Karl Marx e Allan Kardec foram contemporâneos e há quem sustente que o primeiro tenha frequentado as conhecidas reuniões do codificador espírita na segunda metade do século XIX (fato este sem nenhuma comprovação). Ambos foram marcantes ao seu tempo, pensadores que descortinaram suas respectivas doutrinas sob um aspecto totalmente destoante da realidade da sociedade de sua época.

Enquanto Marx procurou distanciar o homem completamente da religião, a fim de não submetê-lo aos dogmas da Igreja que pudessem incliná-lo ao capitalismo, Kardec deu nova roupagem ao conceito moral-cristão, admitindo uma doutrina espiritual tanto na base quanto na essência. Kardec, segundo a sua codificação espiritual, atribuiu uma tríplice característica à doutrina espírita, sendo esta religiosa, filosófica e científica, já Marx classificou a religião como sendo “o ópio do povo”.

Fato curioso é que, assim como Marx e o seu parceiro Engels nunca idealizaram o termo “marxismo” para designar o corpo de suas ideias, Kardec também nunca conjecturou que a doutrina codificada pudesse levar o seu nome, “kardecismo”. Marx sempre se referiu ao seu corpo de ideias como socialismo científico, pensamento materialista social, etc, mas nunca imaginou que a associação a sua teoria tivesse de necessariamente carregar o seu nome. Da mesma maneira, Kardec sempre ratificou que a doutrina espírita advinha de uma ideologia espiritual e não dele próprio, sem jamais ter a pretensão de batizar o conjunto doutrinário com o seu nome.

Muito embora Kardec tenha utilizado o método experimental, dando assim um caráter científico a sua doutrina, o fato dele se distanciar do materialismo e admitir o espiritualismo o afasta significativamente da ideologia de Marx. Contudo, há quem admita que o socialismo e o espiritismo guardem certa relação de similaridade, pelo menos do ponto de vista da rejeição aos valores atribuídos ao capital e a problematização da sociedade de classes.

Do método de Kardec resulta outra particularidade semelhante com o pensador alemão, Marx também utilizou-se da metodologia científica para esmiuçar o capitalismo, ao passo que Kardec o fez para codificar o que chamou de espiritismo. Da mesma maneira, Mark usou sua teoria para criticar problemas da sociedade que permeiam até hoje, como exploração, alienação, sofrimento físico e mental causado pelo trabalho, divisão de classes, etc. Enquanto Kardec também abordou questões sociais e existenciais que permanecem insolúveis para dinâmica social atual, como o real sentido da vida e da morte, causas dos sofrimentos, existência dos espíritos e a relação com mundo espiritual. Embora sobre temas eminentemente diferentes, os dois pensamentos trazem reflexões sobre aspectos que representam realidades ainda atuais e ativas na vida social e humana.

As duas ideologias passam a caminhar novamente em sentidos opostos quando tecem acerca da transformação. Marx sustenta uma revolução pela força, único meio capaz de livrar a classe oprimida da burguesia dominante, ao passo que, Kardec propõe uma transformação moral individual, sob um aspecto cristão, de maneira que a sociedade se modificará na medida em que os indivíduos se transformarem.

Fato incontestável é que ambos foram filósofos a frente de seu tempo que deixaram um legado de doutrina e pensamento a ser ainda descortinado e utilizado pela humanidade, longe de estarem ultrapassados, quem se detiver em estudá-los verá que a problemática de suas teorias permanece contemporânea.

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