A casa assombrada

Naquela casa escura e gelada, não há mais revistas, livros, cadernos, nem um pedacinho de papel sequer para anotar as ideias ou deixar um bilhete. Há talvez um ou outro caderno de receitas antigas perdido por aí e algum guia de cidade com mapas desatualizados. Mas, há uma TV e um aparelho de rádio, e aparelhos de celular. Tanto a TV e o rádio sintonizam apenas em um canal e, em ambos, há vozes que vociferam palavras de ordem e falam mal daqueles que se opõem a elas, e falam sobre economia, política segurança-pública saúde e de que é preciso mudar o país e de que é isso e aquilo e de que há um mal e ele deve ser combatido ferozmente. De vez em quando, passa algum programa de entretenimento inócuo de humor pastelão, muito sorriso afetado e com falas mui-to-bem-pla-ne-ja-das porque o povo busca a felicidade e quer ver coisas boas sem se preocupar muito com nada (e também não pode ver nada mais além dos sorrisos afetados, e das falas bem-pla-ne-ja-das; não devem pensar em mais nada), novela das 8, pastiche, muita propaganda, merchan, muita festa, muito sorriso, muito brilho, muito colorido, muito badalo, champanhe, don’t touch is art!

E aí tem também os celulares, os esperto-fones como dizem por aí, em que é possível acessar um mundo de muita diversidade, com muita informação e saberes espalhados pela rede. No entanto, nos muitos milhares de mensagens de whatsapp e perfis de facebook deste país, o que mais pululam são memes, mensagens coloridas de bom dia, boa tarde, boa noite, boa semana com anjinhos rodeados por glittler sobre cenários de campos silvestres ou belas quedas d’água, correntes e mensagens sensacionalistas carregados de emojis dessa vez pablo vittar foi longe demais, fake news, simpatia, rezas e orações, e vídeos de gatinhos fofos. O governo vai bloquear o whatsapp por 24h, veja imagens chocantes de criancinhas massacradas por seita satânica na Romênia, oi meu nome é Samara, tenho 14 anos… quer dizer, teria se ainda estivesse viva. Não quebre essa corrente. Repasse e terá uma vida próspera. Que você tenha um lindo dia e uma ótima semana.

E naquela casa decadente, fria e sombria, é o que sobrou, além de móveis velhos, e de pessoas velhas, retratos de sorrisos amarelos, um quadro torto pendurado na parede, teia de aranha pelos cantos, xícaras e bules há muito sem serem usados, pois há muito os tempos de glória e luz já se foram, e os filhos e netos cresceram todos e fugiram para outros lugares distantes, e os que já eram muito velhos antes já morreram e por isso as visitas rarearam e a casa, aos poucos, foi perdendo todo o seu brilho e encanto.

E então o que restou de divertimento a estes moradores desta casa foram esses aparelhos mágicos: a TV, o rádio e os celulares. E, às vezes, muito de vez em quando, um dedo de prosa entre si e entre um ou outro vizinho bem informado da cidade, que também recebe as mesmas informações pelos mesmos canais de TV, rádio, as mesmas correntes de zapzap, face e o jornaleco da cidade, malemá e porcamente redigido. Porque é o que tem neste lugar fim de mundo. A única livraria que havia por perto fechou faz tempo, porque ninguém tinha interesse em comprar livros — muito caro. E a biblioteca municipal foi abandonada à umidade cruel e às traças vorazes. É capaz até de já estarem maquinando novos planos para ela: demolir o prédio pra construir uma galeria de shopping em cima porque é o que dá dinheiro. E quando inaugurarem vai ser uma festa e todos ficarão muito curiosos, porque é novidade e porque quase não há opções de lazer na cidade. E vão tirar muitas fotos e fazer muitos vídeos, e vão comentar muito nas redes sociais falando bem ou mal, #novoshoppingdeSãoCiclano, hashtag isso hashtag aquilo e um outro se perguntará o que era aqui antes mesmo? A biblioteca? E um ou outro responderá que sabe que não sei? Não me lembro. Acho que devia ser um antro qualquer, não importa mais. Ah, então fizeram bem em construir essa galeria. Vai gerar mais empregos e movimentar a economia de São Ciclano. É bom, muito bom. Sim, excelente.

Eis que dias, semanas e meses se passarão e o Novo Shopping de São Ciclano já terá se tornado velho e ninguém mais vai dar muita bola, porque as coisas em São Ciclano são assim, nada vai pra frente e logo o povo se esquece. Um ou outro escândalo sempre acontece, uma nova procissão religiosa que chegou à cidade aparece, o número de usuários de drogas aumentou em 5 nos últimos meses, um gato preto foi morto em uma sexta-feira 13 e o tempo continua demorando muito pra passar. Assim, o jornaleco da cidade tem que reciclar as notícias, e os cidadãos vão inventando algumas coisas, aumentando um fato aqui e ali, sabe como é, tem que dar mais emoção aos relatos, chamar a atenção do povo. E assim vão se criando e reforçando os elos das correntes, que de mensagem em mensagem vão ficando cada vez maior e conseguem alcançar os cantos mais remotos deste imenso país. E o falso torna-se verdadeiro. E o que é verdadeiro de verdade, ninguém mais acredita.

E o que aconteceu naquela casa velha foi isso. Enlouqueceram e adoeceram todos porque passaram a serem enlaçados por estas correntes que agora já se enraizaram em suas mentes e já não mais conseguem pensar com a mesma clareza de outrora. E vão continuar repetindo feito papagaios as coisas que viram na Internet e na TV e vão repassar as correntes porque não deusmelivre quebrar corrente vai que dá azar, vai que eu fico mais pobre, vai que a Samara aparece né? Melhor prevenir do que remediar. Nossa, a Universidade de São Beltrano achou a cura pro câncer e não liberou pro povo, aquela tal de fosfo… fosfo o que mesmo? Ah, não importa. Vou repassar porque mais gente precisa saber desse absurdo. Comadre, você viu isso aqui? O quê? Acabei de te repassar. Veja. A ditadura gayzista quer instalar o kit gay em todas as escolas. Ah, esses desgraçados! Ô, comadre! Depois vê esse vídeo sobre tratamento caseiro com 159 ervas diferentes mais água alcalina com limão pra tratar o câncer de cólon. Aproveita também e veja esse vídeo de filhotinhos de cachorro andando na grama. É super fofo.

Eis que em um belo dia de sol ardido e vento frio, dois dos filhos dos donos da casa vieram para visitar. E viram o estado da casa e o aspecto doentio de seus habitantes e ficaram tristes e por isso não se demoraram muito. Engoliram o café ralo e comeram o bolo seco numa bocada só e foram logo se levantando, ao que os pais falaram, fiquem mais um pouco, pro jantar. Mas os filhos já não tinham mais muito assunto, e nem queriam saber das simpatias e orações pra curar não sei que lá que a mãe e a tia insistiam em recomendar, muito menos discutir política, economia, saúde etc. etc. com o pai. Falar com aqueles velhos teimosos dava quase no mesmo que falar às paredes. No entanto, algumas dúvidas, curiosidades e perguntas eram inevitáveis.

— Mas o quê? — perguntou exaltado o filho — Os senhores vão votar no Bozo?

— Sim, nós vamos! Só ele pode mudar os rumos deste país.

— Pelo amor de deus! — a filha exclamou espantada — Esse cara é um louco.

— Justamente! Só um louco mesmo pra mudar o Brasil! — disse a mãe ainda mais exaltada.

— Não posso acreditar… — disse o filho.

— Nem eu… — disse a filha.

— Pois acreditem. — disse o pai.

Depois de ficarem presos à mesa de cozinha, discutindo por pelo menos mais 20 minutos, os filhos finalmente se deram por derrotados e foram embora desgostosos. Saíram portão afora sem olharem pra trás, magoadíssimos e jurando nunca mais falarem com seus pais. Os habitantes daquela casa, por sua vez, ficaram praguejando aqueles jovens e perguntando-se onde foi que erraram? E continuaram a falar mal dos próprios filhos e passaram a comentar que não, na nossa época era tudo muito melhor mesmo, que esses jovens de hoje em dia não sabem de nada e acreditam em qualquer baboseira que isso e aquilo, que onde já se viu é uma vergonha pro país… que está tudo um caos e pegando fogo… e aquela facada? Minha nossa senhora jesus amado que deus nos proteja. Amém.

Na madrugada de sexta-feira daquela mesma semana, a biblioteca da cidade pegou fogo misteriosamente. E, depois de alguns meses, construiu-se um shopping em seu lugar. A inauguração foi um estrondo e veio até gente de fora. Só não vieram os filhos daquela família, uma pena.

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