O que aprendi com Chimamanda Ngozi e seu livro, Americanah

“Lagos, anos 1990. Enquanto Ifemelu e Obinze vivem o idílio do primeiro amor, a Nigéria enfrenta tempos sombrios sob um governo militar. Em busca de alternativas às universidades nacionais, paralisadas por sucessivas greves, a jovem Ifemelu muda-se para os Estados Unidos. Ao mesmo tempo que se destaca no meio acadêmico, ela depara pela primeira vez com a questão racial e com as agruras da vida de imigrante, mulher e negra.
Quinze anos mais tarde, Ifemelu é uma blogueira aclamada nos Estados Unidos, mas o tempo e o sucesso não atenuaram o apego à sua terra natal, tampouco anularam sua ligação com Obinze. Quando ela volta para a Nigéria, terá de encontrar seu lugar num país muito diferente do que deixou e na vida de seu companheiro de adolescência.” - Companhia das Letras

Conheci Americanah pelo excelente Mamilos, um podcast - ginástica mental de qualidade pra quem interessar - que naquela semana estava falando sobre consciência negra. Embromei um pouco pra ler mesmo o tema já tendo me fisgado só porque eu enrolo pra fazer qualquer coisa, mas agora cá estou eu indicando uma leitura bastante produtiva. Curiosamente, Chimamanda Ngozi, a autora, já tinha me chamado atenção na semana anterior quando ajudei minha irmã com um trabalho de geografia, talvez essa combinação podcast + dever de casa seja o que tenha me instigado a sair do circuito de leitores americanos e brasileiros pra mergulhar num mundo que ainda não havia explorado.

Sendo franco, eu nunca fui muito engajado em questões sociais só que o podcast e a curiosidade por uma autora nigeriana acabaram servindo como um despertar pra determinadas situações que eu costumava ignorar. Pensando agora pode parecer meio ridículo, mas mesmo não sendo branco, mesmo morando em uma cidade onde a maioria da população é negra, mesmo tendo um círculo de amizades variado, me espantei com a minha incapacidade TOTAL de imaginar personagens negros, inclusive quando suas características estão bem explícitas, obrigado Hollywood.

Outra coisa que me incomodou muito foi a percepção de como o brasileiro é hipócrita, e aqui eu me incluo com um constrangimento gigante. Sempre conversei muito com europeus e norte-americanos e todas as vezes, sem exceção, quando mencionava ter nascido no Brasil ouvia comentários sobre mulheres lindas, praias, samba, Amazônia e Rio de Janeiro. Como isso me irritava! Acabei percebendo que no que diz respeito à africanidade aqui não é muito diferente. Toda vez que pensava em África me vinham imagens quase que contraditórias: um continente (não país, pelo amor de Deus) belo, rico em fauna e flora que ao mesmo tempo estava devastado pela fome, pela miséria e doenças sexualmente transmissíveis. Eis que Americanah surge pra desmistificar essa imagem torta. Fui apresentado a uma dentre as muitas sociedades organizadas dentro do continente em forma de Estados (Gênio!). E qual não foi a minha surpresa quando descobri que em alguns aspectos a Nigéria é bem semelhante ao Brasil? Gente alegre, gente triste, gente rica, gente pobre, gente que tá preocupada em mudar o país, gente que quer chegar ao topo às custas de quem é honesto. Enfim, uma sociedade plural e que exatamente por isso é cheia de contradições, encantador. No mais, me doeu saber que dentre quase 10 anos de educação básica em história devo ter tido o privilégio (pois é) de ter visto umas três aulas sobre africanidades na vida, e isso em uma época em que eu não dava muito valor, o que não faz sentido, já que o continente é tão importante pra formação do Brasil de hoje quanto a Europa ou os Estados Unidos.

Voltando um pouco, queria aproveitar pra dizer que a forma que o país africano é trabalhado dentro do texto é um dos pontos altos do livro. Antes da volta de Ifemelu a sua terra natal, em momento algum, a questão da raça* é levantada. A protagonista só passa a se enxergar como negra quando sai da Nigéria e é obrigada a enfrentar o racismo americano, é sutil, mas tá lá, só precisa prestar atenção. Desnecessário mencionar que é uma delícia descobrir toda uma cultura tão igual e tão diferente da minha que não esteja no eixo EUA-Europa.

No fim de tudo você percebe que o livro e os romances que Ifemelu se envolve são só uma (excelente) desculpa pra levantar uma tese sobre a forma que o negro é visto em países ocidentais, principalmente lá na terra do Tio Sam. Tudo é muito bem explicado na mesma medida que é exemplificado, com isso as portas pra uma discussão mais ampla sobre racismo institucional, desigualdade social, preconceito de gênero e aculturação estão escancaradas. A única certeza é que, no fim, a história vai te fazer parar, respirar e repensar um pouco o contexto onde sua vida está inserida e o quanto você não entende nada sobre o mundo em que vive.

*Eu não sei se raça é a expressão mais adequada, mas tanto a tradução quanto o original optaram por esse termo e por isso aderi.