Dois jogos para a posteridade

2005. Embora ainda moleque, já havia escolhido o São Paulo para torcer e amar. Dois anos antes, inclusive, chorei pela primeira vez por causa do time. O fatídico jogo? Aquele diante do Corinthians, na final do Campeonato Paulista. Chorei copiosamente, fiquei desolado. Meu pai, vascaíno, me abraçou e disse que o futebol é assim. Bom, hoje eu vejo que é muito, mas muito pior — e cruel.

Voltemos a 2005. O São Paulo sagrou-se campeão do mesmo Paulistão e eu, claro, comemorei demais — ah, e zoei meu vizinho, que encheu meu saco após a derrota de 2003. Encaixada, a equipe jogava muita bola e seguia firme em busca do terceiro título da Libertadores — naquela época eu nem sabia o tamanho de uma Copa, meu deus.

Confesso que lembro de pouquíssimas coisas da primeira fase da competição. Tenho algumas imagens claras na minha memória, como o jogo diante do Quilmes, no Morumbi — com, também, o episódio de racismo envolvendo Grafite e Desábato — e o jogo fora de casa contra o The Strongest.

Diário Olé repercutindo o caso (Foto: Reprodução/Diário Olé)

Fizemos uma campanha razoável na fase de grupos. Com 12 pontos, ficamos na primeira colocação: três vitórias, três empates e nenhuma derrota. E eis então que o futebol aprontou mais uma, e colocou São Paulo e Palmeiras frente a frente nas oitavas. Antes de contar sobre os dois jogos, vale ressaltar uma coisa: as duas equipes, antes dos duelos em 2005, se enfrentaram quatro vezes pela Libertadores. Vamos aos resultados:

● 30 de março de 1974: São Paulo 2x0 Palmeiras — 1ª fase (Fase de grupos)

● 24 de abril de 1974: Palmeiras 1x2 São Paulo — 1ª fase (Fase de grupos)

● 27 de abril de 1994: Palmeiras 0x0 São Paulo — Oitavas (1ª partida)

● 24 de julho de 1994: São Paulo 2x1 Palmeiras — Oitavas (2ª partida) — São Paulo classificado

Ou seja, o Palmeiras, em quatro jogos pela competição internacional, havia marcado apenas dois gols e empatado um jogo, perdendo os outros três. Imagino eu que eles foram para as oitavas de 2005 com o São Paulo engasgado, e fariam tudo para avançar às quartas.

Bom, sem mais enrolação, falemos sobre as duas partidas. O primeiro jogo, disputado no campo do adversário, como de costume, foi tenso. Lembro que, de casa, acompanhei ao lado do meu pai. Meu tio, palmeirense fanático, foi ao estádio — na época, era o único alviverde da minha família e o único que eu conhecia.

As 18.947 pessoas que foram ao Palestra na noite do dia 18 de maio viram um clássico gigantesco. A inveja que eu tenho da pequena parte de são-paulinos que foram em território palmeirense naquele dia é imensa. Aos 14 do segundo tempo, explodiram de alegria com o golaço de muito longe do nosso lateral Cicinho — e, no meu sofá, acreditem, não tive como gritar, já que minha mãe estava dormindo para acordar cedo no dia seguinte.

O nosso time que foi a campo é esse aqui: Rogério Ceni; Cicinho, Lugano, Fabão e Júnior; Renan, Mineiro, Josué e Danilo; Grafite (Diego Tardelli) e Luizão (Edcarlos). No banco, o técnicoPaulo Autuori.

O Lance! repercutindo sobre o jogo (Foto: Reprodução/Diário Lance!)

A vitória deixava a equipe Tricolor em ótimas condições para o jogo da volta, no Morumbi. Este jogo sim, eu lembro muito bem! Truncado, pegado, ali eu percebia o que era um São Paulo e Palmeiras. A expulsão de Josué, aos nove do segundo tempo, me fez ficar preocupado. A pressão do adversário, ainda mais. Só que com um pênalti claríssimo aos 34, Rogério marcou e me tranquilizou — não só eu, mas também os 60.343 que estavam no Morumbi.

No finalzinho, Cicinho foi bater uma falta de muito longe. Marcos, goleiro deles, não colocou ninguém na barreira — e, sinceramente, nem precisava mesmo, era muito longe. Pois bem, o nosso lateral chutou e ele aceitou. Imediatamente, lembro de ter comentado com o meu pai: “Nossa, esse goleiro é muito burro”. A freguesia aumentava.

Não só a freguesia na Libertadores ganhava mais alguns capítulos, mas também no ano. Ao final dele, o Palmeiras venceu apenas uma vez o São Paulo, por 2 a 1. O Tricolor, além das partidas pela Libertadores, ainda venceu por 2 a 1 e 3 a 0 (este no Palestra) pelo Brasileiro. Acho que eles sofreram um pouco com a gente, né?

Outra curiosidade sobre a eliminatória é em relação a Rogério Ceni. Com o gol no jogo de volta, o goleiro chegou ao seu oitavo tento, igualando a marca de 2000. Ao final do ano, o M1T0 fez incríveis 21 gols, melhor temporada de sua carreira. Foram 11 de faltas e 10 de pênaltis. Além disso, o Palmeiras tornava-se a maior vítima do capitão: cinco gols — foram 7 ao fim de sua carreira.

Gol de Rogério Ceni, em 2005 (Foto: Beto Barata/Estadão)

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