Pensamentos (ou: “Uma paixão que quase existiu”)

São Paulo, uma manhã de sol em março. 09 da manhã.

Ele entrou no ônibus sem nenhuma pretensão, era apenas mais uma viagem rumo ao centro para mais um dia de trabalho.
Ela entrou minutos depois, acompanhada de uma amiga, conversavam sobre a faculdade de direito que recém ingressara.
Lá pelas tantas os olhares se cruzaram. Como sempre acontece ocasionalmente num coletivo cheio. Não lotado. Apenas cheio.
Ele de pé, próximo a catraca, ela igualmente levantada, ao lado da cadeira onde a amiga estava sentada.
Da posição que estavam, era inevitável o contato visual ocasional. Ele desviou o olhar, constrangido. Ela nem percebeu.
Trânsito próximo a ponte que dava acesso a um dos bairros centrais. Mais uma vez o olhar se encontra.
Ele pensa: “Ops, melhor eu não ficar olhando, vou parecer louco”.
Ela pela primeira vez se dá conta da troca de olhares e pensa: “Por que esse garoto não para de me olhar?”
Ele tenta prestar atenção na rua, nas placas de publicidade, mas instintivamente vira o olhar para a inevitável direção dela e mais uma vez ambos se cruzam.
Ele pensa: “Ela está me encarando? Será que estou bonito hoje? Ela é muito interessante.”
Ela: “Devo estar com alguma coisa no rosto, não é possível. O que ele tanto olha em mim? Ele poderia mudar de lugar, estou ficando incomodada…. Mas ele é até bonitinho. Meu Deus, eu to olhando pra ele há uns 10 segundos seguidos, melhor olhar para o outro lado antes que pareça louca.”
Ele: “Será que já posso voltar meu olhar para a direção dela? Estou ficando com dor no pescoço de fingir olhar para o outro lado. Se pelo menos estivesse com meu livro…”
Ela: “Será que ele está me olhando ainda? Vou virar daqui a pouco para aquele lado, eu ficaria vermelha se percebesse ele me olhando.”
Como em sintonia, ambos se viram. Pá. Novo olhar cruzado. Ele esboçou um sorriso tímido, quase encabulado.
Ela: “Não é possível, o que será que ele tanto me olha? Será que é maluco ou tarado?”
Ele: “Ela não para de me olhar também! Se isso não for um flerte, não sei o que pode ser…”

Ela se vira para a amiga e voltam a conversar. Ele olha para ela.
Ele: “eu devia tomar alguma iniciativa, dar meu telefone num bilhete… sei lá… ela não tem aliança no dedo nem nada…. ops, tô olhando ela por muito tempo, melhor desviar o olhar.”
Uma pessoa pede informação ao cobrador, ele, do lado, ajuda e desvia o olhar. Ela olha para ele.
Ela: “Até que ele é simpático. Se não estivéssemos num ônibus eu até tentaria puxar assunto… Mas imagina só? Paquerar num ônibus…”
A amiga dela se levanta e anuncia: “vamos descer no próximo”.
Coincidentemente ele desceria lá.
Os dois não voltariam a se olhar, até a hora de descer, onde quase se esbarram. Ele diz formalmente “desculpa”. Ela retribui um sorriso e “não foi nada.”
Foi curta, mas foi uma paixonite dessas que batem e acabam.
Ambos desceram, tomaram rumos diferentes na rua e seguiram suas vidas.

Essa e outras histórias também no blog raphaelevangelista.wordpress.com

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