Uma crítica à pressa contemporânea
É um grafite das ruas de Paris, mas poderia ser confundido com a situação de cada um de nós. Em uma crítica à forma como levamos nossa vida, os desenhos pretos e brancos e tridimensionais de Levalet ficam expostos em um simples muro com cor semelhante à areia. As ilustrações mostram ações típicas do nosso dia a dia contemporâneo, às quais fazemos automaticamente, quase como robôs controlados por outras pessoas.

Um homem penteia seus escuros fios na primeira figura da La course olhada pelo lado esquerdo. Além de estar com a escova de cabelos em uma das mãos, ele leva uma lâmina de barbear ao lado direito do rosto. Sua camisa branca se sobpõe à gravata e se sobrepõe desalinhadamente à calça — ambas ausentes de cores. As condições da camisa dão a impressão de desalinho,de bagunça. E é isso mesmo que esta imagem quer representar: a confusão de um despertar apressado. É comum, em nossa vida agitada, que não tenhamos tempo de realizar tarefas projetando o futuro, retomando o passado, mas sempre alheios ao presente. A pressa passa a fazer parte da nossa rotina, tornando-se normal termos que começar o dia realizando multitarefas para nos arrumarmos a tempo do longo dia que há por vir.
Logo após o amanhecer corrido, o homem aparece segurando um bloco de anotações e falando ao telefone. Seus olhos fechados e linhas faciais demarcadas — como se expressasse raiva ou insatisfação — relacionam-se com a insatisfação profissional da grande maioria dos jovens-adultos na atualidade. O sucesso é cobrado desde muito cedo e de maneira distorcida. O triunfo virou sinônimo de dinheiro e riqueza, e a felicidade ficou em segundo plano. Quantas oportunidades são deixadas de lado ao limitarmos nosso futuro a planejamentos? Tem que se ter em mente que os rascunhos podem ser modificados a qualquer momento e a qualquer sinal de infelicidade. Ficar em uma faculdade só para manter as aparências, ficar em um emprego para talvez um dia ser rico… Será que deveríamos nos submeter a ganhar dinheiro a qualquer custo? Gritamos por todos os cantos que somos livres, mas o que é a liberdade real? Creio que ser subalterno aos ditadores de regras sociais não seja a verdadeira independência. O essencial é saber o que se deseja para conseguir chegar ao legítimo sucesso e à autonomia autêntica.
A terceira imagem ilustra a alimentação. Assim como no desenho inicial, a pressa contemporânea — demonstrada pelos largos passos do indivíduo — cria o desenrolar da representação. O personagem caminha apressadamente ao mesmo tempo que faz sua refeição: um hambúrguer e um refrigerante. Fast foods, assim como o próprio nome diz, ajudam na falta de tempo para preparar uma refeição, mas esse ato provoca diversas consequências para o organismo. Mesmo quando a alimentação não é — nem precisa ser — tão rápida, a má qualidade na escolha dos alimentos e as péssimas condições que comemos é preocupante. Almoçar a caminho de uma reunião, por exemplo, não é uma boa escolha nutricional, pois estaremos prestando atenção em todas as outras coisas, exceto no que é e de que forma ingerimos. Quem se importa com isso?
Na quarta ilustração, o homem dos cabelos escuros leva consigo um notebook. Seu rosto está totalmente voltado ao equipamento, concentrado, o que o aliena sobre o que ocorre à sua volta. Desatinado na última representação, o homem bate contra a placa de trânsito que está em frente por não estar prestando atenção às suas ações anteriores. De novo, representando a contemporaneidade, a alienação tecnológica provoca-nos a repensar a nossa rotina. Fechados para o mundo real e abertos ao virtual, os cidadãos ao redor do mundo estão, em vez de livres, tornando-se cada vez mais reféns de seus vícios. Os encontros olho no olho se tornaram vazios por estarmos mais focados na comunicação online. Não é mais o bar que reúne os amigos, é o Wi-Fi. Apesar das infinitas vantagens propiciadas pelo avanço da tecnologia, uma desvantagem significativa merece destaque: nunca estivemos tão alheios ao presente.

Levalet demonstra sua crítica ao modo como levamos a vida em pinturas com grande impacto, como em Ressources humaines, onde faz referência à padronização dos seres humanos. O artista torna as ruas e os ambientes como o deste grafite — uma rua comum, nada chamativa — suas telas. Em uma de suas discordâncias sobre a nossa forma de viver, ele demonstra, em cinco passos, o que pensa sobre a maneira com a qual nos relacionamos com o mundo. Felizes os que, por instantes, são capazes de apreciar.