Morto

Ao mesmo tempo que não era fácil acordar sozinho naquele quarto, de alguma maneira, estar só era uma bênção por mais que doesse. Marco achava que talvez fosse isso o que amortecesse aquele período de luto, de prisão, a sensação de liberdade, de libertação. Com os olhos abertos e fixados na mancha de tinta no teto, ele pensava, mas não sabia precisar quando aquela sensação de desconforto tinha começado, tudo estava tão bem, tão natural entre os dois, afinal aquilo era amor, não era? Até que em algum ponto… E foi crescendo, crescendo, até se tornar aquele peso entre os dois, um fardo, ar rarefeito difícil de respirar, para então acabar de uma vez sem aviso. A vida tem dessas coisas, ou a morte. Com passos lentos, pensando que podia adiar o começo do dia, Marco vagou pelo quarto em direção ao banheiro, como sempre fez, parando no meio do caminho para olhar o topo da janela, que já não tinha há algum tempo o apanhador de sonhos que ficava ali. Quem tinha tirado?

Agora o apartamento parecia vazio, mesmo o barulho dos carros na avenida era bem distante, já não incomodava tanto, e era como se as cores das paredes, do tecido da cortina, do tapete, das almofadas, tudo tivesse esmaecido, como se tivesse perdido a graça. Tom realmente fazia falta. Tom realmente fazia falta? E o pensamento voltava ao começo, um sentimento ambíguo de satisfação com culpa. Já não havia mais aquela atmosfera tensa, desagradável, mas ela tinha levado consigo o amor, o carinho, o luto. Era isso que ele temia. Que tudo não tivesse passado de um mal entendido. “Ah, talvez eu não tivesse amado ele tanto assim, talvez não tenha significado tudo o que achava que era”.

Com a água caindo no rosto e embaçando o box do chuveiro, aquele sentimento ambíguo ia crescendo como se tivesse tomando forma, tomando conta do corpo. É, ele já não gostava de Tom tanto assim, mas não se sentia preparado para dar qualquer passo à frente. Tudo bem não conseguir fazer isso, Marco pensava, não faz tanto tempo assim, respeite o seu luto. Mas ele não sabia se ainda havia luto. Já fazia três meses que Tom estava morto, e isso não ia mudar.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Raphael Andrade’s story.