Estudo para "Navio"

A boca de sal e sol.

A boca fechada,

De dentes de âmbar,

De porco do mato,

De lábios cortados,

De sangue esquecido nas fendas.


Mantém a ideia de que existe,

Por se escutar respirar,

Coberto de chuva de chumbo,

Contorna seu corpo,

Confirma o molde,

Ali parado,

Paralisado,

Ancorado no passado,

Declara seus, todos seus,

Os raios que um dia o arrancaram do berço.


Estes raios são meus.

São meus!

São meus também,

Estes punhos cerrados,

Navalhadas cristalizadas,

Em pele curtida de óleo preto.


O vento bravo, o vento!

Traz as gotas salgadas,

O sacudir, a turbulência.

Aquele dia que volta.

Aquele dia de pulsos atados,

De nó puxado na ganância do cachorro.


Este mar grita por mim.

Este raio grita por mim.

A tempestade grita por mim.

Destrói por mim.

Mata por mim.


Mata tudo de errado,

E o certo amalgamado que vai junto.

O certo que deu errado,

O nódulo arrancado,

A espátula que escapa,

Enquanto os olhos seguem,

O ferrolho girando no chão.


Este navio é um cavalo selvagem.

Relinches, coices,

Saltos e estampidos surdos.

Músculos de carvalho e mogno,

Uma estátua perfeita,

Esculpida,

Destruída em cada quadro do mundo que passa,

De um universo esfarelado,

Em mais um instante,

Um mar,

Quântico.


Que tipo de dia é esse?

Onde ninguém ousa perguntar as horas,

Ou como está o dia.

Que não é como todos os outros,

Mas é igual a todos os outros.


Vamos, vamos seu navio maldito!

As pedras crespas estão logo à frente.

Corais vermelhos, pontiagudos e verdes,

Lagostins laranja-queimado,

Caranguejos de capa azul,

Moréias pelos orifícios,

Girando pelas pernas,

Garras e amarras,

Estão todos,

Todos aqui que já nos aguardavam.


Em frente!

Salpicar,

Apertar,

Esfregar nossas feridas

Em toda nossa negação.


Todos presos ao convés,

Choram o perdão da criança mimada,

As cordas bem apertadas,

A vida de migalhas,

De limpar as reentrâncias,

Dos grandes tubarões brancos,

Em redemoinhos, abaixo,

No cadafalso que se tornou alçapão.


Meus amigos,

Este navio é meu.

Estes raios são meus.

Esta chuva que não cessa

E não cessará,

É minha também.


Escute esses tambores

Vindos do meu céu,

Rompendo nosso tórax,

Os rios de sangue,

Os elásticos esticados do peito a garganta,

O que ia ser dito e que não foi,

Traduzido neste grito grosso,

De ontem, de hoje, de agora,

Colocado para fora.


Escute estes tambores

Deste grande céu.

Dos meus raios,

Da minha raiva de outrora,

Do punho dilacerado,

Do grito arrancado,

E dos pedidos de cessação.


Adiante!

Não temos que parar agora.

Mil quilômetros de rochedos,

Mil covardes,

Mil traidores,

Dez mil vezes retornarei,

Para o carbono e para a fúria,

Rachar esta nau em dois,

Comer suas farpas frescas,

Passando a língua pelas mordidas.


Tome os raios que são seus,

A chuva de boca aberta,

A paralisia, o grito,

Ignorado os clamores,

Os pedidos dos charlatões,

As lamúrias dos infames,

Os infantes,

E as traições.


Este navio deve chegar ao fim,

Mas só quando as ondas cansarem,

Quando os pilares estalarem,

Quando esta chuva acabar,

Os raios, enfim, cessarem,

Ao fim e ao fundo,

Um corpo que dorme no mar.

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