#4 Janelas

Nossa jornada da vida pode ser comparada com a construção de uma pintura. Podemos escolher um registro e transformá-lo em algo abstrato ou então nos esforçarmos para torná-lo um retrato quase fotográfico. Cabe apenas a nós como construir e finalizar esse quadro. Em conceitos abstratos, apenas o autor da obra sabe a real mensagem que deseja transpor através de seu desenho. Em cada traço de tinta sob a tela existe um significado, bem como suas cores, delicadeza, profundidade, expressando raiva, angústia, amor, felicidade, solidão…

Cores quentes instintivamente podem representar momentos de alegria para quem as observa, não sendo necessariamente sua verdadeira intenção. O abstrato nos permite elevar a imaginação para um nível além da racionalidade assim como a tela branca uma perfeita fachada para esconder verdadeiros sentimentos e uma realidade que não gostaria de ser revelada. Pode-se construir inúmeras linhas de raciocínio para qualquer conceito abstrato, bem como substantivos e objetos.

Se eu fosse um pintor (e tivesse habilidade para tal), desenharia janelas. Várias janelas em um grande prédio. Visto de frente, enxergaríamos apenas mais um edifício cheio de apartamentos e quartos. Mas tome uma segunda ótica, da visão de quem ocupa o interior daquele prédio. Cada janela nos proporciona uma visão única, uma sensação diferente de todas outras instaladas naquele local. Com certeza ao nos locomovermos para outra fachada, não teremos a mesma percepção de espaço e tempo se a compararmos com a visão anterior. Caso fosse possível sermos proprietário do prédio como um todo, escolheríamos aquela visão que melhor nos agradaria. Talvez a mais alta, uma cobertura por exemplo. Ou então um andar mais baixo para melhor conveniência de locomoção. Após algum tempo devido necessidades ou intempéries da vida, você seja obrigado a mudar de residência e assim sua vista não será mais a mesma com a qual estava habituado. Terá (ou sofrerá) para adaptar-se à nova paisagem sendo ela possivelmente não tão agradável. Ainda assim, você se esforça para que seja bom ao seu modo, e inevitavelmente a comparando sempre com aquela vista que sempre ficará em sua memória e que tanto lhe trouxe boas lembranças. E por fim se acostuma com o novo local.

Será isto uma evolução ou aceitação de nível inferior? Que nada pode durar para sempre e deveríamos aproveitar cada bom momento? A arte possibilita transportar esse tipo de raciocínio, onde podemos eternizar cada instante. Onde quem sabe, seja o real conceito de felicidade. Ela não é eterna, é momentânea e instantânea e podemos fazê-la como nossa janela, sabendo que em algum momento teremos de deixá-la para trás, carregando apenas aquele flash em nossa memória. E por mais que consigamos reproduzir em outra morada a mesma condição da ideal, jamais serão iguais, pois como no quadro, aquilo ainda é uma tela em branco esperando para ser preenchida e muito longe de sua forma final. Novamente, queremos o abstrato ou um retrato fotográfico?