Os celestiais


Eu caminhava pela movimentada Praça da República para chegar ao metrô, em meio à massa humana, à pressa, à secura do ar e ao mar de concreto que definem o centro de São Paulo.

Ao meu lado seguia um menino com seus 5 anos, de mão dada à mãe. Sua pele era de uma brancura quase transparente e suas madeixas loiras brilhavam ao sol. Olhos azuis esbugalhados contemplavam o espetáculo da rua com curiosidade e admiração. Qualquer detalhe era de grande interesse e seu rosto estava em movimento constante.

Surge então, na direção oposta, um homem muito negro que aparentava ter 2 metros de altura; vestia uma longa túnica bege; sua roupa possuía alguns adornos bem delicados, de cor levemente mais clara, nas marcas da costura. Carregava um livro de capa escura, que ora lia, ora desviava o olhar para evitar as pessoas no caminho. Vinha imponente, com um semblante amistoso e sua constituição o deslocava das outras pessoas. Era como um espectro de leveza e paz.

Observei o menino. Seus olhos quase saltaram com aquela aparição; seu lábio inferior pendeu. Enquanto o homem passava entre nós, o menino fitou-o longamente, virando seu pescoço para acompanhá-lo no máximo que a trajetória de sua mãe permitia.

Ao perder o homem de vista, virou-se para mãe com estupefação e falou com a sensível emoção presente na voz de uma criança: “Mãe! Um anjo!”