A noite em que morri

Minha cabeça,

uma porção de merdas atormentavam.

O vizinho de cima,

a tarde inteira, insistente,

uma flauta doce tocava.

Fui na varanda e gritei:

“Para com essa desgraça!”

Puxei a arma e me matei.


Doeu demais aquele dia.

Aqui a gente diz

“Doeu como a porra”

“Doeu pa desgraça”

Doeu, mas eu quero ir fundo.

E na praça,

se eu de fato descer amanhã,

vou levar essa dor no meu peito,

no meu bolso,

na minha cara,

a fim de talvez legitima-la

e ai perceber que enlouqueci.


Falei com tantos.

Nossa, falei com vários.

Falei com todos o que procurei.

Falei com todos o que encontrei.

Falei com tantos deles

e hoje

sozinho ao vento na sala,

eu vi quem foi que perdi.


Depois que acabou,

a única pergunta pra mim era:

“Meu deus, onde foi que eu me perdi?”

No entanto,

suspeito,

que eu devia superar o efeito,

parar de enganar a mim mesmo desse jeito

perigoso,

cruel,

pouco solidário

e fazer a pergunta certa ao meu diário:

“Meu deus, alguma vez eu sequer estive aqui?”


Depois que eu me matei,

o vizinho desgraçado continuava com a flauta.

Eu sei que eu disse –

– que esse ano não sou mais de crendice,

mas ressuscitei.

Puxei a arma e dessa vez apontei pra ele,

que me encarou inerte,

indiferente ao meu sofrimento agreste

e continuou a tocar.

Eu disse: “Desgraçado, eu vou te matar!”

Seus dedos continuaram brincando com o ar

e eu caí pra trás,

gritando, perdido, incapaz.