Quanto tempo a falta?

Ramon Souza
Nov 5 · 1 min read

Tenho protelado esses versos
como só bem sei fazer
Tenho passado batido,
não tenho batido na porta
Tenho vivido do lado de fora

(você sabe, a casa anda toda bagunçada,
entrar é saber que vai ter luta)

Como arquiteto que não sou,
construí pilares em lares pífios
Trouxe para dentro de mim,
como criança tola,
vestes insubstituíveis de um ser abstrato
E hoje as roupas não cabem,
E abstração é odiosa

(me cerquei de lobos, fui o algoz de mim mesmo)

Abandonar a tudo e a todos,
tirar férias de mim,
transformar-me até não mais me reconhecer
Dormir, acordar,
dormir e torcer para não acordar
Preencher o silêncio com o ruído,
preencher o sentido com o anúncio,
anunciar a todos a não-existência,
a não-mais-resistência
ao prenúncio
(da falência)

Despido de mim,
deito-me nu junto ao breu infinito
há tanto que não me vejo em detalhes…
e os detalhes são tantos que não cabem nos mares,
e os mares são vastos e carregam espinhos,
e os espinhos são frios e cheios de dores

e as dores são minhas enquanto resta-me o tempo

Minto muito, choro sempre
tento tudo, fico mudo,
de repente
Quanto tempo?

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade