513

500 pessoas formam uma massa física impossível de passar desapercebida. O metrô na hora do rush. A praia no verão. Um minuto numa calçada barulhenta do centro da cidade. Ondas de pessoas. Indo. Vindo. Ficando e partindo. Porém, o que os unifica é o mero sentido de caminho. Lá estão por uma mera coincidência, a primeira vista.

Agora, imagine se estas 500 pessoas tivessem um sentido maior que seus trânsitos e destinos cotidianos; um objetivo, um sonho, uma tarefa grande ou pequena, que elas desejaram fazer juntas. 500 pessoas podem construir um prédio, uma ponte, um avião. Elas podem derrubar um muro que divide dois lugares e transformá-los em um lugar só. Elas podem ajudar uma cidade a se reerguer depois de uma enchente. Elas podem protestar contra a corrupção. Elas podem exigir direitos de minorias. Elas podem fazer uma horta comunitária. Elas podem reformar um parque. 500 pessoas, se tiverem o mesmo foco, podem fazer praticamente qualquer coisa.

Não 500, mas 513, pra dar o número exato, é a quantidade de deputados federais na Congresso Nacional. Lá, há bastante tempo, na grande maioria destes representantes, não conseguimos ver, sentir, escutar ou cheirar algo que se pareça com um ímpeto de se fazer algo genuinamente bom, livre de interesse próprio exclusivo. Tudo o que conseguimos enxergar é mediocridade, ganância, falta de escrúpulos, discursos ocos vindos de espíritos pequenos, que precisam de alguma ideia de poder e vantagem para terem satisfação na vida. E, ainda mais, para a infelicidade geral de todas as pessoas ao redor deles, não há espaço nestes projetos de poder para a felicidade de um povo inteiro. Além destes, há uma lomba acima e outras tantas abaixo, milhares de pessoas, encabidadas em alguma boquinha, em algum esquema, em algum arranjo ou acerto esculpidos por algum tipo de mentira, também focados em si e na fragilidade do seu pequeno poder. A Lei de Gerson, a lei que se prega popularmente que o certo é se levar vantagem em tudo, não poderia registrar melhor o tipo de guia que todas estas pessoas, muito mais do que uma boa porção dos 513 representantes federais para nossos estados na Câmara, tem da sua missão e propósito de vida.

Eu. Preciso. Levar. Vantagem.

É necessário pedir ajuda dos seus intestinos para imaginar estes exemplares de pessoa. A existência confirmada deste tipo de gente no nosso cotidiano, nos jornais e o que mais, promove um cerco as nossas almas, uma sensação sufocante de uma pequena morte, que tira um pouco da nossa própria chance de sermos bons.

E eu também, acho verdadeiramente, que a maioria do que chamei agora de “esta gente”, é absolutamente inocente. Inocente no sentido de já terem crescido no país do jeitinho, do abuso de autoridade, do privilégio, do aproveitamento, da “cervejinha”, da carteirada, do seu pirão sempre primeiro. Está em todos nós. Esta gente, como disse, não sabe, não faz ideia de como ser diferente. O dom da empatia, da caridade, do sentido coletivo. Eles acham que este caminho é o caminho dos fracos. Dos otários. O caminho das ovelhas.

No nosso íntimo, todos nós achamos que todos os outros querem nos fuder de alguma forma. Se você nasceu neste país, eu posso dizer isto com convicção. Ninguém escapa dessa úlcera. O nosso sexto sentido está ligado a todo tempo. É exaustivo. No Brasil, é fundamental ser esperto para não ser passado para trás e para fazer as coisas andarem.

Agora, me permita fazer um convite. Quero jogar um pouco de luz nestas trevas.

Imagine se estes 513 deputados federais fossem mulheres e homens incríveis.

Incrível, incrível mesmo. Gente boa. Da melhor índole. Com a melhor das intenções. Cidadãos de bem eleitos por outros tantos cidadãos de bem, ponderados e capazes de debater ideias distintas as suas próprias, em aceitar ideias melhores ou melhorar as suas próprias ideias a partir da ideia dos outros. Acima de agendas fixas da esquerda ou direita. Focados na melhor ideia que vem de qualquer lado. 513 deputados interessados em levantar todo dia para trabalhar e discutir problemas. Um deputado do Amazonas querendo dar um verdadeiro basta no desmatamento. Um deputado do Maranhão interessado em estimular o turismo sustentável. Um deputado do Mato Grosso do Sul querendo discutir saneamento básico, num país que metade do povo não tem acesso a algo tão importante. Um deputado de São Paulo querendo levar a reciclagem como prática mandatória no Brasil. 513 deputados que não estão interessados em cargos para familiares, mas em pessoas técnicas que podem ajudar mais e melhor. 513 mulheres e homens da melhor estirpe, que vão pesquisar formas de criar maior bem estar social, que vão procurar formas de modernizar nossa matriz energética e uma sociedade mais sustentável, que vão entender que é preciso melhores salários e condições de trabalho para professores, policiais, médicos, assistentes sociais, cientistas, bolsistas e tantas outros funcionários públicos importantíssimos para construir um futuro melhor. 513 pessoas interessadas em combater a burocracia, o aparelhamento, a corrupção e a impunidade, nunca passando pelo vexame de tentar se anistiar dos seus crimes. 513 pessoas que deixam suas religiões, dogmas pessoais e preconceitos em casa, respeitando um Estado que é laico e que entende que somos todos iguais perante a lei, onde ninguém merece prerrogativa de foro privilegiado.

Imagine 513 pessoas que não querem o poder, apenas se sentem honrados com o peso da responsabilidade e sabem o bem que podem fazer com este poder. 513 pessoas que usam seus cargos para, enfim, alcançar um bem maior para todo o povo.

Não da pra aguentar abrir o jornal e ver esse bando de gente tentando se anistiar das suas próprias mutretas, tentando proteger o absurdo que é o foro privilegiado, tentando coibir o estado de direito com leis tiradas da cartola. Anistiar boquinhas de caixa 2, manter o foro privilegiado, enfraquecer as leis anti-corrupção. Não. Não se pode anistiar nada. Não. Ninguém pode ter foro privilegiado num Estado que prega que todos são iguais perante a lei. E não, todos os atores de um esquema de corrupção tem que ser punidos, leia-se: a empresa e os funcionários desta empresa que se provaram corruptos.

Quando o sangue sobe ao ler sobre o que eles fazem, a pergunta que gostaria de fazer, de frente para cada um deles, é bem simples e objetiva:

“Vocês não tem vergonha?”

No estado de realidade que estamos vivendo, haja imaginação para criar na cabeça um mundo com estas 513 antíteses desta maioria que se apresenta no Congresso Nacional e nas outras casas da república, nas três esferas e nos três níveis federativos.

Porém, mesmo assim, continue a imaginar. Faça um esforço. Imagine 513 pessoas incríveis. Genuinamente inteligentes e caridosas. Mais uma boa porção delas, o suficiente para serem maioria, no Poder Executivo e no Judiciário, além de uma dose extra no restante do funcionalismo público, em todas as instâncias, que sabem e que apreciam o papel que elas tem de cuidadoras do restante da população.

Pronto. Qualquer país governado por estas pessoas que você imaginou, este grande punhado de gente é tudo o que se precisa para o Brasil se reerguer e ser grande do jeito que merece ser. Para aquele Brasil que nascemos, que nos ensinou a ficar sempre alerta, a ser esperto e sempre tirar proveito para si próprio, fique para trás, definitivamente. Estamos muito cansados. Estamos desolados. E não aguentamos mais viver com gente assim.

Evidente que parece um sonho utópico. Evidente também é a realidade que nos mostra toda vaidade que nos assola, as ideais gastas e absolutistas instaladas por todos os lados e do torpor que o desejo de poder pode promover no ser humano.

Eis a boa notícia: se é tão evidente, se é tão fervilhante às nossas artérias, sabemos o problema. Vivemos numa sociedade doente onde os valores materiais, individuais e egoístas, reinam sobre o bem comum. O desejo de se dar melhor que o outro o tempo inteiro está no ar. Nesta mesma direção, o que pode nos causar um pouco de vergonha é que, em todos nós, há um pouco disso na gente.

Querer uma nova sociedade, composta de novos valores parece um sonho utópico, mas parece também a melhor solução. Por que pensar pequeno? A pergunta certa talvez seja: como isto pode virar verdade? No sentido mais prático da pergunta, de se querer responder de fato esta pergunta, faço-a de novo: como isto pode virar verdade?

Parte desta pergunta passa pelos efeitos do desejo do ser humano por poder e dinheiro. Um desejo que nos cerca, mas que também está incubado dentro de nós. Um país de maioria pobre, o pensamento dinheirista e material é bastante evidente. É compreensível e muito preponderante. Porém, o pior é que de tão latente, este materialismo insistente, se olharmos ao redor, vamos ver que tudo isto que promove esta situação social é, em grande parte, considerado normal. Esta loucura é normal. O nosso normal.

É normal tentar dar dinheiro pro guarda. É normal não devolver o troco errado. É normal mijar na porta do vizinho. É normal furar fila. É normal comprar carro com placa de outra cidade para pagar menos imposto. E, com este mesmo carro, passar pelo acostamento. É normal enganar o convênio. É normal reclamar de enchente enquanto chuta a bituca de cigarro com o dedo. É normal achar casual a raridade de um negro ou um índio em cargos executivos, em qualquer ambiente de negócio. É normal abusar do feminino, de transformá-las em pedaços de carne. É normal se vingar dos mais ricos, chamá-los de coxinhas. Amendrontá-los. É normal ter medo, puro e cristalino medo, de toda pessoa vestida de forma humilde, que vem na direção contrária a sua na rua a noite. É normal achar errado um casamento gay. Tudo o que é horrível na nossa sociedade é também considerado normal pela maioria.

Então, se este é o normal que nos serviu para nos alicerçar como sociedade, eis o problema. O problema de aceitarmos este normal.

Este é um tipo de desabafo. Não tem muita estrutura, muito menos um fim claro. Talvez a ideia aqui é refletir sobre possíveis melhores escolhas no futuro, mas também pensar no que tem de normal em você que é, na verdade, estragado, ruim para você e para o país? Deve ter alguma coisa, eu acho.

Então, enquanto precisamos lutar contra aquela maioria de pessoas horríveis nos representando, é preciso fazer outro convite a você: imagine você mesmo, só que um pouco melhor, a partir de uma pergunta simples: o que há em você que pode melhorar?