Quanto tempo a falta?
Tenho protelado esses versos
como só bem sei fazer
Tenho passado batido,
não tenho batido na porta
Tenho vivido do lado de fora
(você sabe, a casa anda toda bagunçada,
entrar é saber que vai ter luta)
Como arquiteto que não sou,
construí pilares em lares pífios
Trouxe para dentro de mim,
como criança tola,
vestes insubstituíveis de um ser abstrato
E hoje as roupas não cabem,
E abstração é odiosa
(me cerquei de lobos, fui o algoz de mim mesmo)
Abandonar a tudo e a todos,
tirar férias de mim,
transformar-me até não mais me reconhecer
Dormir, acordar,
dormir e torcer para não acordar
Preencher o silêncio com o ruído,
preencher o sentido com o anúncio,
anunciar a todos a não-existência,
a não-mais-resistência
ao prenúncio
(da falência)
Despido de mim,
deito-me nu junto ao breu infinito
há tanto que não me vejo em detalhes…
e os detalhes são tantos que não cabem nos mares,
e os mares são vastos e carregam espinhos,
e os espinhos são frios e cheios de dores
e as dores são minhas enquanto resta-me o tempo
Minto muito, choro sempre
tento tudo, fico mudo,
de repente
Quanto tempo?