Arte de grátis

Não vou ilustrar esse post, porque não vale a pena.

Ontem eu saí do trabalho um pouco abatido.
Percebi que eu não quero mais fazer isso. Estou começando a odiar sinceramente qualquer trabalho relacionado ao Corel Draw ou, para usar o termo “técnico”: Tô cansado de fazer “artes” (que de arte não tem nada).
Quando meu superior veio conversar comigo — há umas três semanas — para me dizer que os clientes não estavam aprovando minhas “artes”, que meus trabalhos eram muito simples e que eu precisava “trabalhar” minha inspiração e motivação porque o “designer” da tarde tinha que alterar tudo o que eu fazia de manhã a pedido dos clientes, comecei a ter o hábito de verificar as alterações que ele fazia diariamente. Para minha surpresa, a técnica dele para conseguir a aprovação dos clientes era baixar imagens de personagens do filme Frozen (que eu nunca assisti) e colocar em algum lugar da “arte” e pegar uma fotografia bem poluída para usar de plano de fundo para o texto.
Como nunca, em nenhum dos lugares que trabalhei a função do “designer” é realmente fazer design, percebi que era hora de deixar a legibilidade, a teoria das cores e a harmonia visual de lado e baixar o máximo de figurinhas piratas da internet para usar em meus trabalhos.
Não deu certo.
Depois de três semanas tentando enfeitar ao máximo tudo o que fazia, ainda assim não estava conseguindo a aprovação dos clientes.
Não sou mais um funcionário lucrativo — numa empresa que oferece “arte de grátis” — e ainda não consegui “trabalhar” minha inspiração e motivação como fui aconselhado, apesar de várias vezes ter a ilusão de que eu estava melhorando.
É difícil conseguir o que me cobram. Num meio onde tudo é pessoal, onde eu preciso agradar o gosto da minha chefe para convencê-la a enviar minhas propostas para os clientes, e onde eu tenho que agradar o gosto do cliente nos mais diversos níveis em que se apresenta: a pessoa que vai fazer o pedido, o superior desta, o dono da empresa, sua esposa e sua filha de treze anos, é impossível para mim ter meus projetos aprovados de primeira, mas aparentemente colocar personagens de Frozen numa fachada de restaurante e na de um hotel faria com que eu me tornasse o funcionário nº 1 dessa empresa.
Ao que tudo indica, o que os clientes querem é o layout mais ilegível e cheio de elementos possível. E você pensa: “Oras, então faça isso!” e eu fiz, ou pelo menos tentei, mas acredito que a estética é algo subjetivo e pessoal, e aliás, é para isso que existe o design gráfico, para que a empresa se comunique de forma eficiente com o seu público e não com o ego do proprietário, é por essa razão que é tão importante o embasamento teórico e a defesa do trabalho, coisas que nunca fiz fora da faculdade — e que nunca vou fazer, porque assim que for demitido desse emprego pretendo me esforçar bastante para esquecer que passei quatro anos de minha vida estudando e aprendendo sobre uma área inútil, que só existe na teoria.
Os clientes não querem embasamento teórico nem fontes legíveis, eles querem “arte de grátis”.

PS: Se alguém quiser comprar uma alma, a minha tá a venda.

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