Natália Ramos
Aug 31, 2018 · 2 min read

Uma breve história sobre intensidade e entregas.

Terceiro ano do ensino médio. Depois de uma vida escolar inteira escondida na biblioteca deixei de lado a timidez, o medo, ou qualquer coisa que me impedia de conhecer as pessoas ou de permiti-las me conhecer. Com isso vieram muitas coisas. Participar da comissão de formatura. Fiz alguns bons amigos. Um pouco de popularidade. Alguns garotos interessados em mim. Primeiro namorado, e depois de três meses primeiro término. Vestibular. Ano novo. Aprovação, Outro namoro. Faculdade. Sair de casa, morar em uma cidade onde eu não conhecia ninguém. O namoro acabou sendo mais a distância. Outra faculdade, outro curso, outra cidade. Mais um término. Estudar, estudar, estudar. Primeiro porre. Outro namorado. Fomos morar juntos. Noivamos, viajamos, curtimos, amamos. Quatro anos e meio se passaram e então outro término. As coisas foram bem intensas desde o dia que eu resolvi me permitir. Me permiti e me descobri como a própria definição de intensidade. Apesar de ser sempre muito racional — mas nem sempre — . Senti muito, ri muito, chorei horrores, me entreguei demais, amei demais, sonhei demais, planejei demais, e no meio do caminho me perdi. Transbordei demais para os outros até que não tinha mais de mim dentro de mim. Tomei um gole do chá de hortelã e olhei a chuva caindo lá fora. A vizinha de cima tocando algumas notas no piano. O som dos carros passando pela avenida. O cheiro de chuva misturado com o gosto amargo de algumas lembranças. E percebi que tudo bem ser intensidade, mas agora eu precisava usá-la para me reconstruir. E pela primeira vez em muito tempo eu não queria me entregar para ninguém. Só queria me pertencer.

    Natália Ramos

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    Expondo para o mundo — ou para meia dúzia de pessoas — a bagunça diária de sentimentos que sou.