A vida adulta esfacelou meu brilho

Quase todas nossas ações são reversíveis, por mais difíceis ou desafiadoras que pareçam; talvez se concentrem e estoquem na transição da maturidade para que tenhamos o choque de realidade sobre a vida. Há muitos truques, dicas e atalhos para conseguir driblar essa fase de interpelações estridentes, das vozes da responsabilidade que ecoam na nossa mente e sempre nos fazem pensar no que podia ter sido. A reversibilidade, apesar de vívida na juventude, esmorece, é cadente, em companhia a dificuldade, cumulativa e caso não estancada, presente e crescente. Progressão inversa. Não é comum que uma vida tão jovem peça apelo e arrego, e hipóteses não faltam. Pode ser uma crise de identidade, depressão, um lapso, uma má fase. Ter esse tipo de resposta não é tão satisfatório, pelo menos não quando diagnostica qual foi o erro que descontinuou a sua vida. Poderia relatar todas as ações que fizeram um jovem sonhador se tornar um homem sem reação, mas nada de surpreendente aconteceu, sou apenas um caso clássico do que se chama viver. Me desfiz das minhas habilidades porque não se comunicavam com meus sonhos, me desfiz dos meus sonhos porque não se comunicavam com minha realidade, e me desfaço da realidade, porque cada vez mais se forma nítida não relevante quanto a minhas habilidades e aos meus sonhos. Não sou persistente, tampouco tenho o perfil de vitorioso ou guerreiro. Estou inerte e parado. Sei o que os olhos que me apontam dizem, mas não me importa. Às vezes é bom viver uma mal temporada, assim como é bom segurar o sono: A melhor noite de sono é aquela em que você cai na cama, inconsciente. Meu sono muitas vezes é para que o dia passe mais rápido, e minhas sextas-feiras já são como as segundas e as terças. O prazer da vida está nos ápices, de quem sabe que após um dia cansativo, lhe espera uma cama, uma mesa e um prato. O morto de sede, o morto de sono, o morto de fome. Estão mortos por estarem tão vivos a ponto de não terem tempo de suprir as próprias necessidades. É esse o tipo de morte que eu quero ter acesso. Não tentarei viver bem agora, porque não posso estar bem, não aceito ser feliz pela metade, então, destrincharei, dormirei e farei fogueira na infelicidade, em busca da sua gênese e dos danos causados até agora. Não mereço ser feliz enquanto não entender em qual intervalo meu brilho se perdeu. É um confronto próprio, que rende vários conflitos existenciais. Nada que a solidão não permita. Se é pra ser infeliz, sou intensamente. Minha infelicidade tem trilha sonora e referência bibliográfica. Ela deve ser marcante, para que no dia que eu me livrar dela, possa lembrar da importância, do que ela me permitiu entender, de quem ela me permitiu perceber. É no opaco que eu dou a mão para quem também enxerga o fosco. Ninguém enxerga no escuro, mas de mãos dadas ele se torna menos atordoante. A infelicidade me impossibilitou de interagir com o bem-estar dos felizes, mas me deu coragem para ser intrometido na hora de compartilhar o amargor com os melancólicos, o que é bem mais relevante que engrandecer quem já está nas alturas.

https://www.youtube.com/watch?v=k5H4-Eafu8A

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