Vendedores ambulantes ganham a vida nos sinaleiros de Goiânia

Raphael Bezerra
Aug 28, 2017 · 6 min read

A solução de muitos para não cair na vida do crime é enfrentar o sol quente e correr contra os 40 segundos dos sinaleiros para vender seus produtos. Ambulantes contam como é trabalhar no trânsito e as suas dificuldades

Texto: Raphael Bezerra Fotografia: André Costa

Sob o Sol escaldante do mês de agosto ou as chuvas de novembros, vendedores ambulantes, artistas de rua e trabalhadores ganham a vida nos sinaleiros de toda a capital goiana. A reportagem do Diário da Manhã foi às ruas da metrópole para conhecer um pouco da história desses empresários que ganham o sustento próprio e alimentam famílias graças às fileiras de carros paradas nos semáforos.

Vinícius Silva de paula, trabalha no sinaleiro da Avenida Independência com a rua 66. Sempre com um sorriso no rosto, ele preferiu a vida dura do trabalho a vida do crime. Foto: André Costa

Em média, os sinaleiros goianos ficam fechados por 40 segundos. Este é tempo que os vendedores tem para apresentar seu produto, convencer a clientela e finalizar a venda. O tempo é curto, mas ainda dá tempo de desejar um bom dia ao comprador e correr para o próximo. Nem o vencedor do reality show “Shark Tank” (reality em que empreendedores vendiam suas ideias e propostas para um grupo de investidores) tem tamanha habilidade e agilidade na persuasão.

A rotina começa já muito cedo, muitos já estão de pé ás 05 da manhã, seja para ir buscar a mercadoria em algum dos atacadistas espalhados pela capital ou para deslocar-se para seu posto de vendas. Além da rotina puxada nos sinaleiros sob o sol forte, a maioria dos ambulantes precisam ainda enfrentar os riscos do transporte coletivo.

Wellinton, 23, trabalha de domingo a domingo no sinaleiro do viaduto da BR 153 com a Avenida Anhanguera. Para ele que vende panos de chão e de pratos, o serviço é a única opção. “A gente não vai roubar né. Tenho 3 crianças em casa além da minha mulher. Tenho uma filha de 2 meses de idade, preciso levar as coisas pra casa”, conta.

A história de Wellinton como vendedor começou muito cedo. Aos 6 anos de idade ele já vendia mexerica nos sinaleiros para complementar a renda familiar. Apesar das dificuldades, o vendedor ambulante conseguiu um emprego formal como frentista de posto. Quando a crise no Brasil piorou, ele foi demitido do emprego e se viu sem saída, a opção era voltar para o sinaleiro. “Estou trabalhando aqui nesse cruzamento tem 3 meses, meu amigo que me trouxe, ele precisava de ajuda então eu vim”, relata.

Batalhador, desde criança Wellinton lutou com as próprias forças para sobreviver. Morador do Jardim Novo Mundo ele conta as dificuldades enfrentadas por quem precisa encarar o corredor de carros parados nos sinaleiros. “A pior parte é as pessoas que destratam a gente. Ninguém é melhor que ninguém, eles acham que só porque a gente tá aqui no sinaleiro é pior que eles. A gente não tá aqui porque gosta, precisamos sobreviver, precisamos levar comida pra casa”, revela.

Além das humilhações, o jovem revela que os corredores oferecem muitos perigos à saúde do ambulante. “Além do sol quente, a gente corre muito risco aqui atravessando entre os carros, correndo no meio deles. Eu já sofri muitos acidentes, já fui atropelado por carro, por moto, caminhão já passou por cima do meu pé. Às vezes a gente está distraído e nem vê os carros se aproximando, o pior de tudo são as motos, que disputam espaço com a gente no corredor” diz.

Vendedor Ambulante relata as dificuldades de enfrentar o trânsito para vender seus produtos.

“Pode entrar no meu escritório, fiquem a vontade. Aceita um cafezinho?”, diz Orialli Ribeiro ao receber a equipe de reportagem do Diário da Manhã na esquina em que trabalha todos os dias.

Além de Wellinton há outras milhares de pessoas que ganham a vida graças aos 40 segundos do semáforo. O vendedor ambulante Orialli Ribeiro é um desses. Ele conta que vender mercadorias no sinaleiro é seu plano “A”. “Sou corretor de imóveis autônomo, mas o meu plano A é esse aqui, a minha qualidade de vida vem daqui. Dize que é fácil não é, tem o vai pra lá e o vem pra cá toda hora. Mas eu prefiro trabalhar assim do que ir trabalhar para os outros. Eu só saio daqui quando bato minha meta, só saio quando tenho meus 150 de lucro”, revela.

Orialli tem uma rotina um pouco diferente dos demais, pela manhã ele costuma lidar com os clientes que estão interessados em comprar casas, apartamentos ou lotes, como corretor o trabalho é bem diferente dos sinaleiros. “Pela manhã eu faço meus atendimentos, faço a compra das mercadorias, almoço e venho pro sinaleiro. Eu sou satisfeito com essa profissão. Minha qualidade de vida, meu conforto e meus compromissos eu tiro do trânsito. Eu não vou é roubar e não sou bonito pra ser garoto de programa”, diz o vendedor ambulante sempre bem humorado.

No mesmo sinaleiro que Orialli, o Batman trabalha vendendo chicletes a 2 R$. Junto aos chicletes, Arlon Samuel deixa uma mensagem para os clientes: “Meu sonho é me casar e ver minha noiva de vestido branco, preciso da sua colaboração com um excelente produto”, diz o bilhete. Arlon trabalhava como garçom nos bares da capital, ele diz que preferiu trabalhar no trânsito. Com o sonho de se casar, ele trabalha fantasiado de Batman, segundo ele, a estratégia é para chamar a atenção dos clientes. Criatividade e bom humor são os pontos principais de Arlon que antes de se fantasiar de Batman vendia água no sinaleiro da rua 85 vestindo-se como garçom.

Diferentemente dos vendedores ambulantes, há aqueles que oferecem algum tipo de serviço nos sinaleiros. Seja artistas de rua ou limpadores de parabrisa, a dificuldade relatada por eles é quase sempre a mesma: o desprezo e a falta de respeito. Vinicius Silva de Paula começou a trabalhar no sinaleiro como lavador de parabrisas dos veículos que aguardam a abertura do sinaleiro. “Moro com minha mãe e irmã e ajudo em casa. Tem três semanas que tô trabalhando aqui, não tem emprego pra ninguém, governo só tira dinheiro e não ajuda o povo, mas é melhor do que roubar. Tem pessoas que tratam bem, já outras xingam, ofendem, mas levamos na esportiva e sempre com um sorriso no rosto por que é isso que vale”, diz Vinicius.

Arlon Samuel sonha em se casar, ele achou na fantasia do Batman a solução para chamar a atenção dos seus clientes.

Junto com Vinícius, no sinaleiro da avenida Independência com a rua 66 trabalha outro jovem. Os dois vão juntos para o trabalho, saem do Senador Canedo todos os dias às 06 hora. Ele conta como foram parar ali. “A gente viu nosso amigo trabalhando aqui e pedimos uma oportunidade e ele ajudou e ensinou a gente. Eu tenho outro emprego, entro no trabalho às 22h e saio as 05. Estou aqui porque o salário mínimo é uma precariedade, a gente recebe, tira o salário do banco mas vai só pra pagar as contas”, conta o rapaz.

“Ó o Rapa”

Do outro lado da moeda, a Prefeitura interfere na vida e no trabalho dos ambulantes. Os fiscais são conhecidos como o Rapa, termo utilizado pelos ambulantes pois a fiscalização costuma levar os produtos dos ambulantes. “É muito triste né, a gente está aqui trabalhando, fazendo um serviço digno e honesto pra vir a prefeitura e tomar nossas coisas. Parece que o Iris (prefeito de Goiânia) não gosta muito de camelô. Mas é assim, eles tomam e a gente compra de novo, por que é melhor do que estar na rua roubando”, diz Wellinton, 23, que vende panos de chão. A perseverança dos ambulantes é a única saída contra a fiscalização, apesar da perseguição, não desistir é o que resta para aqueles que optaram por um trabalho digno e honesto.

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    Raphael Bezerra

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    Jornalista — Fotógrafo — Escritor —

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