia até os meus últimos dias. Ela não vai me largar tão facilmente porque a igreja não foi uma escolha para mim e nem me foi oferecida como uma opção. Ela foi enfiada em mim num ritual quase antropofágico, eu degluti cada um de seus rituais, de suas crenças, de seus certos-e-errados. Eu não consigo mais cuspi-las fora. Elas estão entranhadas em meus ossos, em minhas carnes, em meu sangue. A igreja faz parte de mim mesmo eu não fazendo mais parte dela; a igreja faz parte do meu corpo mesmo eu não fazendo mais parte do corpo da igreja. A culpa cristã vai estar comigo a cada momento em que eu pensar “e se eles estiverem realmente certos?”. Porque embora eu acredite piamente que não, eles não estão certos, sempre haverá um “e se?” E nesse “e se?” está o peso de toda a minha existência. Porque antes de nascer, ela, a igreja, já estava lá, olhando pra mim, aguardando meu nascimento e ansiando pelo meu corpo. E ela sempre estará à espera do meu retorno, quer eu queira, quer não.

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“Antes que eu te formasse no ventre, eu te conheci, e antes que saísses da madre, eu te santifiquei; às nações te dei por profeta” Jeremias, 1:5

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[Fun Fact: Por muito tempo eu não consegui me apaixonar por rapazes. Tive diversas paixonites por meninas, embora não conseguisse sentir nenhum pingo de atração por elas. Enquanto criança sentia paixões avassaladoras, inexplicáveis. Na adolescência até engatei um namoro que durou uns bons anos com uma garota. E eu poderia jurar que era apaixonado por todas elas. Nunca senti vontade alguma de ir além; mas dizia ser loucamente apaixonado. Aos rapazes, releguei só o desejo incompreendido e a vontade carnal e pecaminosa. Enquanto estive na igreja nunca consegui amar um homem. Para mim isso era o que me distanciava da imagem de um gay. Enquanto não me apaixonasse, estava tudo certo. Eu poderia me livrar desses meus demônios interiores.

Uns dias atrás me lembrei disso enquanto estava com o meu namorado em um momento bem banal. Simplesmente surgiu essa lembrança, assim do nada, como tantas outras vem e vão. Eu sorri. Ele nem deve ter percebido esse sorriso e eu não falei nada. Apenas sorri. Olhei para trás e em um milésimo de segundo percebi o tanto que eu havia amadurecido. Tudo o que eu havia superado. A culpa cristã iria me acompanhar até sabe-se-lá-deus quando, mas enquanto eu estivesse ao lado dele, o seu amor seria o divino em mim].