A nova educação do NOVO

Raphael Bueno
Sep 4, 2018 · 4 min read

O ano é 2018, ano de eleição no Brasil. E no meio de tantos e tantos candidatos que já são velhas caras na política nacional, uns envolvidos em escândalos políticos, outros acumulam boas doses de polêmicas envolvendo declarações públicas e frases ditas por aí, surge mais um dessa “nova onda” liberal com cara e jeitão de gestor de start-up. Um Dória 2.0? Quem sabe? Pois bem, seu nome é João Amoedo, do partido NOVO. Pra quem não o conhece, João é um dos ditos outsiders, pessoas que vêm participar da vida política sem nunca antes ter se envolvido com isso, uma tendência que parece cada vez mais ganhar força por causa desse clima de insatisfação e estafa do povo frente à classe política que tanto nos aflige. Amoedo é desconhecido do grande público, é verdade, mas é um velho conhecido do setor bancário, de onde vem boa parte do seu apoio.

Entre as diversas propostas liberais traduzidas em privatizar tudo o que estiver ao alcance, o que mais me deixou intrigado foi algo que ele propôs para trazer uma saída ao grande problema que é a educação básica brasileira nos dias de hoje: o candidato lançou a “ nova” ideia de ofertar vouchers para famílias brasileira. Questão delicada essa, não? Existem diversos estudo apresentando os prós e contras desse tipo de medida. Uns defendem que o estímulo a livre concorrência e a “poderosa” mão invisível do mercado, faria com que inevitavelmente a qualidade do serviço prestado aumentasse, já que podendo escolher entre diversas escolas diferentes, as famílias que teriam o direito ao voucher, logo, escolheriam as melhores escolas para seus filhos. Indo direto ao assunto, o que mais me assusta no plano de educação do Amoedo e a implementação desses vouchers, é que essa medida não necessariamente aumentaria a qualidade da educação, veja, o que pode acontecer é praticamente o mesmo fenômeno que houve com o surgimento do ProUni. A questão principal, é que tende a acontecer uma separação ainda maior nos níveis educacionais, e explico: só reparar no aumento de universidades meia-boca que surgiu em todo o Brasil, principalmente no começo dessa década, com uma grande oferta de cursos presenciais e de EAD de qualidade duvidosa. Com as escolas não seria diferente, ainda mais com o fato de haver muito mais demanda pro ensino fundamental/médio do que para o ensino superior. Primeiro, o custo estimado que o governo tem por aluno matriculado na rede pública é de mais ou menos US$ 3000,00 mensais, o que é menor do que a média dos países desenvolvidos. Essa quantia gasta pelo governo é considerada uma das mais baixas do mundo, e mesmo sendo um valor considerado baixo, seria inocência pensar que o governo liberaria algum valor próximo aos US$ 3000,00 em voucher pra TODA criança ou adolescente que deseje estudar numa escola particular.

Primeiro que, a minoria estudaria nas escolas de ponta, ainda mais levando em consideração que se essas escolas tiverem o poder de avaliar quais alunos entrariam ou não através de provas de desempenho, muitos dos alunos oriundos da educação pública poderiam ser barrados já nesse filtro. Além do mais, boa parcela ficaria fadada a estudar em escolas públicas ou então em escolas particulares de baixo desempenho, mantendo assim o baixo nível de escolaridade desses alunos. Fora que, geralmente esses colégios que possuem grande renome e tradição, que já foram o colégio de ex-presidentes, governadores, donos de grandes empresas e afins, já possuem um público consolidado, e em muitos casos geracional, onde o avô, o filho e o neto estudaram na mesma escola. Depois, a grande maioria das escolas de ensino fundamental e médio privadas no país pertencem a grandes grupos educacionais, situação que quase chega ao monopólio em certas regiões do país. Dessa forma, sendo o lucro a maior intenção, necessariamente a qualidade do ensino ofertado fica em segundo plano, levando à demissões dos profissionais com mais tempo de trabalho e de maior remuneração, visando a contratação de profissionais recém formados e de salários bem inferiores, o que em muitos casos, por conta da pouca experiência ou mesmo da péssima formação acadêmica, acaba por reduzir a qualidade no ensino ofertado, fenômeno que podemos ver em faculdades ditas “populares” , principalmente a partir das bolsas do ProUni e do Fies — sendo essas, em sua maioria, pertencentes a grandes redes de universidades, como a Kroton, que foi impedida pelo Cade de comprar a Estácio para evitar monopólio no setor. Ou, a gigante norte-americana Laureate, que tem comprado diversas universidades em todo o mundo, por exemplo.

A solução para a educação brasileira, baseando-me na atual situação e naquilo que posso observar, passa muito mais pela por questões políticas. Vemos o descaso do governo ao aprovarem uma medida de congelamento de gastos com a educação pelos próximos 20 anos. Essa medida pode custar caro para a próxima geração que usará o serviço de ensino público, já que entrarão em um sistema ainda mais falido e precário do que já é hoje em dia. Além do que, é ir na contramão da educação mundial, onde os incentivos são sempre crescentes. Esse terreno se tornaria cada vez mais fértil para que todo o sistema público seja de vez entregue nas mãos do setor privado, fazendo com que uma parte menos abastada tenha ainda mais dificuldades de acesso a uma educação de qualidade, fazendo com que medidas como esse voucher sejam cada vez mais comuns. Primeiro a educação, depois a saúde e assim por diante…

Eu gostaria de saber se entre os doadores da campanha do Amoedo e os diversos contribuidores do partido NOVO, que conta com diversas pessoas ligadas ao setor bancário do país — principalmente do grupo Itaú e Santander —, não existem acionistas de grupos educacionais grandes como a própria Kroton, por exemplo. O próprio liberalismo defende a ideia de que “não existe almoço grátis”. Pelo visto, o preço que a educação brasileira (que aliás, já não está “boa das pernas”) vai pagar, acabará indo diretamente para os bolsos de uma meia dúzia, como sempre. Oremos.