Sobre família, álcool e identidade.

Já estava na terceira taça de vinho. Minhas bochechas rosadas entregando que eu estava levemente alcoolizada. Meu pai dava um discurso sobre como queria que eu fosse para a igreja. E eu relutante. A verdade é que minha família inteira é religiosa. E tem eu. Que tenho minha fé. Mas sempre fui curiosa. Nunca aceitei as coisas sem questionar. Que aos 14 me vi pela primeira vez sentindo atração por uma garota. E agora me aceito como bissexual. Simplesmente não consigo estar em um lugar onde sei que as pessoas que estão ali não me aceitariam como sou. Mas tenho preguiça de explicar isso. E medo. Então só falo que estou cansada e volto a beber meu vinho. Digo que vou numa próxima vez. Eu fico pensando em como sempre fui a esquisita da família. Com as minhas camisetas de bandas, meu all star, minhas músicas do demônio como meu pai costumava chamar, e meu estranho gosto por ficar sozinha. Antes deles saírem para a igreja consigo ver a preocupação nos olhos deles. Desde que eu terminei o noivado e fui morar sozinha comecei a beber mais e frequentar mais o barzinho de rock da cidade. A verdade é que eu sempre bebi. Só que eles nunca tinham visto. Sempre acabo escondendo deles quem eu sou e como sou. E a última vez perdi o controle e eles ficaram preocupados pensando que tinha alguma correlação com o fim do relacionamento. A verdade é que eu não poderia estar melhor. Talvez eu realmente esteja um pouco desvirtuada. Mas nunca me senti tão eu mesma como agora.