Ética para o pós-humano

A certeza otimista e reconfortante de que a expansão da tecnologia sempre trará benefícios para a humanidade não existe mais.

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A possibilidade e a ideia de um futuro pós-humano e a noção de ética como entendemos trazem consigo problemas filosóficos que carecem de reflexão.

Popularmente o que sabemos sobre a inteligência artificial é o que assistimos em filmes ou lemos em livros e sites de tecnologia. E a questão que sempre é colocada para refletirmos e dialogarmos é como a evolução tecnológica via inteligência artificial influenciará e transformará nossas vidas e o mundo?

Segundo o Professor João de Fernandes Teixeira, doutor com grande experiência na área de Filosofia e que atua principalmente nos seguintes temas relacionados à filosofia da mente, filosofia da psicologia e filosofia da neurociência e da inteligência artificial,

As novas hipertecnologias, como a inteligência artificial, a nanotecnologia e a biotecnologia, prometem ajudar na superação de vários problemas que podem comprometer a sobrevivência da espécie humana nas próximas décadas, como o aquecimento global, as novas doenças que se originam do aumento da longevidade e a qualidade da alimentação num planeta superpovoado.

Os frutos de inteligência artificial que temos até agora são relativamente inofensivos, como um computador que vence humanos em jogos, assistentes pessoais nos smartphones e carros que se dirigem sozinhos. Mas, já são desenvolvidos e dados passos não tão seguros, como os na direção militar, com armas que selecionam e eliminam inimigos de maneira autônoma — iniciativa que inclusive já foi freada pela ONU. Para Stephen Hawking, físico teórico e cosmólogo britânico e um dos mais consagrados cientistas da atualidade, podemos imaginar essa tecnologia ficando mais inteligente que mercados financeiros, inventando mais que pesquisadores humanos, manipulando líderes e criando armas que sequer entendemos, e enquanto o impacto da inteligência artificial a curto prazo depende de quem a controla, a longo prazo dependerá se ela poderá ser controlada.

O que pode nos salvar pode também nos aniquilar, pois a instauração dessas hipertecnologias envolve riscos sobre os quais não temos pleno controle.

A certeza otimista e reconfortante de que a expansão da tecnologia sempre trará benefícios para a humanidade não existe mais.

O sonho da replicação do ser humano será atingido nas próximas décadas pela inteligência artificial, que, unida à biotecnologia, produzirá seres artificiais conscientes, mesmo sem poder compreender ainda a natureza da consciência humana.

Robôs associados a cérebros humanos abrirão caminho para a inteligência artificial biológica, um novo programa de pesquisa para o qual convergem a robótica e a neurociência.

Não sabemos como conviveremos com a presença dessas novas criaturas no século XXI. Sua existência trará modificações profundas na antropologia e na filosofia, especialmente na discussão de questões éticas que se tornaram um problema mais urgente do que a ameaça de uma guerra nuclear ou do aquecimento global.

A criação de máquinas inteligentes e poderosas como os robôs da ficção científica levanta a questão sobre a sobrevivência da humanidade e como evitaremos que essas criaturas se voltem contra os seus criadores?

O fenômeno ético é geralmente associado ao humano, contudo, evidências de investigação da Psicologia evolutiva, indicam que o comportamento ético é uma disposição que se pode retraçar e reconduzir de forma continuar até alguns matizes do comportamento básico animal.

Para termos uma perspectiva mais abrangente sobre a ética é essencial um olhar sobre sua relativa complexidade ao fenômeno da vida com todas as suas implicações.

Refletirmos e dialogramos a questão de uma ética do futuro e dos modelos desta para uma era do pós-humano nos obriga primordialmente a uma crítica quanto ao lugar privilegiado que o humano tem tido nas relações com esse mundo.

Mas, será o momento de começarmos a pensar na ética para o pós humano e robôs? E é possível elaborarmos uma Ética para o futuro e a tecnologia à luz da filosofia, hoje?

Isaac Asimov, professor de bioquímica na Boston Universidade nos Estados Unidos e um dos maiores escritores de ficção científica da história humana, conseguiu uma boa solução para esse dilema ao estabelecer as célebres Três Leis da Robótica:

  1. Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano seja ferido.
  2. Um robô deve obedecer ordens de seres humanos, exceto as que entrem em conflito com a primeira lei.
  3. Um robô deve proteger a si mesmo, exceto se isso entrar em conflito com a primeira e/ou com a segunda lei.

Nessas três leis da robótica percebemos que a vida, a existência e a evolução tecnológica devem ser observadas como uma questão política.

Recentemente, o termo roboética passou a ser utilizado para designar a ética específica que deve reger as relações entre humanos e máquinas inteligentes. O termo foi criado pelo cientista italiano Gianmarco Veruggio que, em 2002, era líder do departamento de robótica do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália.

A Coréia do Sul, num projeto liderado pelo Ministério do Comércio, decidiu elaborar um código de ética para as máquinas inspiradas nas três leis da robótica propostas por Isaac Asimov.

Em 2004, foi redigida e aprovada a Declaração Mundial dos direitos dos robôs em Fukuoka, no Japão, estabelecendo os direitos e os deveres recíprocos que deve existir entre humanos e robôs.

Entretanto, mesmo diante dessas iniciativas, não deixamos de indagar se um dia será possível programar robôs com as leis semelhantes às de Asimov ou termos seres pós humanos éticos.

As discussões devem continuar afim de que previamente tenhamos nos preparado para o futuro tão próximo, pois, nós chegamos numa encruzilhada tecnológica onde há muitas questões emergentes referentes à primazia da tecnologia.

Bibliografia:

TEIXEIRA, João de Fernandes. O cérebro e o robô : inteligência artificial, biotecnologia e a nova ética / 1. ed. São Paulo: Paulus, 2015.

ASIMOV, Isaac. Eu robô. Aleph, 2014