Uma crítica à pressa contemporânea

É um grafite das ruas de Paris, mas poderia ser confundido com a situação de cada um de nós. Em uma crítica à forma como levamos nossa vida, os desenhos pretos e brancos e tridimensionais de Levalet ficam expostos em um simples muro com cor semelhante à areia. As ilustrações mostram ações típicas do nosso dia a dia contemporâneo, às quais fazemos automaticamente, quase como robôs controlados por outras pessoas.

Foto reprodução: Charles Leval (Levalet)

Um homem penteia seus escuros fios na primeira figura da La course olhada pelo lado esquerdo. Além de estar com a escova de cabelos em uma das mãos, ele leva uma lâmina de barbear ao lado direito do rosto. Sua camisa branca se sobpõe à gravata e se sobrepõe desalinhadamente à calça — ambas ausentes de cores. As condições da camisa dão a impressão de desalinho,de bagunça. E é isso mesmo que esta imagem quer representar: a confusão de um despertar apressado. É comum, em nossa vida agitada, que não tenhamos tempo de realizar tarefas projetando o futuro, retomando o passado, mas sempre alheios ao presente. A pressa passa a fazer parte da nossa rotina, tornando-se normal termos que começar o dia realizando multitarefas para nos arrumarmos a tempo do longo dia que há por vir.

Logo após o amanhecer corrido, o homem aparece segurando um bloco de anotações e falando ao telefone. Seus olhos fechados e linhas faciais demarcadas — como se expressasse raiva ou insatisfação — relacionam-se com a insatisfação profissional da grande maioria dos jovens-adultos na atualidade. O sucesso é cobrado desde muito cedo e de maneira distorcida. O triunfo virou sinônimo de dinheiro e riqueza, e a felicidade ficou em segundo plano. Quantas oportunidades são deixadas de lado ao limitarmos nosso futuro a planejamentos? Tem que se ter em mente que os rascunhos podem ser modificados a qualquer momento e a qualquer sinal de infelicidade. Ficar em uma faculdade só para manter as aparências, ficar em um emprego para talvez um dia ser rico… Será que deveríamos nos submeter a ganhar dinheiro a qualquer custo? Gritamos por todos os cantos que somos livres, mas o que é a liberdade real? Creio que ser subalterno aos ditadores de regras sociais não seja a verdadeira independência. O essencial é saber o que se deseja para conseguir chegar ao legítimo sucesso e à autonomia autêntica.

A terceira imagem ilustra a alimentação. Assim como no desenho inicial, a pressa contemporânea — demonstrada pelos largos passos do indivíduo — cria o desenrolar da representação. O personagem caminha apressadamente ao mesmo tempo que faz sua refeição: um hambúrguer e um refrigerante. Fast foods, assim como o próprio nome diz, ajudam na falta de tempo para preparar uma refeição, mas esse ato provoca diversas consequências para o organismo. Mesmo quando a alimentação não é — nem precisa ser — tão rápida, a má qualidade na escolha dos alimentos e as péssimas condições que comemos é preocupante. Almoçar a caminho de uma reunião, por exemplo, não é uma boa escolha nutricional, pois estaremos prestando atenção em todas as outras coisas, exceto no que é e de que forma ingerimos. Quem se importa com isso?

Na quarta ilustração, o homem dos cabelos escuros leva consigo um notebook. Seu rosto está totalmente voltado ao equipamento, concentrado, o que o aliena sobre o que ocorre à sua volta. Desatinado na última representação, o homem bate contra a placa de trânsito que está em frente por não estar prestando atenção às suas ações anteriores. De novo, representando a contemporaneidade, a alienação tecnológica provoca-nos a repensar a nossa rotina. Fechados para o mundo real e abertos ao virtual, os cidadãos ao redor do mundo estão, em vez de livres, tornando-se cada vez mais reféns de seus vícios. Os encontros olho no olho se tornaram vazios por estarmos mais focados na comunicação online. Não é mais o bar que reúne os amigos, é o Wi-Fi. Apesar das infinitas vantagens propiciadas pelo avanço da tecnologia, uma desvantagem significativa merece destaque: nunca estivemos tão alheios ao presente.

Foto reprodução: Charles Leval (Levalet)

Levalet demonstra sua crítica ao modo como levamos a vida em pinturas com grande impacto, como em Ressources humaines, onde faz referência à padronização dos seres humanos. O artista torna as ruas e os ambientes como o deste grafite — uma rua comum, nada chamativa — suas telas. Em uma de suas discordâncias sobre a nossa forma de viver, ele demonstra, em cinco passos, o que pensa sobre a maneira com a qual nos relacionamos com o mundo. Felizes os que, por instantes, são capazes de apreciar.